Arquidiocese de Braga -

18 janeiro 2026

Descida da natalidade é reveladora de perda de esperança no futuro

Fotografia DM

DM - Joaquim Martins Fernandes

A forte descida da natalidade que está a verificar-se nos países ocidentais é um sinal de perda de esperança no futuro. A leitura foi feita ontem pelo professor de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, João Duque, numa mesa-redonda promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Braga, subordinada ao tema “Maria, Mãe da Esperança”. Assumindo a interpretação teológica de que Maria, enquanto “Mãe da Esperança”, coloca «a maternidade» no centro da esperança da humanidade, João Duque alertou que «a crise de natalidade» traduz uma diminuição das expetativas face ao futuro. 

«Não deixa de ser significativo que a esperança da humanidade seja uma mulher; que a humanidade toda seja representada numa mulher», sublinhou o professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa, para destacar que, nesse quadro, «a grande expetativa da humanidade na História da Salvação é uma mulher: Maria», que enquanto «Mãe de Jesus» é também «Mãe da Esperança, Mãe da Vida e Mãe da Paz».

O sacerdote da Arquidiocese de Braga acentuou que «a maternidade» surge, assim, como «uma questão muito significativa», no que respeita à esperança da humanidade. «E para a nossa civilização europeia [a maternidade] tem um significado especial, na medida em que estamos a perder um pouco a maternidade», vincou, alertando que uma quebra na importância cultural da maternidade pode evidenciar «uma crise de esperança», que se «reflete numa crise de natalidade». 

É que «sem grande esperança no futuro não há tantos nascimentos; e com menos nascimentos há uma perda de esperança», evidenciou João Duque, notando que a redução da natalidade, que coloca sérias ameaças à civilização ocidental, é um sinal das expetativas quanto ao futuro. «Os povos que ainda estão mal têm a expetativa de um futuro melhor e isso reflete-se também na natalidade», vincou o docente da Universidade Católica Portuguesa, contrapondo que os países mais afetados pela redução da natalidade são os que estão melhor, mas que receiam um futuro menos bom. O professor catedrático destacou que a natalidade «é também consequência» dessas expetativas» e «não apenas» de piores ou melhores condições económicas.

Centrando na atualidade a leitura de “Maria, Mãe da Esperança”, João Duque deixou claro «aquilo que é legítimo» à humanidade esperar. «O modelo de esperança da humanidade é o modelo de Maria: uma mulher humilde, uma mulher pobre», enfatizou, notando que «este modelo não coincide com as expectativas» de muitos países, até porque a esperança da humanidade pode não estar bem colocada. 

Denunciando um mundo em que «cada um», «cada tribo», «cada povo» aspira «à glorificação» e ao «poder», João Duque deixou claro que «a expectativa de Maria leva uma evidência: nenhum chefe de Estado é mais digno que um carpinteiro de Nazaré».

Promover debate interdisciplinar e intercultural

Na sessão de abertura da mesa-redonda dedicada ao tema “Maria, Mãe da Esperança”, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Bernardo Reis, explicou que a realização inseriu-se no contexto do Ano Jubilar 2025 – Peregrinos da Esperança. Bernardo Reis acrescentou que a reflexão «resulta de uma organização do Instituto da Padroeira de Portugal para os Estudos de Mariologia, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Braga» e que «congregou diferentes instituições académicas e culturais, em torno de uma reflexão comum».

«A temática que hoje [ontem] nos reúne propõe uma abordagem plural e interdisciplinar à figura de Maria enquanto Mãe da Esperança, convocando perspetivas teológicas, históricas, artísticas e culturais. Pretende-se, deste modo, promover a partilha de conhecimento, estimular o diálogo entre especialistas e contribuir para o aprofundamento dos estudos mariológicos, numa abertura ao público em geral», sublinhou Bernardo Reis.