Arquidiocese de Braga -
16 setembro 2026
Opinião
Um frade vicentino. O Venerável Bernardo Vasconcelos
D. Nélio Pita
Sem escolas de amor ao próximo como as Conferências de S. Vicente de Paulo, todos ficamos a perder: os pobres deixam de ser socorridos e, em última análise, a Igreja perde autoridade moral para anunciar a Boa Nova de Jesus.
Há temas que nunca passam de moda. A demanda da verdade, a pesquisa estética, a vontade de contribuir criativamente com uma resposta aos novos desafios e a aspiração à liberdade, são algumas das expressões do espírito humano presentes em todos os tempos. Elas têm a marca da eternidade.
Animado por uma eterna inquietação, no séc. XIX, o jovem universitário Frederico Ozanam suscitou um movimento precursor da doutrina social da Igreja. As conferências conhecidas como «vicentinas» foram laboratórios de reflexão nascidos do desejo de servir a humanidade, como membros da Igreja. Para isso, era necessário superar uma crítica destrutiva e reposicionar a comunidade dos batizados como instrumento de construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Animados por tão grande zelo, os jovens universitários católicos cedo compreenderam que não bastava dissertar sobre um passado glorioso na defesa da honra da instituição. A melhor defesa era viver, no presente, a mensagem de amor ao próximo, transmitida por Jesus e encarnada, no séc. XVII, no contexto francês, por S. Vicente de Paulo. Só esse amor daria nova autoridade moral e espiritual à Igreja. Assim nascia a Sociedade de S. Vicente de Paulo (SSVP).
A história da SSVP no nosso país ainda está por fazer, apesar dos seus mais de 150 anos de existência. Sabemos, porém, que a espiritualidade de serviço aos pobres, em conformidade com o carisma de S. Vicente de Paulo, moldou a vida de milhares de homens e mulheres, tornando-os reflexo da santidade de Deus. Na verdade, qualquer pessoa que se despoje do seu “status existencial” para servir, de uma forma constante e prolongada, por amor a Jesus, um irmão ferido pelo sofrimento ou uma família carenciada, essa experiência imprime carácter, deixa uma marca na alma que nunca se apaga. O sujeito transforma-se ao lavar os pés de um mendigo, ao abraçar um infeliz, ao acolher os lamentos daquele que verte lágrimas, ao acompanhar sem correrias os que são como almas penadas, aqueles que mendigam o afeto alheio e são evitados por todos.
Terá sido essa a experiência vivida pelo venerável Bernardo Vasconcelos quando integrou as conferências vicentinas, primeiro no Porto e, mais tarde, como estudante universitário, em Coimbra. O seu compromisso com os indigentes é testemunhado por aqueles que o conheceram de perto. Segundo a dinâmica das Conferências, Bernardo foi responsável pelo acompanhamento de uma família necessitada. A mãe era tuberculosa e o pai, alcoólico, consumia os parcos recursos no seu vício deixando à penúria o agregado familiar. «Quantas vezes, com pena da pobre mulher doente, [o Bernardo] foi tirar do penhorista os cobertores da cama, e os trazia debaixo da capa de estudante, cheio de contentamento, por assim poder minorar o sofrimento da pobrezinha! E quantas outras pagava, da sua magra bolsa, a renda da casa»(1).
Foi neste ambiente universitário que o jovem poeta e místico decidiu abandonar uma promissora carreira para assumir a condição de pobre e ingressar na vida monástica. Antes de partir, deixa o seu espólio – livros, roupas e móveis – aos assistidos da sua Conferência Vicentina.
Uma terrível doença, porém, entranhou-se-lhe no corpo e fez dele uma «hóstia de sangue». Durante anos, Bernardo percorre um calvário animado com a esperança de servir a Igreja, como frade beneditino. Em 1931, meses antes de morrer com quase 30 anos, o frade de alma vicentina escrevia a um colega: «faz muito bem em se inscrever nas Conferências de S. Vicente de Paulo, obra das melhores, das mais frutuosas».
A recomendação do jovem venerável deveria ressoar no coração das comunidades paroquiais e nas estruturas da pastoral juvenil e universitária que, nos últimos anos, por motivos variados, assistem passivamente ao desvanecimento do carisma vicentino, como se o exercício da caridade fosse assunto secundário ou um simples adorno na atividade da Igreja. Sem escolas de amor ao próximo como as Conferências de S. Vicente de Paulo, todos ficamos a perder: os pobres deixam de ser socorridos e, em última análise, a Igreja perde autoridade moral para anunciar a Boa Nova de Jesus.
Se é verdade que a Igreja não é uma ONG, ela não deve ter a pretensão de resolver a chaga da pobreza no mundo, não menos verdade é que, sem caridade, sem serviço ao outro, sem a denúncia profética das estruturas e ideologias que promovem a desigualdade, ela torna-se uma instituição de piedosos entretenimentos, uma obra condenada à irrelevância.
Conhecer o exemplo do frade vicentino, o venerável Frei Bernardo Vasconcelos, rezar por sua intercessão, deveria ser um propósito para o tempo presente. O seu testemunho de jovem profundamente comprometido ajuda-nos a compreender que o amor a Deus é inseparável do serviço aos pobres.
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