Arquidiocese de Braga -
19 outubro 2026
Padre José Miguel Cardoso propõe descobrir a espiritualidade através das cores
DACS
Livro apresentado na semana passada, em Braga, explora a dimensão teológica, simbólica e espiritual da linguagem cromática
As cores fazem parte do quotidiano, influenciam decisões, moldam comportamentos e podem também abrir caminhos para a experiência espiritual. É a partir desta convicção que o padre José Miguel Cardoso propõe uma reflexão sobre a relação entre as cores, a fé cristã e a experiência humana, no livro O Segredo das Cores. Espiritualidade Cromática, apresentado no passado dia 15 de outubro, no MUZEU, em Braga.
Em entrevista ao Departamento Arquidiocesano de Comunicação (DACS), o sacerdote da Arquidiocese de Braga, que exerce atualmente funções no Dicastério para a Cultura e Educação da Cúria Romana, no Vaticano, e numa paróquia em Roma, explica que a obra procura explorar um tema ainda pouco desenvolvido na Teologia, apesar da sua «potencialidade epistemológica e evangélica».
«Nós temos um buraco na Teologia, que era precisamente estudar este tema, que é ainda um tema embrionário, um tema que precisa de ser explorado», afirma o autor, considerando que as cores constituem uma linguagem presente em diferentes dimensões da sociedade, desde a publicidade e a política até às pequenas decisões do dia a dia.
O sacerdote alerta, contudo, para aquilo que considera uma «iminente crise cromática», associada não apenas à crise ecológica, mas também à perda da diversidade cromática. Como exemplos, aponta a uniformização das cores das casas e dos edifícios nas cidades e a redução da variedade de cores dos automóveis. Uma tendência que, no seu entender, empobrece a linguagem através da qual as cores nos ajudam a interpretar o mundo.
O roxo entre o humano e o divino
Uma das propostas centrais do livro consiste em compreender a espiritualidade cristã através da simbologia das cores. Para o padre José Miguel Cardoso, a espiritualidade, entendida no sentido católico, é uma vivência específica da fé cristã, orientada para o aprofundamento da relação com Deus, o crescimento nas virtudes e o testemunho missionário.
Questionado sobre a existência de uma cor identificativa do cristianismo, o sacerdote aponta o roxo, precisamente a cor escolhida para a capa da obra. A explicação parte da relação simbólica entre o vermelho, associado à vida humana, e o azul, tradicionalmente relacionado com o céu e o divino.
«Todos somos vermelhos, no sentido em que somos portadores do sangue, somos viventes», explica. No outro extremo deste percurso simbólico encontra-se o azul, que remete para a dimensão divina. «Entre o vermelho humano e o azul divino, aparece o roxo, como esta cor intermediária», acrescenta.
Nesta perspetiva, o roxo representa Jesus Cristo, na sua condição divina e humana, e simboliza o caminho espiritual de cada pessoa. «O roxo é, sim, este sinal de um caminho, um percurso ascético, um itinerário de espiritualidade, deste movimento entre aquilo que é o terreno e o ultraterreno», sublinha.
Um livro com continuidade digital
A reflexão proposta em O Segredo das Cores. Espiritualidade Cromática prolonga-se também num podcast disponível no Spotify, criado pelo autor como forma de introduzir os leitores aos conteúdos da publicação e alcançar diferentes públicos.
«Hoje nós temos de ser mais criativos, traduzir a mensagem que temos de transmitir, usando as diversas plataformas», explica o sacerdote, defendendo a importância de recorrer a diferentes meios para comunicar.
Quanto à sua cor favorita, o padre José Miguel Cardoso escolhe o castanho, pela ligação à terra e pela sua dimensão espiritual, que associa também à cruz de Cristo. Reconhece, contudo, que as preferências cromáticas podem mudar ao longo da vida, em função dos estados de ânimo e das experiências de cada pessoa.
Publicado pela Universidade Católica Editora, o livro percorre a história, a tradução cultural, a análise psicológica e a interpretação espiritual das cores, procurando estabelecer pontes entre diferentes áreas do conhecimento. A obra dirige-se a um público diversificado, incluindo artistas, investigadores, profissionais da cultura e agentes pastorais, bem como pessoas interessadas em aprofundar a sua experiência espiritual.
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