Arquidiocese de Braga -
6 novembro 2026
D. José Cordeiro defende que a adequação dos templos deve responder «ao que a celebração pede hoje»
DACS com Ecclesia e Secretariado Nacional Nacional de Liturgia
O Arcebispo de Braga e o padre Tiago Freitas destacam a importância da adequação litúrgica dos espaços de culto.
O Arcebispo de Braga e presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade (CELE), D. José Cordeiro, afirmou que a intervenção nos templos católicos exige conciliar a herança histórica com a renovação celebrativa. «A igreja-edifício não é um contentor de mobiliário e decoração», declarou na abertura da III Jornada Nacional de Arquitetura e Artes para a Liturgia, que decorre em Fátima, defendendo que o espaço sagrado é a «casa do Povo de Deus reunido, lugar da presença».
Para D. José Cordeiro, o desafio da adequação dos templos passa por «guardar a memória e responder com fidelidade criativa ao que a celebração pede hoje, a começar pelo altar, à volta do qual se reúne a comunidade». Na intervenção, proferida na casa Domus Carmeli, o prelado recordou o discurso de Leão XIV na Catedral de Notre-Dame de Paris, a 25 de setembro, quando o Papa advertiu que uma catedral, «despojada da ação litúrgica, perderia a sua alma», e elogiou um restauro capaz de dar «vida à tradição».
Assinalando o centenário da morte do venerável Antoni Gaudí, a quem o Papa chamou «arquiteto ardente de fé», a 10 de junho, na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, o Arcebispo de Braga sublinhou que também as igrejas são «memória recebida e obra que continua». Citou ainda o teólogo Romano Guardini para destacar que, se o mistério celebrado «é a beleza por excelência, então a Liturgia torna-se necessariamente expressão excelsa da beleza da fé».
Também o padre Tiago Freitas, da Arquidiocese de Braga, participou na jornada, com a primeira conferência do encontro, dedicada ao tema «Eclesiologia e espaço litúrgico». Sob a questão «Reconhecemos o edifício. Conhecemos a Igreja?», o sacerdote refletiu sobre a forma como a Igreja se torna presente e reconhecível através dos lugares que habita, salientando que, embora o edifício manifeste uma presença histórica, é a comunidade que lhe dá vida e significado eclesial.
O conferencista recordou que a pertença eclesial tem várias geografias, para além da paróquia, dando como exemplo uma capela num centro comercial de Makati, nas Filipinas. Contudo, questionou se basta a existência de um espaço disponível, sublinhando que, embora a proximidade facilite o acesso, a celebração exige condições próprias. «É a celebração que dá sentido ao espaço», afirmou.
Sendo a liturgia ação de Cristo e de toda a Igreja, a assembleia torna visível uma comunhão que a precede e a ultrapassa, pelo que «a comunidade inteira deve encontrar lugar na celebração». O padre Tiago Freitas lembrou ainda que, pela dedicação, uma igreja fica destinada de forma permanente ao culto e, mesmo fora da celebração, continua a ser lugar de oração e de adoração eucarística.
Na reflexão sobre a adequação das igrejas, entre a memória e a celebração presente, o sacerdote observou que, num mesmo presbitério, podem coexistir um altar antigo e outro mais recente, sendo cada configuração testemunho de uma compreensão da liturgia situada na história. Adequar uma igreja implica, assim, compreender a história que o edifício conserva e as necessidades da comunidade que nele celebra. «A liberdade criativa do arquiteto exerce-se no diálogo com a liturgia e com o lugar concreto», concluiu.
Dedicada ao tema «Adequação Litúrgica: memória e atualidade», a III Jornada Nacional de Arquitetura e Artes para a Liturgia reúne arquitetos, artistas, liturgistas e sacerdotes, por iniciativa do Serviço de Arquitetura e Artes para a Liturgia, organismo integrado no Secretariado Nacional de Liturgia que procura afirmar-se como «um lugar de diálogo e de formação».
No dia da memória de São Nuno de Santa Maria, cuja celebração de Vésperas encerra os trabalhos, D. José Cordeiro evocou as ruínas do Carmo, deixadas pelo Santo Condestável como «uma memória de pedra aberta ao céu», e os vitrais de Almada Negreiros que o representam, observando que «a arte de cada tempo continua a servir a casa de Deus». O Arcebispo de Braga concluiu a sua intervenção com um poema do padre David Maria Turoldo sobre a harmonia espiritual da pedra e agradeceu à equipa organizadora.
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