Arquidiocese de Braga -

16 fevereiro 2026

A voz do imperador: Padre António Vieira volta a ecoar na Quaresma

Fotografia DR

Basílica dos Congregados

Na Quaresma de 2026, os Sermões de Padre António Vieira ganham nova vida na Basílica dos Congregados, em Braga. Através da voz do ator José Miguel Braga, um ciclo de leituras dramatizadas devolverá aos textos a força da palavra dita e escutada, recuperando o púlpito como lugar de consciência crítica e de conversão, onde a palavra de Vieira continua a provocar, inquietar e despertar. Um convite a escutar, na Quaresma, uma voz que permanece surpreendentemente atual.

O ciclo inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, às 18h30, com o Sermão de Quarta-Feira de Cinzas. Este texto convida a uma reflexão exigente sobre a finitude e a condição mortal do homem, lembrando que "o pó que somos" é a vida e o "pó que havemos de ser" é a morte. No domingo seguinte, 22 de fevereiro, às 15h30, será proferido o Sermão do Primeiro Domingo da Quaresma (Maranhão), uma peça central na defesa da dignidade humana e na denúncia profética da injustiça social.

Uma voz para o século XXI

Ouvir Vieira no atual contexto político, social e cultural de Portugal e do mundo é mais do que um exercício literário; é uma necessidade ética. Numa era de comunicação global marcada por desigualdades, conflitos rácicos e a ameaça de um relativismo ético, a mentalidade de Vieira surge como prefigurativa do mundo que queremos construir. Considerado o "Imperador da Língua Portuguesa", Vieira permanece um paradigma da prosa e um mestre da oratória sacra que não se confina a temas teológicos, tratando questões de natureza moral, social e política que espelham a alma humana em qualquer época.
O Pe. Paulo Terroso, reitor dos Congregados, justifica a iniciativa sublinhando a responsabilidade da Igreja na promoção destes momentos de reflexão: "Trazer Vieira de volta ao púlpito é cumprir o dever da Igreja de ser uma voz que clama no deserto das consciências adormecidas. Numa sociedade que vive muitas vezes sob o signo da vaidade e do 'pó levantado', Vieira recorda-nos a importância do bem comum e da justiça evangélica, valores que a Igreja tem o dever de proclamar com coragem".

Por sua vez, o Pe. Tiago Freitas destaca a atualidade do pensamento vieiriano: "Ouvir o Sermão do Maranhão hoje é confrontarmo-nos com as novas formas de escravidão e exploração que ainda persistem no mundo. Vieira foi um pioneiro e paradigma da interculturalidade, ensinando-nos a colocarmo-nos no lugar do outro e a defender os direitos dos mais frágeis contra a arrogância do poder. A sua palavra continua a inquietar porque a verdade que ele pregava é intemporal".

O púlpito como tribuna da verdade

A interpretação de José Miguel Braga visa resgatar a essência da oratória barroca, onde o sermão era a base da cerimónia social e o púlpito o último baluarte da liberdade de expressão. Como o próprio Vieira afirmava, os sermões publicados, sem a voz que os anima, são como "cadáveres"; a leitura dramatizada pretende, por isso, "ressuscitar" a força persuasiva de um homem que sabia que "as ações são as que dão o ser ao pregador".

Este convite a escutar Vieira na Quaresma é um apelo a que cada cidadão entre em "si mesmo" e se veja ao espelho da doutrina, procurando uma conversão que não seja apenas ritual, mas uma mudança efetiva de vida face aos desafios do presente.

Um itinerário quaresmal que envolve a palavra, o corpo e os sentidos

Na Quaresma de 2026, a Basílica dos Congregados, em Braga, propõe um itinerário espiritual e cultural coerente e exigente, que articula a grande oratória clássica de Padre António Vieira com percursos artísticos, reflexão bíblica e experiências simbólicas ligadas à mesa e ao corpo. Trata-se de um programa pensado para recuperar a força da palavra, do gesto e dos sentidos como caminhos de conversão pessoal e de consciência crítica num tempo marcado por tensões sociais, desigualdades e fragilidades éticas.

Depois do ciclo de leituras dramatizadas dos Sermões de Vieira, a proposta quaresmal prolonga-se com “Subir à Jerusalém Celeste: os cinco sentidos como caminho”, uma visita guiada e espiritualmente acompanhada ao Escadório dos Cinco Sentidos do Santuário do Bom Jesus do Monte. No dia 7 de março, às 10h00, sob a orientação do Prof. Luís da Silva Pereira e com acompanhamento espiritual do Pe. Paulo Terroso, os participantes são convidados a percorrer este itinerário barroco como uma verdadeira catequese em movimento, onde visão, audição, tato, olfato e paladar se tornam mediações para pensar a fé, o corpo e a transcendência. O ponto de encontro será no Miradouro e Capela do Pretório de Pilatos (Bom Jesus). A participação é gratuita, mas requer inscrição obrigatória.

O programa prossegue no Domingo de Ramos, 29 de março de 2026, às 21h00, com as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, na Basílica dos Congregados. As meditações foram confiadas ao professor Frederico Lourenço, tradutor da Bíblia e ensaísta, cuja escrita se distingue pela densidade intelectual, rigor bíblico e profunda humanidade. A leitura das últimas palavras de Cristo será feita por Paulo Mira Coelho, locutor, guionista, dobrador e diretor de dobragens.
Longe de uma piedade fácil ou de retórica religiosa, esta proposta convida a escutar a palavra de Cristo na Cruz com seriedade, inteligência e sentido crítico, colocando o texto bíblico em diálogo com a condição humana contemporânea. É um momento pensado para quem leva a sério a fé, a cultura e a exigência do pensamento cristão.

Finalmente, a 30 de março de 2026, às 20h00, a Basílica dos Congregados propõe uma Ceia Pascal Bíblica, no Refeitório da Cooperativa S. João Paulo II. Mais do que um jantar, trata-se de uma experiência espiritual concreta: viver a Ceia Pascal como Jesus a viveu com os seus Apóstolos. Cada gesto, cada alimento e cada palavra ajudam a compreender melhor a Eucaristia e o núcleo da Páscoa cristã. A ceia será orientada e comentada pelo Chef Luís Lavrador, que conduzirá os participantes pelos ritos e símbolos da tradição judaica, abrindo-os ao coração do Evangelho. A participação tem um custo de 30 euros por pessoa e requer inscrição obrigatória, estando sujeita a vagas limitadas.

Este conjunto de propostas constitui um percurso quaresmal integrado, onde a palavra pregada e escutada, a palavra meditada, o corpo em movimento e a mesa partilhada se cruzam como verdadeiros lugares de escuta, discernimento e conversão.

Com estas iniciativas, a Basílica dos Congregados quer ser espaço de consciência crítica e de despertamento espiritual, onde a fé dialoga com a cultura e a história concreta, não para se diluir nelas, mas para conduzir, com inteligência e profundidade, ao mistério pascal que está no coração da vida cristã.