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CMAB | 5 Abr 2018
Santa Cecília de Ocua: A paróquia n.º 552 da Arquidiocese de Braga
Filipa Correia (Texto e fotos)
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  © Filipa Correia, DACS | Pemba, Moçambique

A Arquidiocese de Braga vai muito além de Portugal. Apadrinhou a paróquia de Santa Cecília de Ocua, na província de Cabo Delgado, em Moçambique, no âmbito de um acordo de cooperação com a diocese de Pemba. Nesta paróquia n.º 552 da Arquidiocese estão o leigo António e o padre Paulino, missionários que adoptaram a aldeia de Mahipa como sua casa ao longo de um ano. Apesar das dificuldades, prevalece a “linguagem do amor”, diz o Pe. Paulino. Para António, a experiência tem sido sinónimo de um “crescimento gigante”.

“Salama!”. Bem-vindos a Mahipa

O dia em Mahipa começa bem cedo, com os primeiros raios de sol. Pelas 4h30/5h, já é hora de “matabicho” – nome dado pelos locais ao pequeno-almoço. Depois de um pedaço de mandioca ou uma papa à base de farinha e açúcar aconchegar o estômago, estão prontos para a dureza da machamba – terreno onde cultivam. Carregados de ferramentas, cestos e baldes, que àquela hora ainda vão leves, seguem caminho pela terra vermelha, descalços ou em chinelos, rumo ao trabalho de mais um dia. De todos os dias, de Segunda a Segunda. As crianças de colo acompanham as mães, penduradas às costas, seguras pela capulana.

Após a jornada de trabalho, aguarda-os um caminho ingrato de regresso, debaixo de um sol ainda mais forte e com os cestos e baldes já cheios. São as mulheres que os carregam, à cabeça, com uma destreza a que a necessidade obrigou. Nem os filhos empoleirados lhes perturbam o equilíbrio. Entre conversas e risadas, iludem a dureza do percurso. Desengane-se quem da alegria lhes adivinhar uma vida fácil. Por detrás dos sorrisos, a crueza de um dia-a-dia pautado pelo trabalho e submissão.

Ao final do dia, pelas 18h, prepara-se o jantar. Uma rotina em função da luz solar. Apenas 3,3% das casas da província de Cabo Delgado possuem electricidade (dados de 2007, do Instituto Nacional de Estatística). Por entre as casas de bambu, madeira e matope – terra barrenta composta por argila, água e ramos –, encontram-se pequenas fogueiras, prestes a tratarem do jantar. Adija Alfredo está de volta das panelas. O marido ainda não chegou, está no mercado a tentar vender os produtos da machamba. Cultivam amendoim, mandioca seca e moringa. Hoje, o jantar vai ser chima, uma mistura de farinha com água. Tal como ontem e, provavelmente, amanhã. As crianças estão pela rua. Enquanto houver luz, é hora de brincadeira. Percorrendo o caminho enlameado, duas casas abaixo está Blaite Valente. Debruçado sobre os bambus, procura consertar o que as últimas chuvadas destruíram. “O teto é de bambu, e quando chove estraga”, lamenta. Quando chegar o tempo seco vai aumentar a casa “pelo menos seis metros”. A mulher ainda não chegou, foi buscar água ao poço para cozinhar o jantar. Blaite é camponês, semeia milho e algodão, que depois vende no mercado. Quer que os filhos, um menino de sete anos e uma menina com quatro anos, estudem mais do que ele, que apenas fez a 6.ª classe. Tem esperança que os estudos lhes proporcionem uma profissão melhor e que depois consigam ajudar os pais. A mulher já chegou. Sorri, não fala português. Para o ano, a filha vai para a escola. Aí terá o primeiro contacto com a língua oficial do país.

Próximo da casa de Blaite, vivem o Pe. Paulino e o leigo António, missionários da Arquidiocese de Braga. Chegados a Mahipa há oito meses, ficam pelo menos um ano para dar continuidade ao trabalho iniciado pela equipa missionária anterior. “Salama!”, o tradicional cumprimento em língua emakhwa, é o nome do projecto que integram e que António resume: “O «Salama!» consiste numa cooperação missionária, principalmente na parte pastoral, de evangelização. Também prestamos apoio noutras áreas, como a nutrição materno-infantil, o transporte de alguns doentes para o hospital, o apoio escolar a estudantes da escola secundária, a doação de bens de primeira necessidade a famílias mais carenciadas e a produção de uniformes escolares para algumas meninas”.

Fruto do trabalho da equipa anterior, conseguiram reabrir o posto de saúde, outrora abandonado. Agora, reabilitadas as instalações, a população tem acesso a consultas de enfermagem na aldeia. A reorganização das machambas também tem garantido melhores produções e maior rendimento à população. Na mira está a reabertura da “escolinha”, para as crianças em idade pré-escolar. Surgem algumas questões. A melhor forma de garantir a continuidade dos projectos que vão surgindo é a preocupação principal.

As carências são transversais a todas as áreas, com a pobreza sempre à espreita. É essa a grande diferença que o Pe. Paulino destaca comparativamente a Portugal. “Os nossos pobres não são tão pobres como os pobres daqui. Ao mesmo tempo, têm a capacidade de com tão pouco, com tanta pobreza, conseguirem ser ou parecerem felizes”, diz. Contactar com uma realidade que só tinha visto na televisão, ver os sorrisos e a simpatia das crianças que “se calhar naquele dia passaram fome” são aspectos que o têm marcado.

Inculturar: “O primeiro e o grande desafio”

Na aldeia todos sabem onde fica a casa dos missionários. As solicitações são constantes. Batem à porta. “O mano António está?”, ouve-se assim que a porta abre. É a mamã Catarina, com a filha à pendura, embrulhada na capulana. Vem buscar leite em pó para a Margarida – nome que escolheu em homenagem à missionária da equipa anterior. António consulta a calendarização do programa de aleitamento materno. Cada beneficiário tem uma ficha individual onde alguns dados, como o peso do bebé, vão sendo actualizados. Dos seis filhos de Catarina, Margarida é a mais nova. Tem nove meses e está há cinco no programa de aleitamento. Após uma avaliação pelo enfermeiro do Posto de Saúde, concluíram que o leite da mãe não era suficiente para as necessidades da criança. “Agora ela está gorda, bonita e saudável, por causa do leite. Aumentou muitos quilos, pesa 6.300kg”, conta a mãe, enquanto ri. Para além das situações de desnutrição, explica António, há muitas crianças orfãs acolhidas pelo programa.

Atendida a mamã Catarina, batem à porta novamente. Vêm pedir explicações sobre uma matéria da escola. António procura sempre incentivar os alunos a prosseguirem com os estudos. Lamenta que o Ensino Superior não esteja ao alcance de todos. Alberto, com quem muitas vezes conversa no alpendre da casa, sonha vir a ser enfermeiro no Posto de Saúde da aldeia. “Ficamos sempre com um aperto no coração por querermos ajudar mas não conseguirmos. Licenciar-se em Enfermagem implica pagar propinas, deslocação, alojamento, alimentação, fica muito dispendioso. Só os funcionários públicos, que trabalham, é que conseguem pagar a universidade, ou quem tem mais umas posses, filhos de portugueses, de estrangeiros, malta de fora”, desabafa.

Apesar do sentimento de impotência, António ajuda naquilo que pode. Designer de profissão, deixou o emprego para dedicar um ano da sua vida à missão. E não se arrepende. Foi em prol de um sonho que “tinha desde há muito”.

Na rua, conhece todos por quem passa. “Aqui toda a gente se cumprimenta, mesmo que não conheçam vêm ter contigo, dão-se a conhecer, e isso é uma alegria para nós. Viver no mundo ocidental dá-nos coisas mais desenvolvidas, mas as pessoas mal se conhecem, mal falam”, conta.

Mas apesar do balanço positivo da missão, as diferenças culturais são aspectos com os quais ainda está a aprender a lidar. “A parte cultural surpreendeu-me um bocadinho principalmente por causa da situação da mulher. A mulher aqui ainda está muito presa aos costumes antigos, e nós todos os dias batalhamos, também com a ajuda da comissão da mulher e de algumas mamãs mais formadas aqui nas aldeias, para que a mulher fique mais independente. Porque a mulher aqui, infelizmente, não vai à escola, não fala português, o marido é que resolve tudo”, explica.

Para o padre Paulino, a solução passa, sobretudo, pela inculturação. “O trabalho missionário e, no fundo, da presença do Evangelho, nunca pode ser desviado da realidade, tem que ser sempre inculturado, e esse é talvez o primeiro e o grande desafio”, revela. Dá o exemplo dos “ritos iniciáticos”, que assinalam a transição dos adolescentes para a vida adulta e que foram sofrendo alguns “desvios”, resultando, muitas vezes, em gravidezes precoces. Essas tradições, recorda, já tiveram um acompanhamento próximo da parte da Igreja Católica. Acredita que a solução não passa por impor ou restringir, mas antes por acolher a cultura da comunidade e acompanhar, orientar: “Dar a dignidade que a fé e a nossa presença evangélica a partir de Jesus Cristo podem trazer a esse rito”. “Então aí nós estamos a inculturar”, remata.

Uma igreja movida a leigos

A Igreja paroquial está cheia. É Domingo. Situada em Mahipa, a igreja sede de Santa Cecília de Ocua é ponto de encontro das várias comunidades, ou pelo menos das mais próximas. As músicas ritmadas, as palmas, e até algum gingar de anca, fazem parte da celebração. As crianças participam, cantam e dançam ao longo das quase três horas de eucaristia. É o Pe. Paulino a celebrar, com a ajuda de um membro da comunidade, que vai traduzindo para a língua materna. O contacto diário com os paroquianos já lhe permite dizer algumas palavras em emakhwa. Valeram-lhe ainda as gravações de áudio do padre Jorge, da equipa missionária anterior, que o ajudaram a familiarizar-se com a língua. Mas acima de tudo, diz, “há uma linguagem que é universal, aqui e em todo o lado, que é a linguagem do amor”.

Antes da chegada do Pe. Paulino, a celebração da Palavra era assegurada por leigos, os “animadores da Palavra”.

Na diocese de Pemba, são poucas as igrejas que contam com a presença de um padre. A maioria das comunidades vê o pároco apenas uma vez por ano, ou até menos. Numa província onde convivem cristãos, muçulmanos, hinduístas e outras religiões africanas, os leigos católicos, que representam cerca de 30% da população, têm mantido vivas as tradições da Igreja. Cada paróquia está dividida em diferentes zonas, onde cabem várias comunidades. Na paróquia de Santa Cecília de Ocua existem 17 zonas e 96 comunidades.

A comunidade mais distante da sede da paróquia situa-se a 60km, traduzidos em três horas de carro, e umas quantas mais de bicicleta ou a pé.

Na impossibilidade de chegar a todas as comunidades, são os “zonais”, ou responsáveis de zona, que fazem a ponte com o padre. São leigos dedicados, numa Igreja dita ministerial, onde a fé não esmoreceu com a ausência do padre. “Cada comunidade tem os seus leigos que desempenham as funções ministeriais. O trabalho pastoral na paróquia de Santa Cecília de Ocua depende essencialmente destes leigos que são os coordenadores, juntamente com a equipa missionária, e que vão fazendo a aproximação do terreno”, explica o Pe. Paulino.

Em comunidades que sobreviveram tantos anos sem a presença do padre, acrescenta, o trabalho a desenvolver passa, sobretudo, por “caminhar com as pessoas e capacitar na formação e no cumprimento da missão para a qual as pessoas foram escolhidas”.

Entre os meses de Novembro e Dezembro, os missionários visitaram as 17 zonas da paróquia. O Pe. Paulino perde-se no número de sacramentos celebrados, mas recorda os baptismos com cerca de 70 crianças e 80 adultos em simultâneo.

Com apenas 14 padres diocesanos, a diocese de Pemba conta com a ajuda de padres missionários, religiosos e padres fidei donum – padres missionários diocesanos –, perfazendo um total de 40. Para o bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, ele próprio missionário passionista, este é ainda um “número pequeno”, tendo em conta a “extensão da diocese”. E apesar de quase todas as paróquias terem pároco, muitas delas possuem mais de 100 comunidades. São quase 900 comunidades para 22 paróquias. “Seriam precisos muitos mais padres”, confessa.

Comparando a Igreja de Braga com a de Pemba, o Pe. Paulino conclui: “Parece que andamos ao contrário”. “Aqui já estão estabelecidas as celebrações da Palavra e agora procuramos que a eucaristia chegue a mais cristãos. Lá na nossa diocese há cada vez mais dificuldade em garantir a celebração da eucaristia, mas é perfeitamente possível ao Domingo haver celebração da Palavra dinamizada pelos ministérios que já existem”, explica.

Fala também sobre o “activismo” a que o dia-a-dia enquanto pároco na Arquidiocese de Braga obriga. Em Pemba, tem aprendido a ser mais paciente, a parar mais para rezar e estar com as pessoas. No final da missão, vai tentar levar consigo essa dedicação ao encontro pessoal. “Tenho consciência que ao chegar lá me vou deixar absorver pelo activismo, porque efectivamente é necessário responder a muitas solicitações, mas vou procurar estratégias para não deixar que o activismo supere aquilo que é o trabalho pastoral”, partilha.

O estilo de vida simples e desprendido é algo que também quer manter, com as naturais adaptações impostas pelo contexto. “Os bens materiais muitas vezes impedem-nos de ver o outro e vão-nos atafulhando a vida e o próprio coração”, justifica.

Após oito meses de missão, António não tem dúvidas: “Esta experiência fez-me crescer de uma maneira gigante”. E garante que todos os dias aprende algo de novo. “Nós aqui só vimos fortificar o que eles já têm, dar um pouquinho de nada. Quem recebe mais somos nós, porque vamos sair daqui com outro modo de ver as coisas, com outros ensinamentos”, acrescenta.

Reportagem publicada no Suplemento Igreja Viva de 05 de abril de 2018.

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