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17 Dez 2017
A vida é esperança
Homilia no III Domingo do Advento com a bênção das grávidas
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A um olhar atento, é fácil reconhecer a ausência de esperança em diversos aspectos da vida familiar. Vários cenários parecem impedir o acesso à verdadeira felicidade. São sombrios os dias da família por razões de índole social, dado que nem todas gozam de uma habitação digna, para além do plano de realojamento de quem vive em condições precárias, e nem sempre o indispensável está em cima da mesa no quotidiano. Também o amor está viciado por uma pressão que só convida ao facilitismo e a uma autonomia que vai substituindo a alegria de viver intensamente com e para os outros. Os casais litigam e separam-se. Os filhos sofrem as consequências nefastas. O ambiente torna-se, muitas vezes, irrespirável, conduzindo a conflitos e confrontos violentos. 

Importa, todavia, fixar o olhar em tantos casais que vivem na alegria do amor mútuo, na relação fecunda e aberta à educação responsável dos filhos. São muitos, na verdade, os lares onde mora a fé e nos quais a esperança floresce.

É bom, nesta caminhada de Advento, parar para experimentar a alegria da maternidade, reforçada pela bênção das grávidas que quiseram participar nesta Eucaristia. Recordamos ainda, nas nossas orações, todas as grávidas da nossa Arquidiocese, mesmo não podendo estar aqui presentes. Damos graças a Deus mas, sobretudo, experimentamos a alegria por este dom à sociedade. São Paulo recordava-nos que a vida do crente deve ser sempre oportunidade de alegria. “Sede sempre alegres. […] Em tudo dai graças” (1 Ts 5,16-18). A vida é sempre motivo de alegria e hoje agradecemos às mães e exultamos pelas graças que no meio de uma cultura adversa podemos vivenciar.

É dia de alegria mas também um momento importante para reflectir. São Paulo afirmava que devemos “avaliar tudo” para “conservar o que foi bom”. Avaliando, sabemos que, na lógica da primeira leitura, teremos de anunciar e proclamar para poder exultar “de alegria no Senhor e rejubilar em Deus Salvador”. Também no Evangelho querem saber quem é João Baptista. Isto permite que nos confrontemos com a verdade da doutrina da Igreja sobre a família. As verdades conhecidas que não podemos calar.

Em primeiro lugar, é tarefa inadiável para a Igreja anunciar que a família é um verdadeiro santuário da vida, “lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser convenientemente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a que está exposta, e pode desenvolver-se segundo as exigências de um crescimento humano autêntico” (João Paulo II, Centesimus Annus).

Não é fácil, na mentalidade hodierna, acolher e proteger a vida como dom de Deus. Parece que a natureza nos oferece tudo e que a humanidade domina a seu bel-prazer. O risco de reduzir o horizonte da vida aos caprichos da vontade pessoal espreita a todo o momento. A ciência pode até chegar a grandes descobertas, mas Deus estará sempre presente como criador da existência. É com apreensão que assistimos à tentativa de validação acrítica de todos os recursos da ciência. Falo de modo particular do domínio da genética e da “fabricação” dos filhos segundo as características que melhor nos agradam. Num momento em que, em Portugal, assistiremos à primeira maternidade de substituição, não nos podemos envergonhar da doutrina fundamentada no respeito pela natureza. Um filho é um dom de Deus, não uma encomenda. Mesmo correndo o risco de ser contracorrente, a Igreja não pode deixar de defender a sacralidade da vida e a beleza do inesperado.

Daí que, nesta caminhada de Advento, seja oportuno recordar que “as famílias cristãs, em força do sacramento recebido, têm a missão peculiar de ser testemunhas e anunciadoras do Evangelho da vida”. Este compromisso, na linha da Evangelium Vitae, tem o papel de anunciar a doutrina e denunciar todos os atropelos a esta verdade. “Servir o Evangelho da vida implica que as famílias, nomeadamente tomando parte em associações apropriadas, se empenhem por que as leis e as instituições do Estado não levem de modo algum o direito à vida, desde a sua concepção até a morte natural, mas a defendam e promovam” (EV 93). Anunciar, defender e promover a vida humana é uma tarefa que as famílias cristãs deverão assumir integralmente. Não só porque a Igreja pede ou sugere mas porque é a consequência natural de um matrimónio cristão.

Porque é necessário servir o Evangelho da vida, os casais cristãos devem empenhar-se na promoção e construção da cultura da vida. Para fazer frente a diversas tendências contra a vida não bastam algumas iniciativas. É imperioso apostar em todos os meios capazes de promover um pensamento que defenda a vida em todas as circunstâncias.

Ao olhar para todas as mães aqui presentes, é com tristeza que recordo o flagelo do aborto. Ele “é um abominável delito e constitui sempre uma desordem moral particularmente grave; longe de ser um direito, é antes um triste fenómeno que contribui gravemente para a difusão de uma mentalidade contra a vida, ameaçando perigosamente uma convivência social justa e democrática” (EV 72 e 101). O nascimento de uma criança significa que a esperança não adormeceu. Daí a urgência de despertar a esperança para que o mundo responda à problemática do envelhecimento da população com uma atitude responsável de acolhimento à vida. Só uma visão positiva sobre a maternidade e paternidade responderá aos medos e interrogações de muitos casais. Não deveria ser possível ter medo. Deus está na origem da vida e, com Ele, todas as dificuldades são ultrapassadas com trabalho e espírito de fé. Quando os casais começarem a dialogar sobre o dom da vida e a motivar-se para exigir ao Estado que, em vez de investir na destruição da vida, crie condições favoráveis à paternidade, então a alegria será real e o número de filhos não meterá medo, desde que convenientemente reflectido. Ter uma família numerosa poderá até exigir algumas renúncias a coisas que, por vezes, se consideram essenciais. Mas a graça de uma criança vale muito mais do que qualquer sonho pessoal ou bem material.

Verificamos que a mentalidade hodierna reduz a esperança à confiança no progresso e nas condições materiais que este proporciona. A Igreja necessita de ser capaz de entrar no circuito das opções e colocar aí uma esperança que é realista porque humana, mas que se desenvolve na utopia de uma fé que nunca permite desesperar. O cristão está para além das dificuldades e problemas. Trabalha, luta, mas, sobretudo, confia e sabe que com Deus pode sempre contar.

Próximos do Natal, agradeçamos às mães o dom da vida e peçamos a Maria, que nunca se fixou nos problemas que a maternidade lhe reservou, que os casais acreditem neste belo dever de continuar a oferecer à sociedade filhos que alegrem os lares, a Igreja e a comunidade civil. Aproveito, por isso, esta ocasião para desejar a todas as mães e pais da nossa Arquidiocese um Santo e Feliz Natal. Que a Sagrada Família vos abençoe.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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