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27 Abr 2020
Segunda-feira da III Semana da Páscoa
Homilia no Paço Arquiepiscopal
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Continuamos a olhar para a vida da comunidade de Jerusalém. O seu testemunho continua a ser interpelativo. Tenho partilhado convosco o testemunho comunitário. Hoje falo do dever do testemunho individual, da responsabilidade pessoal de mostrar a fé. Esta é algo de muito íntimo, mas tem sempre reflexos no exterior. Tudo deve partir de dentro. Mas a vida é para ser vista.

Encontramos na primeira leitura o testemunho de Estevão. Foi escolhido para ser diácono, trabalhando no serviço das mesas, para que os apóstolos se dedicassem à oração e ao anúncio. Foi fazendo tudo com muita coerência, não tendo receio de, também ele, falar de Cristo na sua vida. Daí que também tenha incomodado e provocado animosidade a ponto de começarem a delinear o fim da sua vida. Não porque tivesse realizado algum crime, mas tão somente porque falava abertamente da sua fidelidade a um projecto de vida. Como ele, é maravilhoso verificar como todos os cristãos estavam preparados para dar a vida se fosse necessário. 

Já S. Pedro, na sua primeira carta, afirmava com clareza: “Nenhum de vós tenha de sofrer por ser ladrão ou assassino ou malfeitor ou difamador. Se, porém, sofre por ser cristão, não se envergonhe, mas dê glória a Deus por ter este nome” (I Ped. 4,13). Como é provocadora esta mensagem. Não só não ter medo mas ter uma certa vontade de ser chamado cristão e sofrer por causa disso. Teremos hoje esta consciência? Camuflamos a nossa fé ou somos capazes de a colocar em confronto com o mundo? Não queremos ter nada que seja contrário à nossa identidade. Mas depois importa erguer a cara e mostrar publicamente a fé. 

Infelizmente são poucos os cristãos que exteriorizam os seus sentimentos cristãos. Não saímos para a praça onde vivemos. Permitimos que as outras mentalidades ou ideologias sejam proclamadas e nós permanecemos no silêncio, contentando-nos com simples actos religiosos praticados no interior dos nossos templos. O cristianismo incomoda e devemos ser capazes de aceitar todas as consequências. Por Cristo poderemos ser marginalizados ou desconsiderados. Nunca deveríamos ter medo. 

Vejo uma sociedade a ser construída por outros programas e, contudo, permanecemos inertes e calados. Não é só no mundo da política. Também no mundo empresarial não somos capazes de dar vida a uma economia com rosto cristão. O mesmo no mundo da comunicação, impressa ou virtual, para provocar diálogo ou confronto de ideias. Muitos outros mundos esperam por esta presença activa dos cristãos. Sabemos que os cristãos hoje continuam a ser perseguidos noutras latitudes. Nós, porém, acomodamo-nos ao ambiente tranquilo que, até agora, nos vai sendo proporcionado. Vem-me à mente as palavras de Cristo. “Felizes vós, quando os homens vos odiarem por causa do Filho do Homem”. Estevão não teve receio de erguer a voz. O mundo moderno está à espera de uma maior intervenção. Olhar para a comunidade de Jerusalém é reconhecer que quem impôs o cristianismo à sociedade romana ou judaica não foram os apóstolos. Estes intervinham muitas vezes. Mas os cristãos mais simples iam mostrando o quanto Cristo significava para eles. Não precisaremos de nos colocar em questão para verificar o que fazemos para que Cristo volte a estar no coração da sociedade? 

Nesta semana das vocações, olhamos para as vocações de especial consagração, mas reconhecemos que todos somos vocacionados no sentido de nos sentirmos chamados para uma missão a realizar. Cada um tem as suas capacidades e possibilidades. Não são iguais. O que importa é a resposta conforme o que se é. Não há ninguém que não tenha nada para fazer pelo Reino. As migalhas são tão importantes como os grandes pedaços. Não podemos medir as coisas. Estamos perante Deus e deveríamos ser capazes de lhe dar tudo. Nos meus primeiros anos de sacerdote dizia muitas vezes aos membros da comunidade. “Para Deus, o quase tudo é nada”. É verdade. Deus não espera nem muito nem pouco. Quer tudo de nós.

Se esta é a história de todos os cristãos, neste dia da semana de oração pelas vocações quero pensar na vocação sacerdotal para o clero secular. A Arquidiocese de Braga já teve muitos sacerdotes. Talvez nos tenhamos habituado mal. Hoje, o número não é suficiente. Temos muitas paróquias e não queremos que elas estejam alicerçadas somente nos padres. E graças a Deus que isto já vai acontecendo. Só que precisamos de mais padres para continuar não só a conservar a fé mas sobretudo para revigorar a experiência cristã. 

Peço-vos que rogueis a Deus pedindo sacerdotes. Não apenas esta semana. Ela deve levar-nos a criar este hábito de rezar pelas vocações sem criar meras rotinas. Amemos os nossos párocos e façamos tudo para que as nossas paróquias tenham seminaristas. Por vezes há jovens que têm sinais vocacionais. Não os desanimemos, que eles sintam sempre a nossa amizade, assim como a certeza das nossas orações.

Conscientes de que a nossa fé deve tornar-se visível no meio da sociedade, colocando os nossos talentos a render, hoje rezemos pelas vocações, para surjam sacerdotes em número suficiente.

  

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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