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25 Mar 2018
As mãos que tocam o Rei da Glória
Homilia no Domingo de Ramos
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  © Avelino Lima | Seminário Conciliar

Diante de um profundo, longo e doloroso evangelho que acabámos de escutar, o nosso coração e a nossa mente pouco mais podem fazer do que remeter-se ao silêncio. Este é o tempo em que o silêncio presta homenagem a Cristo. É o tempo que inaugura a Semana Santa e que nos confronta com uma dolorosa questão: se a entrada de Jesus em Jerusalem foi triunfal, o que é que se passou de errado para, nem passada uma semana, o Rei da Glória ter sido crucificado? Porque é que as multidões adoraram Jesus num Domingo e o entregaram na sexta-feira dessa mesma semana?

Gostaria de percorrer este itinerário da paixão de Jesus recorrendo a um fio condutor que nos é dado pelo evangelista Marcos: as mãos. As mãos dos protagonistas que estiveram presentes nos últimos dias e horas da sua vida e que transparecem atitudes e estados de alma até contraditórios. Olhando para as suas mãos, talvez reconheçamos as nossas. 

As primeiras são as mãos delicadas e perfumadas da mulher que parte o vaso de alabastro para derramar o perfume sobre a cabeça de Jesus. É um gesto delicado, desinteressado e que, todavia, suscita indignação entre os presentes. “Para que foi esse desperdício de perfume?”. O Mestre não embarca nessa onda e agradece à mulher. Ela foi, na verdade, a única a reconhecer o Senhorio de Jesus, ungindo-o antecipadamente. As suas mãos são um gesto de amizade e de beleza. Ensinam-nos que a sociedade deve nortear-se pela gratuidade, altruísmo e que amizade não é apenas para os momentos de festa e de paz. Recordo-me das mãos que alegremente tudo fazem para que nada falte nas famílias. As mãos que acolhem e acarinham os refugiados e os imigrantes e denuncio a pouca consciência do reconhecimento da fraternidade universal que a todos deveria congregar na procura do bem estar.

Poucos dias depois, encontramos as mãos atarefadas e alegres dos apóstolos que prepararam a ceia pascal. Por esta altura sabemos que preparam a última ceia, ou seja, o último momento de festa e de alegria que passam com o seu Mestre. Desdobram-se em esforços para transformar aquela sala num espaço acolhedor e fazer daquela noite algo memorável. Estas mãos ensinam-nos que cada momento é precioso. Ensinam-nos ainda que a nossa presença pode ser determinante nos últimos dias das pessoas. Recordo-me, em particular, do drama da eutanásia, dos abandonados e de quem vive os seus últimos dias em casa ou num hospital. As mãos que lidam com os idosos e doentes, particularmente os terminais e pessoas com deficiência, com gestos profissionais mas sobretudo amorosos e denuncio o espírito economicista de quem não consegue dar tempo e atenção a quem necessita.

Após esta festa, o cenário muda num ápice. Mãos delicadas e alegres transformam-se de imediato em mãos violentas e armadas com espadas e varapaus. A violência foi desencadeada por um amigo íntimo, Judas, que O entregou com um beijo. São as mãos que desejam o mal, o sangue e o caos. As mesmas que Jesus encontra no Sinédrio quando, ao fazer silêncio, irrita os príncipes dos sacerdotes. Foi revestido de púrpura, bateram-lhe, cuspiram-lhe e, por fim, gozaram com ele. Estas mãos mostram-nos o quão baixo pode descer o Homem. É impossível, diante delas, não nos lembrarmos do silêncio dos inocentes, das vítimas da guerra na Síria, na República Democrática do Congo e dos refugiados que morrem ao lutar pela sua sobrevivência. São aos mãos que desfiguram o rosto, causam pânico e que esmagam a esperança. As mãos que praticam a violência, dentro das casas e em locais escondidos, e denuncio a desconsideração pelos mais débeis ou indefesos.

Escondido por entre os soldados estava Pedro, a quem Jesus confiou a Sua Igreja. As suas mãos tremem de medo e vergonha. Medo de ser descoberto, acusado e condenado. Vergonha por ter traído o seu Mestre e amigo, por não ser digno da grandeza da missão que lhe fora confiada. As suas mãos cobrem agora o seu rosto e escondem as lágrimas da fraqueza. Bem sabemos o quanto a angústia e a vergonha podem levar ao desespero. Que o diga Judas que, com as suas próprias forças, ata o nó da morte. São as mãos que nos ensinam que seguir Jesus não é tarefa fácil. Recordo os mártires dos tempos modernos, os cristãos perseguidos que dão a sua vida pelo Reino de Deus. Os cristãos medrosos que atraiçoam o espírito do Evangelho e peço a Deus que, ao ritmo das suas lágrimas, experimentem o arrependimento, a conversão de vida e regressem a casa. As mãos que receiam, por medo ou timidez, sujar-se na luta contra as desigualdades sociais, com tanta expressividade entre nós, e denuncio o egoísmo atroz que anestesia consciências. 

No penoso momento em que Jesus, já sem forças, é obrigado a carregar a sua cruz, surgem as mãos fortes e corajosas de Simão de Cirene. O cireneu nada tem a ver com aquele espetáculo. Escandaliza-se com a brutalidade com que Jesus é tratado e oferece-se para ser um companheiro de jornada. Partilha com Cristo o peso da cruz e alivia o seu fardo. Mãos semelhantes pertencem a José de Arimateia. Arrisca, mais tarde, confrontar-se com Pilatos e perguntar-lhe por Jesus. As suas mãos de compaixão envolvem o corpo de Jesus num lençol, restituindo-lhe a dignidade roubada pela cegueira do poder. Com estes dois homens aprendemos que a escalada do mal apenas pode ser quebrada com gestos de fraternidade e de hospitalidade. Recordo o clima de guerra fria em que hoje vivemos. Se alguma arma as nações quiserem construir que seja a “arma” da educação. A educação para os valores da igualdade, da fraternidade e da paz, e as mãos mergulhadas nos artifícios da corrupção e denuncio processos mesquinhos e indignos que exploram sem consciência e sentido a dignidade humana.

Chegados ao lugar do Calvário, somos forçados a assistir à crucifixão de Jesus. Cristo é elevado na cruz, exposto aos olhos dos curiosos e abandonado até falecer. Foram as mãos dos indiferentes que ali o colocaram. Apenas se preocuparam com os bens materiais, com a possibilidade de ficarem com as roupas do inocente. A indiferença infligiu a morte com uma lança. E eis que a natureza reage: as trevas envolvem toda a terra e o véu do tempo rasga-se em duas partes de alto a baixo. Nada pôde fazer Jesus pois as suas mãos abertas entregaram-se a Deus. Nada pôde fazer Maria, sua mãe, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, Salomé nem João. Apenas conseguiram elevar aos mãos ao alto e abraçar a cruz. Talvez seja esta a lição mais dolorosa de todas. Nem sempre conseguimos parar o mal, nem sempre há justiça, nem sempre controlamos o rumo da Humanidade. E, neste momento, como dizia no início, resta-nos o silêncio. Recordo as mãos abertas em contraposição às mãos fechadas de quem pensa não ter nada para dar e ignora o panorama crescente do sofrimento humano e denuncio aqueles que se instalam na ilusão de serem felizes sozinhos.

O relato do evangelista Marcos é, como podemos ver, uma tentativa de imortalizar algo de significativo sobre o sentido da vida, da morte e da ressurreição do Jesus histórico. É em momentos como este que se joga a força e a pertinência da mensagem do cristianismo para ao mundo. Que cristãos seremos nós se as nossas mãos forem indiferentes, violentas ou cheias de medo e vergonha? Num triénio pastoral dedicado à esperança, pedem-se precisamente mãos diferentes: abertas, corajosas e delicadas, que devolvam a confiança, a serenidade e a alegria de viver a muitas pessoas.

É, em particular, aos jovens que gostaria de confiar esta missão. Celebramos hoje a XXXIII Jornada Mundial da Juventude e o apelo do Papa Francisco é muito claro: “não temas!”. Não existe nada pior do que sermos reféns dos nossos medos, de queremos avançar, transformar a realidade, e perdermos a coragem de tentar. O Santo Padre lembra o quanto é importante “dar um nome” aos sofrimentos. Este é o primeiro passo para eliminar as dúvidas ou fantasmas que possam subsistir na cabeça. Na verdade, não existem razões para ter medo ou nada fazer. Com os nossos pés, somos convidados a percorrer os caminhos da Humanidade sofredora. Com as mãos reconhecemos que muito pode mudar em favor daqueles que não têm pés para caminhar.

Nas vossas mãos, estimados jovens, confio o futuro da Igreja. As vossas mãos são um diamante em bruto. Procurai aproximar-vos de Jesus, reflectir a Palavra de Deus, integrar-vos nas paróquias e assim polir este diamante. Que as vossas mãos sejam delicadas e perfumadas como a da mulher que derrama o óleo. Que sejam atarefadas e alegres para servir a Deus, à sociedade e para construir um futuro melhor. Que sejam fortes e corajosas para denunciar os erros da Humanidade, para construir a paz e ajudar a carregar o fardos dos inocentes. Que sejam, por fim, mãos elevadas ao céu para dar graças a Deus e crescer na sabedoria do Espírito.

Peço a Deus que este Domingo de Ramos nos toque o coração e que seja, para todos nós, uma oportunidade para nos prepararmos para a Semana Santa. Temos celebrações e procissões. Há muito para celebrar na interpelação que a paixão e morte de Cristo nos lança. Este é o tempo da reconciliação e de mudança de vida. Se porventura as nossas mãos não forem aquelas que desejamos, trabalhemos a conversão e a mudança e, acolhendo as interpelações da Semana Santa, rasguemos horizontes evangélicos no mundo onde Deus nos colocou para o transformar.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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