Arquidiocese de Braga -
24 outubro 2026
Pe. Tiago Freitas: «Uma coisa é ser batizado, outra coisa é ser discípulo»
Apresentação da edição portuguesa de Reconstruir, no RENOVAR, destacou cinco intuições para a transformação das comunidades cristãs, da mudança da cultura paroquial à liderança partilhada
«Uma coisa é ser batizado, outra coisa é ser discípulo». A afirmação do Pe. Tiago Freitas sintetizou uma das principais ideias da apresentação da edição portuguesa de Reconstruir, de Michael White e Tom Corcoran, realizada este sábado, no âmbito do RENOVAR, no Forum Braga.
A edição, da responsabilidade da Arquidiocese de Braga, com a colaboração da Livraria Diário do Minho e da Gráfica Diário do Minho, foi apresentada como um instrumento para prolongar, nas comunidades, o caminho de reflexão iniciado durante o encontro. Mais do que apresentar uma teoria pastoral ou um modelo pronto a aplicar, o livro parte da experiência concreta de transformação da Church of the Nativity, nos Estados Unidos.
O Pe. Tiago Freitas apresentou cinco intuições que considera fundamentais para uma leitura da obra a partir da realidade portuguesa, começando pela necessidade de transformar a própria cultura das comunidades.
«O verdadeiro problema das paróquias é da cultura paroquial», afirmou, explicando que a questão não está, antes de mais, na escolha entre diferentes planos, estruturas ou atividades, mas «no foco, na visão» que orienta uma comunidade. Uma mudança desta natureza, advertiu, «precisa de imenso tempo», exigindo também paciência por parte dos líderes.
De consumidores a discípulos
Uma segunda intuição prende-se com a própria finalidade da comunidade cristã: «a paróquia existe, ou a sua principal missão é fazer discípulos».
O sacerdote alertou para o perigo de considerar que a evangelização se dirige apenas a quem está fora da Igreja. Também aqueles que cresceram em ambientes tradicionalmente católicos necessitam de fazer pessoalmente a experiência do discipulado.
«Uma coisa é ser batizado, outra coisa é ser discípulo», afirmou, recordando que «os primeiros destinatários da ação da comunidade somos nós próprios».
Neste contexto, rejeitou também a ideia de que a diminuição do número de cristãos possa conduzir à resignação perante comunidades cada vez menores. O mandato evangélico, sublinhou, continua a ser o de «fazer discípulos».
A terceira intuição apresentada foi a centralidade da Eucaristia e do domingo na transformação da comunidade. Embora valorizando os pequenos grupos e outras experiências de encontro em ambientes informais, o Pe. Tiago Freitas recordou que essas experiências encontram a sua plenitude quando a comunidade se reúne para celebrar a fé.
Participação e compromisso
A passagem «de consumidores a discípulos» exige ainda participação e compromisso, acrescentou.
Ser membro da Igreja não pode significar apenas receber os seus serviços ou participar ocasionalmente nas celebrações. «Se cada um de nós não assumir as suas próprias responsabilidades, que advêm do facto de ser batizado, se não fizer a sua parte, dificilmente alguém fará por nós», afirmou.
Pequenos grupos, voluntariado organizado, corresponsabilidade financeira e serviço missionário foram apresentados como formas concretas de participação na vida da comunidade.
O sacerdote chamou ainda a atenção para a necessidade de a fé tocar todas as dimensões da existência, incluindo a família, o trabalho e o compromisso social. Caso contrário, advertiu, torna-se difícil perceber «em que é que a fé nos muda».
Uma liderança partilhada
A quinta intuição apresentada a partir de Reconstruir diz respeito à liderança.
A renovação das comunidades, explicou, exige «uma liderança diferente», capaz de oferecer visão e promover uma verdadeira mudança cultural. E essa responsabilidade não pertence exclusivamente aos sacerdotes.
«Os sacerdotes são líderes, mas os leigos não são menos líderes do que os sacerdotes», afirmou, recordando experiências, nomeadamente na América Latina, onde comunidades cristãs permaneceram vivas graças às lideranças laicais.
Essa transformação implica também que os responsáveis eclesiais criem espaço para que outros possam assumir responsabilidades.
O Pe. Tiago Freitas evocou, neste contexto, a «liderança partilhada» promovida no processo sinodal e recordou que a Igreja não pertence a nenhum dos seus membros ou líderes.
«A Igreja é de Deus. Não é minha, não é tua, não é de cada um de nós», afirmou. «Podemos ser líderes, mas somos colaboradores em algo que não é nosso».
A edição portuguesa de Reconstruir pretende, assim, oferecer às comunidades um instrumento de continuidade do RENOVAR, não através da reprodução automática de uma experiência estrangeira, mas através da adaptação das suas intuições fundamentais à cultura, aos tempos e aos ritmos de cada realidade.
«Não queremos vender a banha da cobra para dizer: vocês agora vão pegar no livro, vão aplicar e vai funcionar», advertiu o Pe. Tiago. O caminho, acrescentou, passa por cada comunidade «dar carne» às intuições propostas e descobrir de que forma podem tornar-se realidade no seu próprio contexto.
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