Arquidiocese de Braga -

17 outubro 2026

Instituição no Ministério de Leitor

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Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Sé Primaz - 17.10.2026

1. Escutar

“Escuta Israel” é o imperativo repetido por duas vezes na primeira leitura que hoje escutamos. Não é uma mera repetição; é, sim, um sinal de que a primeira missão do discípulo é escutar. Mas neste contexto, escutar não é um simples assimilar de sons e palavras; é, sobretudo, um sintonizar do coração com a voz de Deus, que continua a chamar e a enviar discípulos para o trabalho na Sua messe. Estais a preparar-vos humana, intelectual e espiritualmente para exercer o ministério diaconal. Hoje, com a instituição no ministério de leitor, dais mais um passo nesta caminhada.

Na Constituição Dei Verbum, o II Concílio do Vaticano relembrou que «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé (...). Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual» (n. 21).

Não esqueçamos: «o silêncio faz escutar» (Byung-Chul Han).

2. Leitor que realiza a Palavra

Neste sentido, o Leitor exerce o seu ministério tornando-se servo da Palavra e da comunidade onde se insere. Como em tudo na Igreja, esta instituição tem de ser vivida por vós como serviço desinteressado ao bem de toda a comunidade eclesial e nunca como um destaque, uma promoção ou um poder.

Na Igreja, o leitor não é apenas aquele que lê uma leitura durante a celebração de um sacramento, porque ler uma passagem da Escritura Sagrada implica, antes de mais, que essa Palavra seja escutada, meditada e sobretudo vivida no dia-a-dia. Um leitor até pode ser exímio na técnica vocal com que lê um texto sagrado, mas contradizer tudo aquilo que leu ao não ser capaz de o viver de forma concreta na sua vida. Atentemos no Evangelho hoje proclamado: «“Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”» (Lc 4, 21). A passagem lida por Jesus cumpriu-se porque Cristo assumiu a profecia de Isaías na sua própria vida; aquela passagem foi o “programa de vida” de Jesus, que Ele viveu por inteiro e até ao fim.

«Sê assíduo tanto na oração como na leitura. No primeiro caso falas tu com Deus, no segundo caso Deus fala contigo» (São Cipriano, A Donato, 15).

3. Conhecer de coração

Assim, o bom leitor é aquele que faz da Palavra de Deus um alimento diário; é aquele que lê o texto com o sentido de preparar tecnicamente e previamente a leitura na missa, mas que também lê para meditar esse texto e confrontar a sua vida, percebendo, à luz da Palavra, aquilo que precisa de conversão. O bom leitor é aquele que conhece a Bíblia e os seus diferentes textos e géneros literários; o bom leitor é aquele que não guarda para si o tesouro da Escritura, mas que o partilha na sua comunidade, promovendo a Lectio Divina, porque “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo” (São Jerónimo).

Conhecer a Escritura Sagrada, de coração e não apenas com a inteligência, é ter acesso a uma sabedoria particular, a sabedoria da salvação, tal como São Paulo transmitiu ao seu companheiro Timóteo (cf. 2Tim 3,15). Pela instituição de hoje, recebeis o encargo de tornar viva, para vós e para os outros, a Palavra de Deus, e de levar os outros a verem na Escritura não um mero conjunto de textos, mas uma nascente que alimenta a vida cristã em cada momento.

Como escrevi na Nota Pastoral Ministérios laicais na Igreja sinodal missionária: «Se toda a vida cristã deve ser bíblica, muito mais assumidamente o deve ser a espiritualidade do Leitor: uma vida de oração inspirada e nutrida continuamente no contacto familiar com a Palavra de Deus, que vive e floresce na Liturgia e é a alma de todo o apostolado. A atitude do Leitor em relação à Palavra de Deus deve corresponder à de João Baptista em relação a Cristo, a da “Voz” em relação ao “Verbo”: “convém que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30)».

 

 

+ José Manuel Cordeiro

Arcebispo Metropolita de Braga