Arquidiocese de Braga -

22 outubro 2026

Renovar à luz do Evangelho

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Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Solenidade de São Martinho de Braga, Sé Primaz, 22.10.2026

  • Um em Cristo

A Igreja é Corpo de Cristo e por isso, os membros da Igreja, estão profundamente unidos uns aos outros. Todos somos irmãos em Cristo, não importando o local ou o tempo em que vivemos a nossa fé. Pelo mistério de Cristo há uma comunhão vital entre todos nós.

O apóstolo Paulo compreendeu em profundidade este mistério, e explanou-o nas suas cartas, tal como ouvimos na segunda leitura, onde o Apóstolo diz que luta para que sejam confortados os corações de todos, mesmo daqueles que não o viram pessoalmente (cf. Cl 2,1).

A união entre todos os cristãos leva-nos, assim, a perceber que não é possível viver a fé cristã de um modo individualista; mesmo aquele ou aquela que segue a vocação eremítica vive-a com a consciência de estar ligado espiritualmente aos seus irmãos na fé.

Vivemos em dependência uns dos outros, e a vida de uns influencia a vida de outros. É neste sentido que podemos interpretar as palavras de Paulo quando diz “completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Significa isto que podemos entregar as nossas vidas, com os seus sofrimentos e alegrias, em benefício da Igreja, para que nos membros da Igreja se complete a configuração com Cristo. Neste versículo Paulo não afirma que falta algo à paixão de Cristo, diz sim, que em nós a configuração com Cristo ainda não foi plenamente alcançada, mas que podemos trabalhar para isso, ainda que saibamos que essa união total só acontecerá na vida eterna.

As nossas orações, as nossas dores e sofrimentos, as nossas alegrias podem ser oferecidas a Deus diariamente, contribuindo assim para a santificação de toda a Igreja.

  • Peregrinos do Essencial

À sua maneira Paulo foi pastor que buscou as ovelhas perdidas (cf. Ez 34, 16), foi sal e luz para o mundo (cf. Mt 5,13-19), enfrentando perigos, incompreensões e perseguições. No seu tempo, Martinho de Braga, quer como abade de um mosteiro, quer como bispo de uma diocese, interpretou também como sua a missão de lutar para que os cristãos chegassem à plenitude do “mistério de Deus, que é Cristo” (Cl 2,2).

O zelo de anunciar Cristo levou São Martinho a sair da sua terra, a peregrinar aos lugares santos, e a ouvir o chamamento de Deus que o incitava a vir para a região onde nós hoje vivemos. Precisamos de renovar em nós o zelo de Paulo e de Martinho e o seu ardor missionário.

Na mensagem para o Centenário do Dia Mundial das Missões, a Conferência Episcopal Portuguesa afirmou que “Hoje, a missão passa pelas nossas cidades, aldeias, escolas, universidades, famílias e lugares de trabalho. Passa por aqueles que se afastaram da fé, por gerações que já não receberam o anúncio cristão e também pelo encontro quotidiano com pessoas de diferentes culturas e tradições religiosas”.

  • Conversão ao Evangelho

O plano pastoral da nossa Arquidiocese, que desde 2023 nos quer preparar para a comemoração dos dois mil anos da Páscoa em 2033, continua a percorrer o trilho da conversão ao Evangelho. Esta conversão passa por assumirmos a totalidade dos compromissos que o Batismo traz à nossa vida, e ser batizado é ser missionário, mesmo sem sair da nossa terra. Com tantas formas de comunicar ao nosso dispor nos dias de hoje, talvez já não tenhamos mais desculpas para nos demitirmos da missão de anunciar Cristo.

Sim, um sonho não utópico, mas um sonho projetual: sonho de comunhão, sonho de participação, sonho de missão, sonho de formação (humildade e serviço) e sonho de santidade.

A autêntica renovação acontece em Jesus Cristo, tal como rezamos na Oração Eucarística IV: «a fim de vivermos, não já para nós próprios, mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou».

São Paulo e São Martinho foram grandes missionários porque antes de mais a sua vida foi coerente entre a fé professada e a fé vivida. Que cada um de nós tenha pelo menos este desejo de não contrariar nas atitudes diárias a fé professada quando nos reunimos para celebrar.

 

+ José Manuel Cordeiro

Arcebispo Metropolita de Braga



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