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8 Fev 2020
Amar a vida, cuidar a doença
Homilia no Dia Mundial do Doente
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  © Avelino Lima | Poverello

Celebramos na próxima Terça-feira o XXVIII Dia Mundial do Doente.

Antecipamos esta celebração para solicitar às comunidades um dia de compromisso com todos os que sofrem qualquer tipo de doença. Este dia, como todos os outros dias mundiais, não pode limitar-se a celebrações esporádicas. Deve levar a reflectir sobre o significado da doença e colocar as famílias e as comunidades em atitude de efectiva solidariedade com todos quantos sofrem.

Em primeiro lugar e para todos – doentes ou ainda com saúde – importa ter presente a verdade cristã sobre o sofrimento. A quem está mergulhado na angústia por causa da fragilidade física, psíquica, emocional, Cristo oferece-se a Si mesmo como alívio e consolação. Olha e cuida da Humanidade ferida. Está sempre ao seu lado e dedica um amor de particular solicitude. Não há solidão para quem acredita. Cristo continua a identificar-se e assumir todo e qualquer tipo de sofrimento humano. É o Bom Samaritano que carrega as dores e paga para que se libertem.

Em segundo lugar, seguindo as pegadas de Jesus, o cristão vive a sua vocação acompanhando e consolando quem sofre. Esta é uma exigência da fé que nunca pode ser esquecida. São muitas as formas de sofrimento. “Doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, as que necessitam de reabilitação ou de cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice”. 

Neste cenário de tantas situações torna-se urgente, para além dos cuidados médicos onde poderemos, graças a Deus, sentir-nos protegidos, reconhecer o que o Papa, na mensagem para este dia, apelida de “carência de Humanidade”. Para ultrapassar esta situação, teremos de personalizar o contacto com a pessoa doente, “acrescentando ao tratamento o cuidado”. A par das terapias é necessária a atenção, a solicitude, o amparo, a presença solícita e amiga. Na verdade, não é suficiente cuidar apenas da integridade física, mas são necessários profissionais de saúde, voluntários, familiares, pessoas amigas que ofereçam cuidados marcados pela afectividade e espiritualidade. Todos devem envolver-se com os doentes através de um humanismo retemperador e consolador.

Nos cuidados a prestar, o cristão deve dar um passo em frente. No doente encontramos Cristo que sofre, a quem damos tudo o que a caridade sugere mas, ao mesmo tempo, procuramos ser a sua presença para que seja Ele a oferecer a verdadeira consolação e a tratar as doenças. É grande e exigente este modo de agir. Os primeiros cristãos deixaram-nos o testemunho de oferecer aos pobres e doentes a mesma devoção prestada a Jesus Eucaristia. Encontramos Cristo em quem necessita e procuramos ser Cristo a oferecer o que lhe é necessário.

Se esta é a atitude do cristão perante os doentes, o Papa recorda-nos que a Igreja, nas suas comunidades, deve ser expressão da “estalagem” do Bom Samaritano, que é Cristo. As comunidades devem tornar-se verdadeiras famílias onde os doentes são conhecidos, acompanhados pela presença de voluntários e acolhidos nas suas dores em ordem ao alívio do sofrimento e consolação nos momentos difíceis. S. Bartolomeu dos Mártires chamava às nossas paróquias “Hospitais de Deus”. Quanto caminho teremos de percorrer para que isso aconteça! Vivemos muito na indiferença, no distanciamento, no empurrar para as famílias. Que Deus nos ajude a renovar as comunidades paroquiais tornando-as este lar que acolhe, acaricia, mostra presença e alivia todas as preocupações.

O Papa Francisco dirige-se, também, aos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, colaboradores administrativos e auxiliares, voluntários, e pede-lhes que em qualquer “intervenção de diagnóstico, de prevenção, de terapêutica, de investigação, de tratamento e de reabilitação que tenham sempre diante de si a pessoa do doente «onde o substantivo pessoa» venha sempre antes do adjectivo «doente»”. Na verdade, o doente nunca pode ser encarado como um número e as estatísticas como primeira preocupação. Estipula-se a obrigação de atender e cuidar um determinado número e num determinado tempo e esquece-se, ou pode esquecer-se, a pessoa na sua individualidade e os problemas que a afligem.

Com esta certeza de olhar constantemente para a dignidade e a vida de qualquer pessoa, nunca poderemos ceder “a actos como a eutanásia, o suicídio assistido ou a supressão da vida, mesmo se o estado da doença for irreversível”.

Em Portugal estamos a viver mais um momento histórico. Não podemos alhear-nos do que acontecerá no Parlamento no dia 20 deste mês. Não podemos permitir que alguns deputados queiram decidir por nós, quando não apresentaram o assunto da eutanásia nos seus programas eleitorais.

Acreditamos que a vida é sagrada porque é um dom de Deus. Mas não nos ficamos nesta certeza que alguns não quererem aceitar. Este problema não é meramente religioso. É civilizacional. A vida é inviolável. Foram necessários muitos séculos até aceitarmos este valor fundamental, este valor que está na base de todos os outros. Não deitemos fora uma conquista de séculos!

Sabemos, ou deveríamos saber, qual o caminho a seguir. A dignidade da vida não passa pela morte mas pelos cuidados que cada pessoa merece e precisa. Os cuidados paliativos são a única resposta para garantir uma morte digna.

Há dias, o Santo Padre, falando na Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé (30/01/2020), foi peremptório ao afirmar: “O actual contexto sócio-cultural está a levar à progressiva erosão da consciência daquilo que faz com que a vida humana seja preciosa. Na verdade, esta é cada vez mais avaliada em função da sua eficiência e utilidade, a ponto de se considerar «vidas descartadas» ou «vidas indignas», aquelas que não correspondem a esse critério. Com esta perda dos valores autênticos, começam a faltar também os deveres irrenunciáveis da solidariedade e da fraternidade humana e cristã”. O que importa é criar uma “verdadeira plataforma humana de relações” de modo a que, perante a unicidade e integralidade da pessoa, nunca ninguém seja abandonado, mesmo diante de males incuráveis. A vida humana conserva sempre o seu valor e toda a sua dignidade, mesmo em situações de precaridade e fragilidade.

Preparemo-nos para viver na próxima Terça-feira o Dia Mundial do Doente. Deixemo-nos interpelar, pessoal e comunitariamente, por aquilo que devemos ser para os nossos doentes. Por outro lado, neste momento concreto, não deixemos de assumir a responsabilidade de exigir uma rede de Cuidados Continuados e Paliativos onde possa ser oferecida uma verdadeira “terapia da dignidade” e aceitemos, também, o dever de expressar o que sentimos em relação à eutanásia. A morte é digna não quando é provocada mas quando acontece amparada por todos os cuidados técnicos e afectivos. Amemos a vida e cuidemos da doença.

Que Maria, saúde dos enfermos, conceda alento e coragem a quem sofre e proporcione aos profissionais de saúde a responsabilidade de, em espírito de missão, atenuarem as dores e acompanharem com solicitude e ternura até à hora determinada pela natureza.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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