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10 Fev 2016
Discípulos missionários em conversão de coração
Mensagem para a Quaresma
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Não é fácil sintetizar, num contexto multicultural como aquele em que vivemos, o que caracteriza a vida das pessoas. Creio não fugir à verdade ao afirmar que se impôs uma sede de autonomia, agravada por mecanismos de arrogância de personalidade. Negligenciamos, infelizmente, qualquer apelo à interioridade e a reconhecer, com humildade, a necessidade de mudar de rumo. Na linguagem cristã, este movimento interior é sinónimo de conversão. Um caminho que visa o reconhecimento do pecado e o desejo de avançar por caminhos diferentes. Neste percurso não estamos sós. Ao nosso lado estão amigos, sacerdotes e mestres espirituais com quem podemos dialogar e pedir orientação.

Gostaria, por isso, de sugerir uma acção que caracteriza a fisionomia do discípulo missionário: conversão da vida pessoal e pastoral ou, como diz o itinerário preparado para a Arquidiocese, ser discípulos missionários em conversão de coração. Estes arautos da Boa Nova somos todos nós, sacerdotes e leigos

Temos de regressar a Cristo. É Ele quem dá um sentido genuíno e livre à nossa vida. Liberdade interior é diferente de autonomia. Enquanto a primeira resulta da entrega a Cristo e ao amor fraterno, a segunda procura o bem próprio. «Só desde que Te dei a minha alma, Senhor, Ela é verdadeiramente minha», rezamos no Ofício de Leitura de Sexta-feira.

É crucial deixar-se seduzir por Cristo, o Deus vivo que incarnou para ficar connosco nas vinte e quatro horas do nosso dia. E depois, com Ele e como Ele, calcorrearmos o mundo com olhos de verdadeira fraternidade, isto é, sendo capazes de escutar os sofrimentos das pessoas. Quantos gritos de dor! O silêncio dos inocentes deve questionar-nos até ao mais profundo do nosso ser. E nós, quantas omissões, acções incoerentes e palavras despropositadas que ofendem! Quanta passividade perante os males! Estaremos áfonos?

A conversão deve também comprometer-nos com a comunidade cristã. Estou certo que, com o nosso contributo, ela poderá tornar-se missionária e ganhar coragem para romper com esquemas de morte.

Já o Papa Paulo VI dizia que “vivemos a hora de a Igreja aprofundar a consciência de si mesma, meditar sobre o seu mistério […]. Desta nossa consciência esclarecida e ativa nasce o desejo espontâneo de comparar a imagem ideal da Igreja, qual Cristo a viu, quis e amou como sua Esposa santa e imaculada (Ef 5,27), de a comparar, dizemos, com o rosto que ela apresenta hoje. (…) Daqui vem à Igreja a necessidade nobre e quase impaciente de se renovar, isto é, emendar os defeitos, que aquela reflexão, como exame interior feito diante do modelo, que nos deixou Cristo de si mesmo, descobre e repele” (Ecclesiam Suam, 3-4). O Papa Francisco, consciente desta necessidade, pede a todas as comunidades que se esforcem por usar os meios necessários para avançarem no caminho de uma conversão pastoral e missionária que não “pode deixar as coisas como estão.” (Evangelii Gaudium, 25).

Peço a todas as comunidades que acolham a Caminhada Quaresmal preparada pela Comissão Arquidiocesana para a Pastoral Litúrgica e Sacramentos. “Dai-nos um coração puro” repleto da Misericórdia de Deus, aberto à conversão e comprometido com a Igreja e com o bem da sociedade. Recordemos, também, que a misericórdia se expressa na partilha de bens materiais, como consequência de renúncias concretas ao supérfluo ou desnecessário. Continuaremos, perante os inúmeros pedidos de ajuda, a destinar a renúncia quaresmal para o nosso Fundo “Partilhar com Esperança” e, numa manifestação da consciência missionária, apoiaremos as diversas iniciativas para concretizar o protocolo de cooperação com a diocese de Pemba, Moçambique.

Onde nos conduzirá este processo de conversão pessoal e pastoral? A Quaresma é tempo propício para reflectir e ouvir o Espírito Santo. Só assim a comunidade cristã será capaz de resplandecer a verdadeira fisionomia do discípulo e de projectar o seu futuro. Não foram as amarras ao passado, a tibieza das adaptações ou a preguiça espiritual e pastoral que fizeram os grandes santos. Deixemos, por isso, que a Misericórdia divina entre em nós e que seja ela a conduzir as nossas vidas.

  

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

 
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