Arquidiocese de Braga -
26 junho 2014
OPINIÃO: S. PAULO E NIETZSCHE
Como motivação para a vivência da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo que, pontualmente, ao ritmo do ano litúrgico, se celebra no fim do mês de junho, e como incentivo para a revisitação da herança cristológica dos dois epónimos da primeira «geração dos Apó
SÃO PAULO E NIETZSCHE
DESAFIOS PASTORAIS DE DUAS VISÕES CRISTOLÓGICAS INCOMENSURÁVEIS
1. Como motivação para a vivência da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo que, pontualmente, ao ritmo do ano litúrgico, se celebra no fim do mês de junho, e como incentivo para a revisitação da herança cristológica dos dois epónimos da primeira «geração dos Apóstolos», a equipa do Departamento para as Comunicações Sociais que coordena o suplemento «Igreja Viva» do Diário do Minho, qual «moscardo» socrático que inquieta as consciências sonolentas, instado pela leitura de um artigo do teólogo checo, Tomás Halik, autor da obra, entre outras, Paciência com Deus (2007), propôs-me, para reflexão, o seguinte tema “os desafios pastorais/espirituais dasvisões de Cristo protagonizadas por Nietzsche e por S. Paulo”.
É evidente que não cabe nos limites de uma página de jornal matéria bastante para uma tese de doutoramento. Faltando condições para um tratamento condigno de tal tema, não falta razão e pertinência, quanto mais não seja, para a sua enunciação.
Antes, porém, por força da celebração da referida Solenidade memorial dos dois Apóstolos angulares do cristianismo e da Igreja, permita-se-nos evocar a unidade essencial e a diferença circunstancial das mensagens de um e de outro, que alguém comparou ao movimento ondular concêntrico provocado por uma pedra lançada num lago, sendo Pedro, evidentemente, representado pela pedra e Paulo pela ondulação. Simplificando e sintetizando muito, diríamos que Pedro dá(-nos) testemunho do chamado «Jesus histórico» e Paulo do chamado «Cristo da fé», para nos servirmos de expressões que Joseph Ratzinger-Bento XVI também adota na sua obra Jesus de Nazaré.
2. Nietzsche triturou, com a sua «filosofia do martelo», a doutrina cristológica de Paulo, toda concentrada no mistério da Cruz, interpretando essa doutrina como sinónimo de aniquilação, de negação, de morte do homem. Trata-se de visões teológicas incomensuráveis, a do autor do Anticristo e a do Apóstolo das Gentes! Mas a mensagem cristã é mutilada se nela for ocultado quer o «sinal da Cruz» quer o sinal do «túmulo vazio», como também o recorda o teólogo J. B. Metz: «se o grito do crucificado não for ouvido na nossa pregação acerca da Ressurreição, a nossa mensagem passa a ser a mitologia da vitória, e não o núcleo da teologia cristã» (in A Paciência de Deus, p. 189).
Para compreender a explosiva e fragmentada mundividência nietzschiana, nomeadamente a sua sanha antiteísta, anticristã e antipaulina, importa ter em conta que esta sanha não é natureza psicológica nem pessoal, mas puramente intelectual, considerando que é rigorosamente consequente com três das suas proféticas proclamações: do «fim da verdade», da «morte de Deus», bem como da negação da pretensa «verdade científica».
3. Não é tarefa menor da evocação do conflito de visões cristológicas em causa identificar as suas implicações espirituais e pastorais. Uma dessas implicações pode ser a de tornar os crentes cristãos conscientes da necessidade de serem testemunhas da mensagem do «sepulcro vazio», de serem eles próprios esse «sepulcro», onde acontece e se revela a Ressurreição. «A Ressurreição deve ter lugar dentro de nós» (Tomás Halik, op. cit., p. 191). Assim sendo, nenhum destes sinais pode ser elidido da profissão e expressão da Fé cristã. Torna-se, assim, motivo de «escândalo» a facilidade com que, por vezes, na conceção e decoração estéticas dos espaços de celebração da Fé cristã se remove o «sinal da Cruz», como se a representação da figura de «Jesus Ressuscitado» anulasse a realidade da figura de «Jesus Crucificado»! Há anos, um estudante de Português Língua Estrangeira da Universidade do Minho, candidato a Pastor numa Igreja Reformada na região de Braga, dizia que ia acompanhar um grupo conterrâneos e amigos suecos numa visita ao Santuário do Bom Jesus de Braga, mas que não os levaria ao Sameiro. Questionado pelo professor sobre tal decisão, respondeu que não podia admitir que o «sinal da Cruz» estivesse relegado do seu lugar central, num templo cristão! Finalmente, impõe-se que a celebração da atualização do Mistério da Fé cristã, da Morte e da Vida, seja, para os que nela participam também uma espécie de «laboratório» da Fé. Quanto há a fazer para que o sentido da liturgia eucarística se torne, para os que nela participam, percetível e inteligível, na sua globalidade e particularidade!
José Marques Fernandes
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