Arquidiocese de Braga -
4 novembro 2026
Há uma cidade que ainda não aprendemos a ver
Cón. Eduardo Duque
Há cidades que julgamos conhecer profundamente, porque percorremos diariamente as suas ruas, reconhecemos os seus monumentos e habituámo-nos à familiaridade dos lugares onde a vida acontece. E, no entanto, por entre essa geografia que nos parece tão próxima, subsistem outras geografias, feitas de experiências humanas que raramente entram no nosso campo de visão, de histórias que se cruzam com as nossas sem verdadeiramente se encontrarem, de pessoas que partilham connosco a cidade, mas nem sempre o sentimento de lhe pertencer.
Talvez uma das formas mais silenciosas de exclusão seja precisamente esta: estar presente sem ser reconhecido, habitar os mesmos espaços sem participar plenamente na vida que neles se constrói. Porque a invisibilidade social não significa necessariamente ausência; significa, muitas vezes, a dificuldade que temos em reconhecer a presença do outro, sobretudo, quando a sua condição de vida nos confronta com fragilidades que preferimos manter à distância.
É a partir desta inquietação, e da convicção de que a cultura pode abrir caminhos de reconhecimento e proximidade, que nasce um projeto desenvolvido pela Pastoral da Cultura da Arquidiocese de Braga e pela dst, em parceria com a Câmara Municipal de Braga, a Arquidiocese e a Universidade do Minho. A iniciativa integra duas dinâmicas complementares, “Braga pelos Meus Olhos” e “À Mesa com Todos”, com a intenção de contribuir para uma cidade mais atenta à dignidade de cada pessoa, capaz de reconhecer na diversidade das experiências humanas não uma distância a preservar, mas
uma possibilidade de encontro.
O projeto parte de uma ideia muito simples: não basta responder às necessidades materiais de quem vive em situação de vulnerabilidade, por mais indispensável que essa resposta seja. A dignidade humana não se esgota no direito a receber ajuda; exprime-se também na possibilidade de participar, de ser escutado, de produzir beleza e de encontrar um lugar na vida comum.
As duas iniciativas terão lugar no próximo dia 14 de novembro, sábado, a partir das 11 horas, com a inauguração da exposição fotográfica “Braga pelos Meus Olhos”, nos arcos do Largo do Paço, no edifício da Reitoria da Universidade do Minho. Seguir-se-á a celebração da Eucaristia, presidido pelo Sr. Arcebispo,
D. José Cordeiro, e, posteriormente, “À Mesa com Todos”, um momento de partilha e convivência que procura dar expressão concreta ao espírito de encontro que inspira o projeto.
A cidade vista por outros olhos
Como será Braga aos olhos de quem a percorre a partir de uma experiência de fragilidade ou exclusão social? Que lugares adquirem significado, que pormenores despertam a atenção, que formas de beleza se revelam a quem conhece a cidade por caminhos diferentes daqueles que habitualmente percorremos?
A proposta consiste em entregar câmaras fotográficas a pessoas em situação de alguma vulnerabilidade social, convidando-as a registar livremente a cidade a partir da sua própria sensibilidade e experiência.
Há, nesta escolha, uma inversão particularmente significativa. Em vez de colocar estas pessoas diante de uma câmara para que outros as observem e interpretem, o projeto convida-as a ocupar o lugar de quem olha, escolhe e cria. Deixam, assim, de ser apenas objeto de uma narrativa construída a partir da sua condição social, para se tornarem autoras de uma narrativa própria, capazes de revelar a cidade através daquilo que as comove, surpreende ou interpela.
A fotografia torna-se, deste modo, mais do que um instrumento de expressão artística. Constitui uma possibilidade de reconhecimento, uma forma de devolver protagonismo a quem tantas vezes é definido pelas suas carências e não pelas suas capacidades. Porque nenhuma condição de pobreza elimina a sensibilidade estética, a memória afetiva ou a necessidade profundamente humana de encontrar beleza no mundo.
O encontro que acontece à mesa
Se a fotografia nos convida a reconhecer a singularidade do olhar do outro, a iniciativa, “À Mesa com Todos”, procura transformar esse reconhecimento numa experiência concreta de proximidade. Pretende-se reunir pessoas de diferentes condições sociais e económicas para uma refeição partilhada, acompanhada por momentos de música, poesia e convivência.
A mesa possui, na nossa tradição cultural e espiritual, um significado que ultrapassa largamente a função de alimentar. É um lugar de hospitalidade, de conversa e de pertença, onde o tempo pode adquirir uma cadência diferente e onde a presença do outro deixa de ser uma realidade abstrata para se tornar uma experiência concreta. Sentarmo-nos à mesma mesa implica aceitar uma proximidade que nem sempre encontramos na vida quotidiana, reconhecer no outro alguém com quem podemos partilhar não apenas o alimento, mas também a palavra, a escuta e o silêncio. Com esta iniciativa, não se pretende, portanto, organizar simplesmente uma refeição destinada a pessoas em situação de carência, mas criar um acontecimento cultural e comunitário no qual todos possam participar em condições de igual dignidade. A diferença é essencial, porque a solidariedade, quando se limita a estabelecer uma relação entre quem dá e quem recebe, corre o risco de conservar a distância que desejaria ultrapassar. O encontro, pelo contrário, introduz uma dimensão de reciprocidade, lembrando-nos que cada pessoa, independentemente da sua condição económica ou social, tem algo a oferecer à comunidade
A cultura como expressão da dignidade humana
Estas duas iniciativas encontram a sua unidade numa compreensão da cultura que não a reduz ao património, à criação artística ou à programação de acontecimentos. A cultura é também a forma como uma comunidade se pensa, se reconhece e se relaciona com aqueles que a constituem, sobretudo, com os que, por diferentes razões, permanecem mais afastados dos seus espaços de participação.
A pobreza continua a exigir respostas materiais, políticas públicas eficazes e um compromisso coletivo com a justiça social. Seria ingénuo imaginar que a arte ou a convivência pudessem substituir essas responsabilidades. Mas seria igualmente redutor considerar que a resposta à pobreza se esgota na satisfação das necessidades mais imediatas, esquecendo que o ser humano precisa também de reconhecimento, de beleza, de relações significativas e da possibilidade de participar na construção do mundo que habita.
Talvez seja esse, afinal, o maior desafio que estas iniciativas nos colocam: aprender a olhar de outro modo para a cidade, reconhecendo em cada pessoa não apenas alguém que a habita, mas alguém sem quem ela nunca estará verdadeiramente completa.
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