Arquidiocese de Braga -
21 janeiro 2026
D. José sublinha fraternidade e hospitalidade da Festa das Papas de Gondiães
DM - André Arantes
A chuva cai miúda e persistente sobre a serra, mas não demove quem sobe e desce os caminhos estreitos até à pequena igreja de Gondiães, em Cabeceiras de Basto. É terça-feira, dia útil, 20 de janeiro, mas o adro enche-se de gente vinda de perto e de longe. Muitos regressaram de França, da Suíça ou do Luxemburgo apenas para este dia. Cumpre-se, mais uma vez, a Festa das Papas em honra de São Sebastião, uma tradição que atravessa séculos e que nasceu de uma promessa feita em tempo de peste.
A origem perde-se na Idade Média, quando uma doença devastadora atingiu pessoas e animais destas comunidades de montanha. Perante o desespero, os avoengos recorreram a São Sebastião, prometendo honrá-lo todos os anos se fossem poupados. A promessa mantém-se viva, passando de geração em geração, ora em Gondiães nos anos pares, ora em Samão nos anos ímpares.
No interior da pequena igreja, não cabe mais ninguém. A missa é presidida pelo Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, que quis associar-se à celebração depois de, na recente visita pastoral, lhe terem falado do forte simbolismo desta festa.
«A festa de São Sebastião congrega todas as pessoas que queiram nela participar num sinal máximo de hospitalidade», sublinha o prelado, destacando o envolvimento da comunidade que prepara o pão, coze-o na terra, confeciona as papas, trata da carne e do vinho para acolher todos, sem exceção. «Todas as pessoas que quiserem partilham da mesma mesa.»
Para D. José Cordeiro, este é um gesto que ultrapassa o simples ritual.
«É um ato de grande generosidade e hospitalidade que celebra os valores fundamentais da fé e da humanidade», afirma, apontando São Sebastião como símbolo de fortaleza, de martírio e de uma escolha consciente.
O Arcebispo destaca ainda outra marca forte da festa, a diáspora. «As pessoas daqui, estejam onde estiverem, regressam. Hoje estão aqui muitos emigrantes que tiraram a semana para poderem estar presentes». Num dia de semana e com chuva, a multidão não passa despercebida. «Nada nos pode separar do amor de Cristo, nem a chuva», recorda, evocando São Paulo, vendo nesta presença um testemunho vivo de fraternidade e esperança.
Terminada a Eucaristia e a procissão, a festa continua à mesa. Papas, pão, carne e vinho são partilhados num banquete comunitário que simboliza, como refere o arcebispo, «a criatividade do amor, da fraternidade e da hospitalidade». «Fazer o bem sem olhar a quem é o que melhor traduz a Eucaristia e este dia», acrescenta, apelando a que se continue a «alargar o coração» e a resistir às divisões e ideologias com gestos concretos de proximidade.
Presente na celebração, o presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, Manuel Teixeira, sublinha a importância de manter viva esta tradição para o concelho.
«É uma tradição secular e temos de a preservar», afirma, reconhecendo que o mau tempo pode afastar alguns, mas valorizando a forte adesão popular. «Mesmo num dia de semana, ver aqui tanta gente é muito importante», refere.
O autarca destaca ainda o significado emocional da festa para os naturais da terra. «Há emigrantes que deixam o trabalho para vir aqui de propósito. Isto diz-lhes muito. É marcante para eles, para o concelho e queremos que seja marcante para a região», remata.
Entre a memória de uma promessa antiga e a força de uma comunidade que continua a cumprir, Gondiães voltou a mostrar que a Festa das Papas é mais do que tradição.
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