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27 Fev 2020
Um caminho de renovação
Homilia na Quarta-feira de Cinzas.
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  © Diário do Minho
 À medida que o fenómeno religioso vai sendo ignorado pelo espírito moderno, vão surgindo diferentes propostas de espiritualidade que convidam à interioridade desprovida, contudo, da capacidade de uma relação com Deus e com os outros. Pretende-se que a interioridade gere um bem- estar individual sem qualquer impacto comunitário, eclesial e social. Tudo se centra na interioridade e foge-se dos compromissos efectivos que a relação com Deus e com os outros pressupõe.

A Quaresma, por seu lado, convida à interioridade isenta de ambiguidades, sabendo que o encontro com Deus acontece em tudo o que é verdadeiramente humano. Como crentes devemos amar a Deus, muitas vezes oculto, e mostrar que, por causa da fé, cuidamos de todas as pessoas, particularmente os mais marginalizados.

O Cristianismo exige uma viagem interior a partir do silêncio, uma genuína arte de ouvir tudo o que Deus vai sussurrando ou agitando, de modo a fortalecer-se um amor concreto às pessoas e ao mundo.

Como consequência, a Quaresma coloca-nos no caminho da renovação eclesial, que tem o seu princípio na interioridade e a sua meta final na transformação das realidades que nos rodeiam. Amamos a Deus servindo o próximo e transformando o mundo em Reino de Deus. Importa aventurarmo-nos, segundo um programa pessoal e comunitário, pelos caminhos da interioridade e abrir as portas para que o mundo entre e encontre respostas.

Na fidelidade ao espírito quaresmal, quero propor um tríptico que garanta resultados pessoais e sociais. São três coordenadas que encerram algumas sugestões para a elaboração de um projecto de vida que os cristãos devem assumir. Três palavras programáticas: conhecimento, radicalidade e profecia.

1. Criar circunstâncias que promovam um maior conhecimento de nós mesmos, da doutrina que professamos e dos dinamismos que movimentam o mundo. No meio de tanta informação, e do uso democratizado das redes de comunicação social, talvez tenhamos de reconhecer que precisamos de estar connosco para nos conhecermos, de ouvir a voz da consciência, de reconhecer que temos muito para mudar, que a imperfeição nos acompanha e que nem sempre é conveniente refugiarmo-nos na auto-defesa de quem se considera intocável.

Esta atitude de conhecimento nasce, em primeiro lugar, da escuta da Palavra de Deus. Mais do que nunca, teremos de acolher o Evangelho na sua autenticidade. Importa conhecê-lo, não como algo a decorar, mas como princípio orientador das nossas atitudes e opções. Sugiro o propósito de, todos os dias, ler uma passagem da Sagrada Escritura, assim como a ousadia de encontrar tempo para ler um bom livro que nos ajude a interiorizar a fé ou a conhecer as realidades do mundo. Talvez o compromisso de participar em conferências, tertúlias, ajude também a ver que este tempo é especial. A proposta de participar na Nova Ágora é uma boa sugestão.

2. Conhecendo-nos a nós próprios, o Evangelho, a Doutrina Social da Igreja e o mundo com todas as problemáticas que o afectam, sabemos que o caminho da radicalidade dirá quem somos e para o que vivemos. A indiferença e o secularismo conseguiram impregnar os dinamismos da sociedade dita moderna. Habituamo-nos ao “mais ou menos” ou ao deixar correr. Mas a Igreja tem algo de válido a propor quando testemunha corajosamente a sua doutrina e se pauta por escolhas radicais. O caminho do Cristianismo não tem outra hipótese. Não são os discursos que nos identificam. As bonitas teorias já não seduzem ninguém. O mundo é sensível ao que choca e que se impõe pela diferença. Nada de vidas medíocres e superficiais! A Quaresma é, assim, o tempo para a ousadia de uma vida que não se confunde com a vulgaridade. Somos diferentes! E o mundo deve ter a oportunidade de o verificar.

3. Nesta aventura, deveremos aceitar que a profecia é a marca distintiva do cristão na sociedade. Há muito para denunciar! Para muitas realidades, importa mostrar as alternativas que existem. Pode não ser fácil. A voz profética em relação a muitos assuntos pode não ser tarefa da hierarquia. Esperamos sempre que ela fale ou se pronuncie. Mas, todo e qualquer cristão é um intérprete da mensagem e não deve temer levantar a sua voz. A Igreja não se pode calar perante tantas incoerências no mundo da justiça, da saúde ou do ensino. O mundo está a ser construído pelo imediatismo e facilitismo. Importa o sucesso imediato e o que mais convém para a satisfação pessoal. Os valores são desconsiderados e seguem-se ideologias desestruturadas. Não podemos ser condenados pela inércia. Temos uma doutrina com valor de universalidade e colocá-la no coração da sociedade ou na praça pública é dever que não podemos negligenciar.

O que falta para que a Igreja semeie esperança? Mostremos alegria por ser o que somos, mas acreditemos que ainda nos falta muito para nos tornarmos uma presença significativa nos tempos actuais. Estamos a fechar-nos nos nossos espaços e é isso que a mentalidade hodierna pretende. Não somos insignificantes.

“Levantar-se e semear esperança” é o nosso programa pastoral. Convido a que se reinterprete o verbo “levantar-se”. Só depois semearemos a esperança. O que semeamos nos jovens, nas famílias, na cultura, na arte ou no ensino? O que devemos semear? Estamos satisfeitos com a vida pessoal e com o dinamismo das paróquias? Deixemo-nos interpelar neste tempo favorável. Se interiorizarmos o verbo “levantar”, uma enorme novidade surgirá.

Neste regressar à interioridade para caminhar no mundo como testemunho de radicalidade e profecia, necessitamos de tomar consciência das necessidades e problemas da Igreja e da sociedade. Para isso temos a renúncia quaresmal a coisas supérfluas, canalizando os bens para causas eclesiais. Como habitualmente, daremos continuidade ao nosso projecto missionário na paróquia de Santa Cecília de Ocua: queremos construir espaços pastorais tão necessários ao quotidiano da missão. O Fundo Partilhar com Esperança permitirá que continuemos a responder a pedidos de pagamentos de rendas, alimentos, medicamentos, etc.. São tantas as pessoas que continuam a bater-nos à porta. O Santo Padre recorda-nos o verdadeiro sentido da Quaresma e da Páscoa. “A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre actual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em muitas pessoas que sofrem”.

A Quaresma, e particularmente a Semana Santa, oferece-nos um programa muito variado. Não pode ser para turista ver. Hoje, aqui e agora, continua a Paixão e a morte de Cristo. Toquemos essas dores de Cristo. Não precisamos de sair muito dos nossos espaços. Apliquemos-lhes a alquimia do amor vivido para experimentarmos, de facto, a Páscoa.

Façamos da Quaresma um período diferente. Entremos na nossa consciência para percorrer os caminhos sinuosos de uma Humanidade que nasceu para ser feliz. Que a Palavra de Deus, na sua meditação e vivência, nos acompanhe quotidianamente.

Concretizando o projecto de renovação eclesial, aceitemos os três pilares que nos devem acompanhar na vida pessoal e comunitária: conhecimento, radicalidade e profecia. Vamos descodificar o seu sentido. Cada um encerra um itinerário capaz de transformar a Quaresma num tempo diferente.

Que São Bartolomeu dos Mártires nos acompanhe nos seus sonhos e projectos de não se conformar com este mundo, ardendo de amor por Cristo e pela Igreja para iluminar a sociedade rumo a um humanismo que promova a felicidade para todos.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

 
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