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Pe. Miguel Miranda | 11 Jan 2018
A ressurreição de Inger
Artigo de opinião do Pe. Miguel Miranda.
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Sessenta e três anos após a sua realização, esse monumento da 7ª arte intitulado “A Palavra” – original dinamarquês “Ordet” – permanece como (ok, isto vai parecer pindérico, aguenta) um dos mais espirituais/místicos filmes de sempre (não te queixes, eu avisei). O opus de Carl Dreyer emparelha com “Diário dum pároco de aldeia” (Bresson, 1951), “A sombra do caçador” (Laughton, 1955), “Marcelino pão e vinho” (Ladislao Vadja, 1955), “O sétimo selo” (Bergman, 1957) e “Andrei Rublev” (Tarkovski, 1966).

“A Palavra” descende da vetusta tradição de transpor peças de teatro para película, estando como que naturalmente dividido em “actos” – podemos quase afirmar, neste sentido, que há um filme antes da morte de Inger e outro depois. A forma como os cenários se sucedem também reforça a ideia dessa estruturação. Dreyer ficara tão impressionado com a peça de Kaj Munk, a cuja estreia assistira em 1932, que nunca abriu mão da ideia de a “converter” ao cinema, vindo a fazê-lo somente 22 anos volvidos sobre aquele momento, ao cabo de uma longa e cuidadosa preparação.

Abundam em “A Palavra” os nomes bíblicos e as citações bíblicas. São todas neo-testamentárias e quase todas saídas da boca de João, personagem espectral e profético que arrasta o filme consigo tal como arrasta o próprio corpo de ex-estudante de Teologia. “Todo aquele estudo fez-lhe mal”, lamenta a família, profundamente religiosa, ao vê-lo apresentar-se como o próprio Cristo novamente descido à terra, e, mais do que isso, como que a viver o que diz. Começando por retratar as divergências religiosas entre duas famílias que impedem o casamento entre os seus filhos, (a meio caminho entre “Os noivos” de Manzoni e o “Romeu e Julieta” de Shakespeare), famílias ambas encabeçadas por um “pater” autoritário e intransigente – de um lado, o lavrador Borgen, católico, do outro o alfaiate e pastor protestante Petersen –, “A Palavra” propõe-nos uma reflexão muito bela e profunda acerca da fé, do milagre e da oração.
Está basicamente em causa a oposição entre uma religião do Espírito e outra do preceito religioso – ou, se quisermos, da instituição. A primeira é incarnada sobretudo por Inger, esposa de Mikkel e, portanto, nora do “pater familias” Borgen; a outra pelos dois velhos ressabiados. Esta oposição foi em tempos um filão muito explorado pela literatura, e bastará a este título lembrar autores como Unamuno, Dostoievski ou Camus. A própria figura do novo vigário local reforça a visão crítica da religião institucionalizada que está perfeitamente estampada em
“A Palavra”.

É emblemático como, ao reaparecer João após um seu misterioso desaparecimento, propondo-se usar a palavra para devolver a vida a Inger (o tal momento charneira, o milagre que resulta tanto na conversão do anteriormente revoltado Mikkel, como na reconciliação dos dois velhos), apenas uma criança (uma das filhas de Inger) manifesta a sua fé em tal capacidade, em clara evocação de Mt 18,3. Personagens às quais até esse momento faltava algo (a Mikkel a fé, a Inger o filho – nado morto – e por fim a própria vida, aos velhos a paz e a alegria, ao próprio João a lucidez) são justamente “recriadas” no momento em que João faz uso da Palavra para “acordar” Inger. Da desolação dos planos fechados da certidão de óbito, da página jornalística de necrologia e do velório, ainda que “cortada” pela alegria dos jovens enamorados – legitimada agora a relação –, Dreyer passa ao gesto ritual de Mikkel quando este volta a “dar vida” ao pêndulo do relógio, que parara aquando do expirar de Inger.

Com ecos da metáfora do grão de trigo (Jo 12,24), a ressurreição de Lázaro é, contudo, o episódio bíblico que está gravado a estilete no coração de “A Palavra”. Podemos até ver Inger como Lázaro, João como Jesus, Mikkel como a Marta incrédula e a pequenita filha de Inger como a mesma Marta, mas a da confissão de fé. Como diz João em jeito de desabafo, “as pessoas acreditam no Cristo morto”. Talvez seja justamente esse o problema.

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Palavras-Chave:
Cinema  •  A Palavra  •  Ordet  •  Carl Dreyer
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