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2 Nov 2018
Há muita história para fazer
Homilia na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
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  © DM | Sé Catedral

A celebração, ontem, da Solenidade de Todos os Santos empresta à memória que hoje fazemos de Todos os Fiéis Defuntos um significado particular. É a certeza de que, em Cristo, como muitas vezes recordou Paulo às suas comunidades, a Igreja peregrina está intimamente vinculada à Igreja Celeste. Vivos e mortos compõe a inteira comunidade dos Santos numa permuta de intercessões e de louvor a Deus. Estamos, por isso, aqui em assembleia para fazer memória dos arcebispos e capitulares falecidos, agradecendo a Deus pelas suas vidas e entrega incondicional ao Reino de Deus e pedindo-Lhe que os receba na Sua morada.

Foram os Celtas que introduziram, por esta altura do ano, a memória dos mortos. Memória essa que depois veio a ser cristianizada e a tornar-se um dos gestos mais estimados pelo povo cristão. Ainda hoje, mesmo nas grandes cidades, e não obstante uma cultura que procura remover a morte, as pessoas visitam as campas dos seus familiares e amigos, prestando-lhes homenagem e agradecendo-lhes a influência que tiveram nas suas vidas. Ao olharmos para os túmulos somos confrontados com a grande questão do sentido da vida e da morte. 

Por graça de Deus, que nos deu uma visão de fé sobre a realidade, sabemos que a ressurreição de Cristo abraça a morte para a transformar em vida. É de vida e da fundada esperança na ressurreição que hoje falamos. Porventura aquela esperança que Miguel Torga procurava nos seus diários para combater a incerteza do amanhã: “Não ter futuro. Nem sequer o do dia de amanhã. Viver indiferente à vida, de mão no pulso à espera do dobre da última pancada do coração”.

A morte não é a última realidade para os Homens e mesmo aqueles que já padeceram, caminhando para junto de Cristo, não são por Ele recusados. Pelo contrário! Antes de partir, Jesus afirmou com clareza: “Crede em Mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 1-2). Cada um de nós, ressuscitado no Corpo de Cristo, terá a sua morada junto do Pai e abraçaremos com força os que nos são mais próximos. Estar com e em Cristo não é, neste sentido, acidental. 

O Evangelho indica-nos as coordenadas da ressurreição em Cristo: comungar do Seu corpo. “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”. É interessante notar, ao mesmo tempo, que a vida oferecida por Cristo pode ser desdobrada num conjunto alargado de dimensões com incidência na vida real.

Em primeiro lugar, a ressurreição é uma alavanca para uma vida renovada. Isto é possível quando olhamos para o mundo ao nosso redor com critérios que superam a mera realidade sensitiva. Em todas as circunstâncias da nossa vida existe um olhar sobrenatural que nos devolve a confiança, a serenidade e nos inspira nos momentos fundamentais. A fé não é algo acidental na nossa vida. Muitas pessoas esperam de nós uma palavra diferente, fundamentada e confiante. Esperam um modo de estar na vida coerente, de proximidade, atento às necessidades das pessoas e que transpareça alegria. Dito de outro modo, é-nos oferecida uma nova vida começando desde já na Terra, gastando o que temos e somos pelo bem da Humanidade e da Igreja.

Em segundo lugar, a ressurreição inaugura uma nova dimensão escatológica, oferecendo-nos esperança e certeza sobre os últimos dias. Como diz o próprio Jesus, “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia”. Muitas pessoas gostariam de ter esta certeza nas suas vidas. É certo que os momentos de maior fragilidade, como a doença ou morte de alguém próximo, nos fazem pensar sobre a possibilidade da ressurreição. Mas a beleza desta certeza cristológica é que a ressurreição não se apresenta como uma simples resposta a um receio pessoal ou medo do vazio mas antes um dom gratuito de Deus que desde sempre nos é oferecido. Mostremos festivamente que acreditamos na ressurreição.

Em terceiro lugar, a ressurreição ensina-nos o valor da unidade e da comunhão. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele”. Desde o tempo do povo de Israel, e prolongado na reflexão do Concílio Vaticano II, sabemos que Deus nos deseja salvar como um corpo único, como um Povo. Pensar então na ressurreição leva-nos, desde já, à necessidade de reforçar a unidade entre nós. É, por isso, profética a imagem sugerida pela Sacrosanctum Concilium do bispo que se reúne com o seu presbitério e o seu povo em torno do mesmo altar. Altar esse que é representativo do túmulo aberto de Cristo. É também em nome da comunhão que hoje rezamos e fazemos memória dos arcebispos e capitulares falecidos. Continuamos a sentir a sua presença e força entre nós e tudo quanto fazemos em favor do Reino de Deus pode ser entendido como o prolongamento das suas acções evangelizadoras. Cresçamos, por isso, nesta alegria de trabalharmos juntos pelo Reino de Deus.

Em quarto e último lugar, a ressurreição impele-nos à missão. “Assim como o Pai, que vive, Me enviou, […] também aquele que Me come viverá por Mim”. Vivemos um ano particularmente dedicado à Missão. “Todos, tudo e sempre em Missão”. É importante nunca perdermos de vista este horizonte porque tudo quanto fazemos não o fazemos para benefício próprio mas antes em favor do Reino de Deus. Um dia seremos recordados não pelos bens materiais ou êxitos próprios mas sim pelo bem que fizemos aos outros. Creio ser justo aproveitar este momento para prestar homenagem aos meus antecessores. Viveram tempos de particular exigência e dedicaram-se à formação do povo cristão, ao aprofundamento da sua identidade cristã, assim como à caridade, nunca esquecendo os mais desfavorecidos e necessitados. 

A missão não é hoje menos urgente ou exigente. Os tempos são de mudança célere, de uma certa resistência ao sagrado e de desconfiança quanto à bondade do próximo. É pedido, por isso, ao Arcebispo e capitulares que testemunhem um estilo cristão de estar na vida e na Igreja. O testemunho e as acções concretas são a única linguagem que as pessoas percebem. Não bastam as palavras. Disso nos alertou ainda há dias o Santo Padre quando, na eucaristia conclusiva do Sínodo dos Bispos, pediu desculpa aos jovens por a Igreja lhes “encher os ouvidos”. Palavras sem tradução em gestos concretos são ocas.

Cada um de nós, conscientes da missão que lhe foi confiada, deve continuar a interpretar a centralidade da Catedral, fazendo com que daqui aconteçam muitas iniciativas em favor da cidade e de toda a Arquidiocese. Perante um mundo novo, teremos de proactivamente encontrar soluções que mostrem a perenidade do Evangelho. Não podemos refugiar-nos na história. Há muita história por fazer. 

Que o Senhor da Vida, o Ressuscitado, derrame sobre nós a Sua bênção e abra as portas do paraíso aos nossos familiares, amigos, arcebispos e capitulares já falecidos.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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