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25 Dez 2017
Não compremos falsas esperanças
Homilia no dia de Natal
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É com alegria e fundada esperança que hoje nos reunimos, em comunidade cristã, para celebrar o nascimento do Salvador. Há muito que aguardávamos por este momento. Foram quatro semanas em que, apoiados na caminha arquidiocesana de advento, fizemos o caminho interior “da espera ao encontro”. O Natal, o nascimento de Jesus é, por isso, o ponto alto da nossa esperança. 

Cristo inaugura um tempo novo, dando cumprimento ao tempo que o precedeu e abrindo novos horizontes no tempo que se segue. Inaugurou uma história nova, não apenas para os que Nele acreditaram mas para toda a Humanidade, porque a Sua salvação é universal. Com Cristo, a eterna salvação irrompeu na finitude da nossa história.

O evangelista João abre-nos a consciência da salvação divina ao afirmar que “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). É ao princípio do projecto de Deus que João nos quer transportar. “No princípio” significa o início absoluto, significa a eternidade. E desde a eternidade, como nos recorda a Dei Verbum,aprouve a Deus revelar-Se a Si mesmo e levar-nos à comunhão consigo. Todos os gestos de Deus, todos os profetas e padres da Igreja são contínuo esforço de Deus para o conhecermos cada vez melhor e Nele reconhecermos a fonte da nossa esperança.

Entendemos assim que o nascimento de Jesus implica dois aspectos intimamente unidos: uma acção salvadora, que liberta a Humanidade do poder do mal, e uma nova criação, que oferece aos Homens a participação na vida divina. A certeza de que Jesus está presente na nossa história é razão de sólida esperança. Foi esta certeza que sustentou, como sabemos, a vida de muitos santos e de cristãos com uma espiritualidade profunda. Ao mesmo tempo, é errada a perspectiva da fuga mundis, a fuga do mundo, se entendermos o mundo como uma realidade má ou pecaminosa da qual nos temos de afastar. Se Cristo, pelo Seu nascimento, veio habitar entre nós e Ele, sendo o Verbo, é o criador por excelência, então o mundo só pode ser bom. Na verdade, quando Deus criou o mundo e contemplou a sua obra, “viu que isto era bom” (Gn 1,25). E é esta beleza da criação que nos deve levar a comprometer cada vez mais com a realidade, com as pessoas e as suas histórias de vida.

Inseridos neste mundo, que é bom, e conscientes de que a razão primeira da esperança cristã é Cristo, não compremos falsas esperanças alicerçadas na confiança em ídolos que nos querem vergar e iludir com uma felicidade imediata. Os ídolos são hábeis e convincentes nas suas promessas. Mesmo sabendo que são estéreis, as suas promessas não deixam de nos seduzir. A hipocrisia, a falsidade, o lucro fácil, a corrupção, o aproveitamento alheio, a ganância a todo o custo, são sinais que nos podem confundir no momento de optar. É fácil viver na lógica dos interesses imediatos, naquilo que pode dar prazer momentâneo, silenciando as grandes questões e procurando garantias humanas. É fácil condenar estas atitudes nos outros, mas elas podem também fazer parte da nossa vida.

Daí que teremos de alicercar o nosso quotidiano num sério encontro com Cristo. A nossa vida, mesmo sendo composta de diversas realidades humanas, deve partir sempre da dimensão sobrenatural. É Cristo quem nos dá os critérios de actuação e quem nos permite olhar para o mundo com olhos diferentes. O dia de Natal é, neste sentido, um momento crucial para gerarmos uma nova realidade e levarmos vida e esperança onde ela não existe. Vendo as notícias dos últimos dias, e fazendo memória de alguns acontecimentos nacionais deste ano, gostaria, de modo particular, de alertar para a necessidade de despertarmos para as necessidades dos doentes e dos mais idosos.

Sabemos que o Natal é tempo de família, de convívio, de festa e de paz. Mas sabemos, ao mesmo tempo, que existem muitos idosos abandonados nas suas casas, para quem o Natal assemelha-se mais a Sexta-feira Santa. É com coração pesado que peço aos filhos ou familiares que não abandonem os seus idosos. Poderão, até, considerar que existem razões válidas para um afastamento, que existem feridas na relação, mas creio que nenhuma ferida deve ser mais forte do que a possibilidade da reconciliação. A dor, a ferida e a inimizade, se não forem resolvidas, apenas tenderão a crescer. Ao mesmo tempo, nenhuma ferida entre um filho e um pai deveria privar a convivência entre um avô e um neto. Não poderá ser o Natal uma oportunidade para reconciliar as famílias e devolver-lhe a esperança de um futuro em comum?

Ao mesmo tempo, os doentes encontram-se, nesta quadra natalícia, numa situação semelhante. A doença, seja ela física ou psicológica, relega a pessoa para uma situação de fragilidade. E precisamente por estarem mais frágeis, precisam mais da nossa atenção, da nossa companhia e afecto. Precisam, numa linguagem cristã, de esperança. São muitos os doentes institucionalizados. Peço, por isso, aos profissionais de saúde que tratem os doentes como se fossem seus familiares. Os hospitais, IPSS ou instituições de saúde são, para todos os efeitos, neste momento a sua casa. E toda a casa deve ser um lugar onde as pessoas se sentem bem, onde se sentem acolhidas e estimadas.

O Natal e o nascimento do Salvador são, como tive oportunidade de afirmar, fonte de esperança cristã. Cristo é a luz que vindo ao mundo todo o Homem ilumina. Sejamos neste Natal luz que ilumina com esperança a vida das pessoas e não nos deixemos iludir por falsas luzes ou ídolos. É esta fidelidade a Cristo e à Igreja que nos introduz no caminho da felicidade.

Que Maria, mãe do Salvador, nos abençoe e desperte em nós os mais nobres sentimentos de fraternidade espiritual e de cuidadores da realidade realidade humana.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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