Arquidiocese de Braga -

23 outubro 2026

Tom Corcoran ao clero de Braga: «As paróquias em crescimento precisam de líderes em crescimento»

Fotografia DACS

Cofundador da Rebuilt Parish encontrou-se com cerca de 60 sacerdotes no Espaço Vita, na presença do Arcebispo de Braga e dos bispos auxiliares. Acolher quem está afastado, formar discípulos e partilhar responsabilidades entre padres e leigos foram algumas

A renovação das paróquias começa pela transformação de quem as conduz. Esta foi uma das ideias centrais que Tom Corcoran, cofundador e presidente da Rebuilt Parish, deixou esta sexta-feira, 23 de outubro, num encontro com cerca de 60 sacerdotes da Arquidiocese de Braga, no Espaço Vita. A sessão, realizada no âmbito do Renovar, contou com a presença do Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, e dos bispos auxiliares D. Nélio Pita e D. Delfim Gomes.

Num diálogo marcado pelas perguntas e inquietações dos sacerdotes, o responsável norte-americano partilhou a experiência de renovação da Igreja da Natividade, em Timonium, Maryland, desenvolvida em colaboração com o padre Michael White. A partir desse percurso, apresentou propostas para comunidades que procuram crescer na fé, acolher novas pessoas e assumir de forma mais consciente a sua missão evangelizadora.

«As paróquias em crescimento precisam de líderes em crescimento», afirmou, sublinhando que a renovação exige um trabalho interior dos próprios responsáveis e uma disponibilidade permanente para aprender.

A mudança começa no coração

Questionado sobre obstáculos como o egoísmo e a indiferença, Tom Corcoran começou por dirigir a atenção para os próprios líderes: «Creio que tudo começa no coração de um líder.»

Os párocos e os responsáveis paroquiais, explicou, precisam de reconhecer e enfrentar o seu próprio egoísmo, a tibieza e a indiferença que também os podem atingir. A oração pessoal e a capacidade de manter o olhar no Senhor surgem, por isso, como condições fundamentais para conduzir uma comunidade, sobretudo quando as dificuldades parecem ocupar todo o horizonte.

Ao abordar as resistências associadas ao tradicionalismo, recordou a necessidade de «servir Deus na nossa geração». Algumas formas de agir que responderam às necessidades de outras épocas precisam de ser repensadas perante a realidade atual, mantendo como referência a missão confiada por Jesus: fazer discípulos.

Essa disponibilidade para aprender marcou também o início da transformação da Natividade. «Começámos a aprender com outras igrejas, outras paróquias», recordou. O contacto com comunidades em renovação ajudou Tom Corcoran e o padre Michael White a ganhar coragem para realizar mudanças e a reconhecer os seus frutos.

«Crescemos como líderes. Vimos a comunidade crescer na participação ao fim de semana, no voluntariado, nas ofertas e na generosidade», relatou. A experiência levou-os, posteriormente, a partilhar com outras paróquias aquilo que tinham aprendido.

Quatro prioridades para renovar a comunidade

A pedido dos participantes, Tom Corcoran apresentou as quatro orientações que estruturam a proposta Rebuilt: cuidar da experiência das pessoas nas celebrações do fim de semana; acolher quem está afastado; proporcionar um percurso claro de crescimento na fé; e formar responsáveis em diferentes níveis da vida paroquial.

«Quando falamos em criar uma boa experiência ao fim de semana, referimo-nos à Missa e aos serviços que a rodeiam», explicou. Neste âmbito, destacou três dimensões: a música, a homilia e as equipas de acolhimento. Referiu igualmente a importância das atividades dirigidas às crianças e das condições que permitem às famílias participar na vida comunitária.

A atenção a quem chega ocupa um lugar central nesta proposta. Para o cofundador da Rebuilt, uma comunidade missionária precisa de cultivar o interesse pelas pessoas que ainda não participam na sua vida.

«É o desejo de chegar às pessoas a quem ainda não estamos a chegar, que ainda não estão presentes», afirmou.

Essa responsabilidade, acrescentou, deve ser assumida por toda a comunidade: «Trata-se de criar uma cultura que tenha no coração as pessoas que estão afastadas de Jesus e de ajudar quem está nos bancos da igreja a reconhecer que essa é a sua responsabilidade.»

Um percurso concreto para crescer na fé

A par da abertura a novas pessoas, Tom Corcoran insistiu na necessidade de ajudar os que já participam a amadurecer como discípulos de Jesus. A proposta passa por «crescer em profundidade, traçando um percurso claro de discipulado».

Para explicar esta necessidade, recorreu à imagem de alguém que procura um treinador para melhorar a sua condição física: espera encontrar um plano, orientações e acompanhamento. Também uma pessoa que deseja seguir Jesus precisa de perceber que passos pode dar e de encontrar uma comunidade que a ajude a percorrê-los.

Na Natividade, esse caminho organiza-se em torno de cinco dimensões: o serviço, a generosidade, os laços comunitários, a oração e a vida sacramental, e a partilha da fé. O objetivo é que o crescimento pessoal contribua também para a edificação da comunidade.

Neste percurso, os pequenos grupos têm uma importância particular. São espaços de encontro regular, conversa sobre a fé e apoio mútuo, nos quais se constroem amizades que ajudam a viver o Evangelho.

«Os nossos amigos vão influenciar-nos. Precisamos de aproveitar isso para o nosso crescimento espiritual», observou, salientando a importância de ter amigos na fé que acompanhem e sustentem esse crescimento.

Partilhar responsabilidades entre padres e leigos

A relação entre o ministério dos sacerdotes e a participação dos leigos atravessou várias perguntas. Um dos participantes colocou a questão das agendas paroquiais fortemente ocupadas por celebrações e sacramentos e perguntou de que modo a experiência da Natividade tinha permitido reorganizar o trabalho pastoral.

Tom Corcoran reconheceu que não conhecia em detalhe o peso dessas responsabilidades na realidade local, mas apontou um critério: «É preciso identificar o que só os padres podem fazer e fazê-lo.»

A partir daí, propôs confiar a diáconos e leigos as tarefas e os serviços que podem assumir, dando-lhes responsabilidade e condições para os desenvolver. Os pequenos grupos e as equipas de acolhimento foram apresentados como exemplos de uma comunidade em que as pessoas cuidam umas das outras e participam ativamente na missão.

«Os grupos reúnem-se regularmente e conversam sobre a fé», explicou. Nesses encontros pode nascer uma experiência de cuidado pastoral, proximidade e pertença que se estende à vida quotidiana dos participantes.

Para ilustrar a necessidade de distribuir responsabilidades, evocou o episódio bíblico em que Jetro aconselha Moisés a partilhar o encargo de acompanhar o povo. A imagem serviu para apresentar uma liderança que forma outras pessoas e lhes confia tarefas.

«Não podemos contornar a questão da liderança. Deus serve-se de líderes para realizar a sua vontade», afirmou. Na experiência da Natividade, essa responsabilidade articula o pároco, uma equipa central de liderança, os colaboradores da paróquia e os responsáveis voluntários.

A homilia como «leme» da comunidade

A preparação da homilia e a coerência da mensagem transmitida à comunidade mereceram também particular atenção. Tom Corcoran explicou que, na Natividade, existe uma preocupação deliberada em proporcionar uma orientação comum a todos os que participam.

«Uma Igreja, uma mensagem», resumiu, referindo-se à prática da sua paróquia. «Todos ouvem a mesma homilia para que caminhemos juntos.»

A imagem utilizada para explicar esta opção foi a do leme: «A homilia, ou a mensagem, é o leme da Igreja.» A pregação ajuda a orientar a comunidade, a consolidar prioridades e a traduzir o caminho de discipulado em escolhas concretas.

Como exemplo, referiu o trabalho que a Natividade está a desenvolver em torno do acolhimento. Essa prioridade tem estado presente nas homilias das últimas semanas, ajudando os participantes a refletir sobre quem acolhem e sobre a forma como o fazem. A mensagem proclamada torna-se, assim, um ponto de referência para a vida e para a ação da comunidade.

Reconhecer as resistências e comunicar uma visão

O diálogo abordou ainda as dificuldades que surgem quando uma comunidade procura mudar. Tom Corcoran reconheceu a necessidade de identificar os obstáculos, compreender o que impede o caminho e agir com sabedoria.

Ao mesmo tempo, alertou para o risco de uma atenção excessiva aos problemas lhes dar uma dimensão cada vez maior. A liderança precisa de encontrar um equilíbrio entre reconhecer as dificuldades e manter a comunidade orientada para a missão que recebeu.

Na parte final do encontro, os participantes foram convidados a imaginar a sua paróquia renovada. Entre as palavras que surgiram destacaram-se «renovada», «limpa» e «acolhedora». A partir delas, Tom Corcoran insistiu na importância de dar uma expressão concreta àquilo que se deseja construir.

«É importante sonhar com Deus», afirmou.

Esse sonho, explicou, pode traduzir-se em imagens reconhecíveis: crianças felizes por estar na igreja; adolescentes ou universitários reunidos para ler e refletir sobre a Bíblia; pessoas que abrem as portas e convidam outras a entrar; uma assembleia que canta e participa.

Cabe aos responsáveis comunicar essa visão de forma compreensível. Falar de renovação torna-se mais mobilizador quando se consegue mostrar o que ela poderá significar na vida das pessoas e das famílias.

Também o acolhimento começa em gestos simples. Um sorriso, um aperto de mão e a atenção aos espaços podem ajudar quem chega a sentir-se bem recebido. Corcoran recordou que muitas pessoas se aproximam de uma igreja com a dúvida sobre se encontrarão ali um lugar para si.

Uma experiência que chega ao Renovar

O encontro com o clero antecedeu a terceira edição do Renovar, que decorre nos dias 24 e 25 de outubro, no Fórum Braga, sob o tema «Renovar é missão». Tom Corcoran é o principal conferencista desta edição, dedicada à renovação espiritual e pastoral das comunidades e aberta também à participação de outras dioceses portuguesas. O programa inclui oração, conferências, workshops, momentos de partilha e a celebração da Eucaristia.

Uma das novidades é a apresentação da edição portuguesa de Rebuilt, livro que dá a conhecer o percurso desenvolvido pelo padre Michael White e por Tom Corcoran. A Arquidiocese de Braga assumiu a tradução da obra, com a colaboração da Livraria Diário do Minho na edição portuguesa, disponibilizando um recurso para prolongar nas comunidades o trabalho de reflexão e renovação pastoral.

Com perto de três décadas de experiência na vida paroquial, Tom Corcoran exerce funções de adjunto do pároco na Igreja da Natividade e é coautor de vários livros sobre missão, liderança e renovação das comunidades. Em 2023, o Papa Francisco distinguiu o seu serviço à Igreja com a medalha Pro Ecclesia et Pontifice.

A sessão no Espaço Vita terminou com uma oração pela renovação pastoral, na qual os sacerdotes foram convidados a apresentar a Deus as suas paróquias e o caminho que cada comunidade é chamada a percorrer.