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Vila Nova de Famalicão | 27 Fev 2020
Mensagem para a Quaresma de D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga
Quaresma: conhecimento, radicalidade, profetismo
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A Quaresma, no meio de tantas transformações sociais, deve continuar a ser um tempo forte, um tempo favorável. O ritmo da vida continua, infelizmente, a ser avassalador. Convido, por isso, a que reservemos alguns momentos para a vida pessoal e comunitária, como crentes que somos e membros da Igreja que amamos. Não queremos afastar-nos do Programa Pastoral “Levantar-se e Semear Esperança”. Ele deve, por isso, ser inspirador. A cada um exigirá algo de muito concreto.
O verbo levantar-se corresponde ao termo grego anastasis, que significa ressurreição. É um verbo que exige tudo de nós, todos os dias, e não apenas num tempo litúrgico. Também agora devemos ressuscitar para uma vida nova com todas as implicações que isso possa exigir. A Quaresma é uma
graça para que isso aconteça.
Para ressuscitar teremos de sair do habitual, da rotina dos dias sempre iguais e do raquitismo espiritual. Importa ir mais além, alargar horizontes, sentir a impaciência da mudança e a necessidade de uma transformação em ritmo crescente. É um programa muito concreto e exigente.
Proponho, para isso, três dimensões a ter presente na caminhada quaresmal. De cada uma delas deve emergir um conjunto de iniciativas a assumir responsavelmente, por cada cristão e pelas comunidades.
– Quaresma, tempo de transformação pessoal. A Palavra de Deus é sempre acutilante, não deixa nada igual e transforma-nos interiormente. Nunca conseguiremos a renovação da Igreja e do mundo sem homens e mulheres tocados pela novidade do Evangelho. Com S. Bartolomeu dos Mártires deixemos que a Palavra “ilumine” todos os recantos da vida e ousemos trilhar um caminho de mudanças concretas. Sugiro, por isso, a leitura da Sagrada Escritura, de um bom livro de espiritualidade ou ainda o pensamento dos Padres da Igreja. Só o conhecimento doutrinal motivará para o que importa ser.
– Quaresma, tempo de renovação eclesial. Respiramos e testemunhamos insatisfação. Na Arquidiocese de Braga já muito se tem feito, mas podemos ir sempre mais longe. Deixemo-nos interpelar pela entusiasmante pergunta: Que rosto queremos para a Igreja, hoje, aqui e agora? Não podem ser os outros a responder. A solução está nas mãos de cada um. Mais do que nunca
precisamos de radicalidade nas opções e nas atitudes.
A nossa vida é insubstituível no projecto de Deus para a sua Igreja. Mas, como vivemos esta corresponsabilidade. Tristes? Desalentados? Desanimados? Com S. Bartolomeu dos Mártires temos de “arder”, colocar paixão, mostrar alegria e radicaldade nas opções pessoais e pastorais.
– Quaresma, tempo de profetismo social. A Igreja não é uma casa fechada. Deve ter as portas abertas para conhecer e amar o mundo. S. Bartolomeu dos Mártires seguiu o caminho da diferença, numa identidade que não se confundia mas que transformava as situações. Não podemos ter medo de denunciar, de incomodar, de propor alternativas. Somos profetas de um mundo diferente. Cito uma parte da mensagem do Santo Padre para a Quaresma: “Colocar o mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presente nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida, desde o nascimento até à morte do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria”.
Olhemos, ainda, para o lamentável fenómeno da violência. Parece que já não conseguimos evitá-lo na família, nas escolas, nos ambientes profissionais e no mundo da saúde. Muitos solicitam a segurança das forças policiais. A Igreja apresenta, contudo, uma doutrina e uma vida alicerçada no amor,
pautada pela aceitação da diferença e marcada pela permanente exigência do perdão. Este é um caminho preventivo e educativo, mas ambos são necessários! Apenas quando construímos a sociedade a partir de dentro garantimos resultados positivos.
A Quaresma é, então, um tempo para levantar-se e semear a esperança, transformando a vida através do conhecimento doutrinal, renovando a vida eclesial e praticando um profetismo social.
Aceitemos este tríptico para que a Quaresma seja, de facto, Quaresma. Boa caminhada!

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz


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