Arquidiocese de Braga -

22 outubro 2026

Direitos Humanos: Bispo de Bangassou alerta para «situação terrível» na República Centro Africana

Fotografia Fundação AIS

D. Aurélio Gazzera tem o «sonho» de reativar «o sector do café», para as famílias «terem algum rendimento»

O bispo de Bangassou, na República Centro-Africana, alertou para a “situação terrível” que vivem, para o “risco” de ajudar outras pessoas, consequência de guerras, de violência, as riquezas naturais exploradas por outros países, enquanto a população luta pela sobrevivência.

“Agora é a Rússia que promete muito, que tem muitos interesses em consolidar a sua presença, mas com um peso enorme, porque eles não fazem isso gratuitamente. Portanto, há toda uma falta de transparência relativamente ao pagamento destes mercenários, e isso representa milhões de euros por ano, e muitos recursos foram, digamos, retirados por estas companhias russas, etc”, disse D. Aurélio Gazzera, à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), citado pelo secretariado português, na informação enviada à Agência ECCLESIA..

O bispo de Bangassou acrescentou que “também os chineses fazem muito na extração de ouro”, e alerta que são países onde “há demasiadas pessoas com demasiados interesses” para que a República Centro Africana “continue frágil e exista uma fragilidade estrutural ao nível, por exemplo, político e governamental”.

O bispo de Bangassou destacou o papel da Igreja Católica neste país, os missionários chegaram a Bangui em 1894 e “a primeira coisa que fizeram foi resgatar as crianças escravas que passavam ao longo do rio, libertá-las e educá-las”, por isso, “criaram imediatamente escolas”.

A fundação pontifícia explica que a Igreja local é muito pobre, D. Aurélio Gazzera contabiliza que há “paróquias onde, ao domingo, o padre recolhe 7, 8 euros”, e são as dioceses, “com a ajuda dos benfeitores da AIS, que contribuem e têm de assegurar as despesas”.

“O meu sonho é reativar um pouco o sector do café, o que poderá permitir às famílias terem algum rendimento regular”.

Na Diocese de Bangassou, que tem um território maior do que Portugal, tentam socorrer os que pedem ajuda, mas é uma missão difícil e arriscada, no dia 29 de junho, por exemplo, um sacerdote foi assassinado, “o abade Crépin, que foi morto em Zémio, uma zona de alta tensão, principalmente por causa do trabalho de mediação e de pacificação”.

“Encontramo-nos numa situação terrível, porque ainda é terrível, de pôr a própria vida em risco para ajudar as pessoas que, antes de mais, nem estão ligadas à Igreja; para além da enormidade do território, há, ainda assim, comunidades muito, muito corajosas, muito dinâmicas, que procuram manter a sua fé, a sua caridade, a sua esperança, apesar das dificuldades”, explicou.

O responsável diocesano alerta também para a falta de infraestruturas, como a rede viária, nesta região onde “mais de 600 km” separam “as duas paróquias mais distantes”, e com “estradas que já não existem”, para visitar as suas comunidades e paróquias precisa “de passar horas, dias, de carro, com riscos enormes, por vezes acidentes”, em março, por exemplo, ficaram “atolados durante um dia inteiro”.

D. Aurélio Gazzera recorda que “a guerra voltou a eclodir” entre grupos rebeldes e os militares centro-africanos, “apoiados por mercenários russos, que continuam a patrulhar a região, provocando desastres, queimando aldeias, matando pessoas”, no ano passado, no mês de junho.

“Nós reagimos enquanto diocese. Escrevi uma carta na qual falávamos da necessidade do diálogo e do desenvolvimento. Porque, se não houver estradas, não poderemos esperar desenvolvimento. E, se não houver diálogo, não podemos esperar desenvolvimento. Portanto, é realmente nesse sentido que temos de trabalhar”, lembrou ainda o missionário carmelita italiano, na entrevista à AIS do Canadá.

A 29 novembro de 2015, o Papa Francisco abriu na capital da República Centro Africana, em Bangui, a primeira Porta Santa do Jubileu da Misericórdia (2016), que “ajudou muito a acalmar um pouco a situação”, com as eleições de 2015-2016, o país “começou a funcionar a um ritmo um pouco mais regular, mas houve sempre zonas ocupadas por rebeldes”.