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3 Nov 2018
Um coração aberto para escutar
Homilia na Comemoração dos 50 anos da UCP
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  © Avelino Lima | Sé Catedral

O Evangelho de hoje introduz-nos directamente na história do Povo de Israel e num ponto essencial que é a sua relação com Deus. Viviam-se tempos de necessidade de esclarecer quem era o verdadeiro Deus, ou melhor, se existia de facto apenas o Deus de Abraão ou então outros deuses. Não foi um caminho fácil e, por diversas vezes, o povo vacilou e adorou outros deuses. 

O decálogo inicia com uma introdução importante. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto, da casa da escravidão” (Dt 5,6). Pretende-se realçar o facto de que foi Deus quem libertou o povo do Egipto. O que permite ao Homem obedecer a Deus é o facto ser livre. Para além do mais, podemos dizer que obedecer à lei significa obedecer àquilo que nos liberta: permanecer fiel ao acto libertador de Deus. Liberdade da auto-suficiência, egoísmo, auto-referência e idolatria. É isto que, desde logo, Moisés pede ao povo: sejam livres. A liberdade de quem descobriu de não estar só e descobriu ainda a existência da liberdade do outro. A liberdade não é fazer acriticamente aquilo que desejamos. É agir no respeito pela liberdade e na relação com Deus e com o próximo. Por vezes temos de fazer concessões. Aceitar os meus limites e os limites do outro. E o meu limite é a vida do outro. Assim, é a lei de Deus que nos ensina o amor.

Existem muitas pessoas à espera de serem libertadas das suas prisões. Algumas criadas por pressões e injustiças sociais e outras fruto da suas histórias de vida. Os dramas pessoais são, porventura, os mais complicados de resolver porque implicam um longo, e por vezes penoso, caminho de revisão pessoal. Caminho esse que deve seguir a metodologia do discernimento acompanhado. Como diz a sabedoria popular, “ninguém é bom juiz em causa própria”. Já as prisões resultantes da sociedade são combatidas desmascarando-as e argumentado com plausibilidade uma realidade alternativa. Quando o debate não é fundamentado, apenas alimentamos guerras ideológicas. Não deveria ser esse o nosso caminho nem o nosso modo de estar na sociedade.

Alerto para esta circunstância pelo facto de estarmos em ambiente académico e com particular responsabilidade sobre o futuro de muitos jovens universitários. Seria muito pobre uma Universidade Católica que se remetesse apenas para a missão de transmitir conteúdos. O Sínodo dos Bispos sobre os jovens diz-nos claramente que é função das universidades e escolas católicas fomentar uma educação integral da pessoa. Como é isso possível neste ambiente? Creio que o passo essencial é que professores e colaboradores acompanhem activamente os jovens, que emprestem um pouco do seu tempo e paciência para escutar, acompanhar e aconselhar os alunos, mesmo fora do período lectivo. Esta é a diferença entre uma instituição e uma comunidade. Enquanto a primeira cumpre um dever, a segunda cria um ambiente e coloca a pessoa no centro das preocupações. Gostaria que a Universidade Católica, detentora de uma ampla história e maturidade, colocasse os seus alunos no centro das suas preocupações, que os formasse integralmente e fosse capaz de solidificar os fundamentos da sua fé. Seria importante, ao mesmo tempo, que tivesse uma efectiva intervenção pública. No início desta eucaristia, pedíamos perdão a Deus pelas nossas falhas: “pensamentos e palavras, actos e omissões”. Que a omissão, o silêncio e o desinteresse não sejam “pecados” desta Universidade. Intervir e profetizar faz parte da identidade cristã e, na verdade, os cristãos esperam uma palavra de sabedoria, sobretudo daqueles a quem Deus agraciou com particulares capacidades. 

Jesus, no Evangelho segundo Marcos, reforça e sintetiza os Mandamentos da Lei de Deus no Mandamento do Amor. “Amarás a Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas a tuas forças. [….] Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Este é um mandamento particularmente interessante para a cultura contemporânea marcada pela ciência e pelo intelecto. Amar alguém exige, na linguagem de Paulo, a totalidade da pessoa: corpo, alma e mente. Estarão as pessoas a ser capazes de amar a Deus, ou seja, a ter uma relação viva e real com Ele, de entrega e afecto, ou estarão elas apenas a conhecer Deus quase como se de um exercício académico se tratasse? Amar e conhecer são duas realidades complementares mas também distintas. O caminho mais fácil é, porventura, o da transmissão de conteúdos, da reflexão académica sobre o divino. Mas se essa reflexão não se transformar em vida, em amor, será um esforço estéril. Todos nós esperamos da Universidade Católica o contributo de ensinar a amar a Deus. Um contributo que poderá ser levado a cabo, por um lado, introduzindo-nos nos mistérios de Deus, explicando-nos a Escritura, a história, os dogmas e a pastoral da Igreja, mas, por outro lado, também transformando esses conteúdos em vida. 

“Fé e razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, dizia-nos o saudado Papa João Paulo II na sua encíclica Fides et ratio. Talvez seja este o tempo, mais do que nunca, de avançar para o tríptico: fé, razão e amor. Que sejamos capazes de amar a Deus e de demonstrar publicamente este nosso amor. Felizmente, aos poucos, cresce a coragem de algumas figuras públicas de demonstrarem a sua fé e o amor que sentem por Deus. Este gesto deve ser encorajado e apreciado por todos nós, pois não é fácil assumir a fé num ambiente por vezes hostil. 

Por outro lado, o amor a Deus prolonga-se, como sabemos, no amor ao próximo. Um amor que seja proactivo, criativo e desinteressado. Os mandamentos da Lei de Deus dizem-nos “Não matarás”. Mas não matar é apenas a obrigação da salvaguarda da dignidade humana. É pouco. Não basta não tirar a vida a um outro. É necessário ajudar ao desenvolvimento da vida, a desejar que a vida cresça e, como dizia Jesus, que todos tenham “vida em abundância”. Para que isso seja possível, temos de assimilar e desejar profundamente o primeiro Mandamento da Lei de Deus: “escuta, Israel”. 

Escutar é o primeiro gesto de amor ao próximo. Escutar o que nos têm para dizer, escutar a sua vida, escutar os seus desejos, necessidades, expectativas e sonhos. Sem a escuta não existe amor! Creio, uma vez mais, que a Universidade Católica poderá ajudar-nos neste sentido, isto é, a ensinar a arte da escuta como preâmbulo do amor cristão. É que escutando os outros aprenderemos também a arte de nos escutarmos a nós mesmos e, neste sentido, a sermos capazes “de amar os outros como a nós mesmos”. 

Agradeço, por isso, à Universidade Católica, aos seus docentes, colaboradores e alunos o meritório caminho ao longo dos últimos 50 anos. Queira Deus que outros tantos nos sejam dados e entrego nas Suas mãos o futuro desta Academia para que ela nos ajude a crescer no amor a Deus e aos irmãos.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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