DACS | 6 Fev 2017
A celebrar 100 anos de vida, o irmão Tomás revive o percurso enquanto espiritano, regressa ao presente e fala do futuro. Numa conversa onde não faltam histórias, narradas na primeira pessoa.

O irmão Tomás, como é conhecido, entrou pela primeira vez no Seminário de Fraião em 1945. Entretanto, passaram-se 71 anos. Viveu-os enquanto espiritano. Recorda os momentos que passou em África, as histórias dos colegas que cruzaram a sua, as intervenções como enfermeiro, e até a noiva que deixou para trás. Hoje, com 100 anos de vida, participa activamente no dia-a-dia da comunidade. Conta, com orgulho, que é ele a orientar os cânticos na missa. Sente-se feliz. “Dou graças a Deus por ainda me dar juízo e fé para poder valorizar o meu dia-a-dia, espiritualmente falando”, diz.

 

Como é celebrar 100 anos de vida? Qual é a sensação?

É motivo para muita coisa, para louvar a Deus que nos deu a vida — é ele o autor da vida e é a ele que devemos tudo. Nestas ocasiões temos a oportunidade de ver a amizade testemunhada, então vale a pena fazer 100 anos.

 

Ao longo do seu percurso enquanto espiritano, que recordações lhe vêm à cabeça?

Eu entrei nesta casa em 1945, já passei aqui 71 anos. Aquelas tílias que estão ali eram pequeninas assim como o meu pulso, e agora estão grandes e grossas (risos). Depois há aqueles momentos de profissão religiosa em que passámos uns bocados agradáveis uns com os outros: o postulantado, o noviciado. Ainda hoje me lembro daqueles colegas que saíram, que nos deixaram e eu fiquei com pena porque nunca mais os vi. Passámos um ano todos juntos e depois nunca mais os vi. Há apenas um com quem contactei várias vezes por escrito, por correspondência, mas só o vi uma vez depois de se tornar padre. É um colega que deixou saudades, as pessoas boas ficam sempre na memória e no coração.

"O que é certo é que nunca me arrependi do que fiz. Isso é que é importante."

 

É natural de Proença-a-Nova. O que o fez vir para Braga?

Eu conhecia esta casa porque tinha colegas da minha terra que tinham vindo para cá. Entretanto, abri uma alfaiataria no Sardoal, onde trabalhei. E foi aí que me decidi. Eu na minha terra, na minha aldeia, era muito conhecido e até estimado. Mas ali não gostei do ambiente. Quando decidi vir aqui para Braga, redigi dois telegramas, um para o meu pai e outro para o irmão da minha noiva (risos). E eu escrevi assim: “Casamento adiado, em breves dias direi porquê”. E depois de cá estar é que disse. Aqui fui recebido com muito carinho. Um dia mais tarde, a minha irmã perguntou-me: “Olha, sabes o que o pai disse quando leu a tua carta?”. E eu disse: “Não, eu não estava cá, como é que posso saber?”. E ela disse: “O pai disse «foi Nossa Senhora que o chamou»”. Foi esta a ideia do meu pai. Só aí já dá para ver a qualidade do meu pai, um homem muito observador. E não se deve ter enganado!

 

Tinha uma noiva e resolveu ir para o seminário. O que é que o fez mudar de ideias?

Houve algumas razões que me levaram a isso. Acredito que Deus estava por trás disto tudo. Permitiu certas coisas para eu me decidir. Deus tem muitos caminhos para nos guiar. Muitas vezes há atitudes que nós não sabemos explicar bem, porque há circunstâncias que não é fácil explicá-las. O que é certo é que nunca me arrependi do que fiz. Isso é que é importante.

 


Entretanto frequentou o curso de enfermagem. Porquê?

Foi o meu superior que me convidou, a mim e a outro, a frequentar a Escola de Enfermagem. E eu aceitei, nessa altura já tinha 25 anos. Ainda estava numa ocasião em que podia fazer ginástica. Íamos a pé todos os dias de Fraião até ao hospital. Ainda não havia autocarros nem dinheiro para táxi.

 

E gostou de aprender e exercer enfermagem?

Exerci enfermagem com muito gosto. Eu próprio percebi que era a minha vocação. Passei 40 anos a trabalhar como enfermeiro, 23 em Angola e 17 aqui, em Braga e em Lisboa. Gostei daquele trabalho. Estava ali a mão de Deus afinal! Fui mais feliz como enfermeiro do que como alfaiate! (risos)

 

Em Angola, o que fazia como enfermeiro?

Tínhamos um posto. Depois, quando nos vinham chamar, ia visitar os doentes, de carro. Se fosse preciso levar ao hospital, levava. Se fosse coisa que eu soubesse resolver, resolvia. Portanto, no Cuanhama estive 7 anos, no Munhino estive 16 anos. Foi aí que me revelei com alguma qualidade. Cheguei a ser parteiro e tudo! Passei um dia numa Escola de Enfermagem, no Cuanhama, de médicas missionárias de Maria, e vi quais eram os princípios que nos deviam orientar. Como já conhecia a enfermagem, apanhei aquilo muito bem. No hospital de Sá da Bandeira, todas as semanas morriam mulheres. E comigo nunca morreu nenhuma, por isso ganhei muita fama lá.

"Tive ocasiões perigosas, mas a força de Deus nunca me faltou."

 

O que recorda dos tempos que esteve em Angola?

Tive ocasiões de perigo. O meu superior foi morto. Antes de matarem o padre, vieram ter comigo, mas nessa altura fui mais esperto do que o padre. Bateram-me à porta sete ou oito homens, às tantas da noite. Eu vi aquela fila de homens e pensei “oh diabo, isto aqui há gato, isto não é coisa boa”. Interroguei-os: “O que é que vocês querem?”. “Queremos que o irmão nos vá buscar um doente que ficou no km 14”, disseram eles. Isso ficava a 5km de distância, e eu disse, sem medo nenhum: “Desde que começou a guerra nunca mais fui buscar doentes de noite porque não há segurança nenhuma”. Tal e qual. Senti uma coragem que não parecia ser minha. E no meio daquele grupo de homens, um deles disse: “Está bem, está certo”. E então eu disse: “Vou dar-vos um conselho, ide para junto do doente e amanhã de manhã a partir das 8h venham cá que eu estarei ao dispor para tratar o doente ou para o levar ao hospital, se for preciso”. E eles concordaram. O que eles queriam era que eu os levasse na carrinha, depois matavam-me e tomavam conta do carro. O Espírito Santo disse-me alguma coisa. Não fui na cantiga. Passados três ou quatro dias vieram ter com o padre. Bateram à porta: “Sr. padre, faz favor de vir ali ao cruzamento para nos dizer o caminho para Sá da Bandeira”. Via-se logo que era mentira. O padre, um bocadinho ingénuo, acreditou no que eles disseram. Vestiu a batina e foi. Chegaram ao cruzamento, deram-lhe um tiro na cabeça e mataram-no. (…) Aquilo foi uma lição para mim, e uma lição que me deixou recordações de como Deus me acompanhou sempre.

 


Ao longo destes anos, sente que cumpriu a sua missão enquanto espiritano?

Sim, tenho feito por isso. Algumas falhas são sempre possíveis a seres humanos, mas nunca desanimei. Tive ocasiões perigosas, mas a força de Deus nunca me faltou. Tenho consciência disso. E o meu pai tinha razão naquilo que disse quando leu a minha carta.

 

Hoje em dia, como é o seu dia-a-dia? Participa nas rotinas da comunidade?

Sim. Ultimamente a minha visão já está muito fraca, mas quando não posso acompanhar as leituras, faço no meu quarto onde tenho um candeeiro especial. De resto acompanho sempre. Ainda sou eu que oriento os cânticos na missa. Ainda sou eu! Sou eu porque não há outro irmão que tenha jeito para isso. Não é que eu tenha muito. (risos) Mas o que tenho ofereço a Deus, pondo-o em prática.

"Com a ajuda de Deus, ainda vou fazendo algum apostolado através da minha oração, do meu sofrimento, nas minhas limitações."

 

O que é que ainda gostaria de fazer?

Já não posso ter grandes projectos porque a minha vida está a chegar ao fim. Com 100 anos já não tenho dúvidas de que isto não vai muito longe. Mas dou graças a Deus por ainda me dar juízo e fé para poder valorizar o meu dia-a-dia, espiritualmente falando. Isto é uma força para mim. Com a ajuda de Deus, ainda vou fazendo algum apostolado através da minha oração, do meu sofrimento, nas minhas limitações. Às vezes podemos fazer um apostolado mais forte do que quando estamos na vida activa. Pode ser. Porque o sofrimento tem valor, quando unido ao de Cristo tem muito valor. Com a ajuda de Cristo, tem valor. É assim que nós podemos valorizar o nosso sofrimento. E é nessa linha que se vê aí muita gente doente e feliz. Não é fácil. Quem não tiver uma vida interior forte, pode não chegar a esse nível, mas quem tiver algum conhecimento, pode realizar-se através do sofrimento. E através da oração, claro.

 

E o irmão consegue?

Sim, vou conseguindo. Todos os dias rezo o meu rosário, o rosário onde se medita os mistérios gozosos, dolorosos, e gloriosos. Portanto, é uma fonte de inspiração.

 

E mesmo com 100 anos ainda vai aprendendo?

Claro. Aprender até morrer! (risos) Ninguém aprende tudo no princípio. E, às vezes, as lições no fim da vida não são as piores, porque a juventude muitas vezes anda muito iludida. Vai atrás de coisas banais que até podem ter o seu valor mas não são essenciais, e a idade veterana, como a minha, já dá para pensar de outra maneira. Dá-nos uma certa experiência. Já passámos por muita coisa e aprendemos. Alguma coisa fica sempre. Eu sinto-me feliz no estado em que me encontro.

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