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16 Fev 2019
São Torcato, o santo do povo
Discurso no Ciclo de Conferências “Olhares sobre S. Torcato”
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Iniciarei esta singela partilha de alguns pormenores, históricos e actuais, que acontecem em todos os santuários. Falo genericamente para testemunhar que S. Torcato é um santo do povo. Darei, de seguida, um salto pedindo que o santuário seja um local de santidade para o povo. Termino com algumas interrogações pastorais, procurando incentivar os santuários a novas responsabilidades a assumir neste Ano Missionário. Importa crescer na consciência missionária e, para isso, S. Torcato e os outros santuários devem ter um rosto missionário.

Em primeiro lugar, importa tomar consciência daquilo que leva o povo a encontrar-se com S. Torcato ou qualquer outro santo. Sempre houve uma espécie de íman que atraía a estas figuras de vulto. De todos os cantos e esquinas vinham pessoas. Outrora a pé e hoje com todos os meios que permitem a mobilidade.

O primeiro grande motivo é a vida dos santos. O seu testemunho leva a que na Terra se saboreie uma vida diferente, marcada talvez pelo sofrimento mas sempre a apontar para a felicidade. Percorrem-se caminhos para contemplar vidas marcadas pelo Espírito do Evangelho mas sempre indicadoras de felicidade. Os santos são homens e mulheres felizes.

Nesta perspectiva, o exemplo de vida dos santos dava coragem e força para caminhar num estilo de vida cristão. Diziam-nos como se ultrapassavam as dificuldades e problemas. Pelo seu exemplo de vida, os santos instruíam-nos na Palavra de Deus que eles mesmos tinham vivido e pregado. Unidos a Deus, após uma vida com traços de santidade, são constituídos intercessores das nossas causas, sejam elas de tipo existencial ou espiritual. Como intercessores a quem se recorre, testemunham de modo inequívoco o amor de Deus pelos Seus filhos, como algo palpável e muito concreto. Deus não abandona ninguém. Está com todos, em todos os momentos, sobretudo nas debilidades e fraquezas. A intercessão ampara e realiza as graças e os milagres que são solicitados.

Conhecer-se a vida dos santos, autêntico exemplo cristão, é um convite a imitarmos os seus gestos e opções. Se as promessas se orientam, muitas vezes, para acções físicas, para momentos de sofrimento pessoal, de saúde e espiritual, assim como de ordem económica, muitos devotos olham também para as virtudes a copiar e para os valores a assimilar.

Exemplo, protecção, estímulo, modelos de doutrina… tudo é causa e motivo para variadíssimas formas de devoção. Importa aproximar-se do Santo, talvez tocar em algo que o identifique, relíquias ou objectos relacionados com a sua vida, e aí deixar o que aflige e preocupa para prosseguir a caminhada, tantas vezes mergulhada em dores e em incapacidades para sermos felizes.

A devoção acontece em variadíssimos momentos, solitários ou acompanhados, em dias de festa ou no silêncio quase anónimo. Tudo serve para este encontro. As festas são momentos privilegiados, mas não podemos também esquecer as feiras e sobretudo as romarias. São sinal de grande devoção e os romeiros não se poupam a sacrifícios. Cedo a Igreja e o povo intuíram a necessidade de proximidade para com o Santo, de estar com ele. 

Se um encontro espontâneo de devoção pode até ser suficiente, é necessário contudo mais tempo, até por causa das dificuldades das deslocações. Assim surgiram as romarias que testemunhavam grande devoção e com necessidade de tempo para estar. Reservava-se o dia inteiro ou vários dias. Os lugares onde estas aconteciam muitas vezes tinham albergues para acolher, oferecendo as condições mínimas para festejar o santo durante mais tempo (no nosso meio ainda hoje encontramos estes albergues na Abadia e no Bom Jesus. Hoje são hotéis mas antes foram alpendres para acolher). Onde as romarias acontecem, de um modo geral, podemos referir que a devoção ao Santo é muito grande. A estrutura desta romaria era muito similar em quase todos os lugares. Uma manhã a encerrar com uma novena e eucaristia, à tarde procissão e à noite um arraial para divertir e atenuar as agruras da vida.

Olhemos, agora, um pouco para S. Torcato. São sempre muitos os peregrinos e devotos. Ao longo da história apareceram muitos lugares de peregrinação. Aqueles que não tinham consistência desapareceram. Em vários lugares e circunstâncias, apareceram corpos incorruptos que o povo considerava santos. A Igreja, com a sua prudência e sabedoria, quase sempre oferecia resistências a estes fenómenos. Talvez todos nós nos recordemos de um ou outro caso. Quando a santidade estava verdadeiramente vinculada à pessoa de quem era o corpo, ela impunha-se e a Igreja não tinha outra hipótese se não aceitar. Foi isto o que aconteceu em S. Torcato. O santo impôs-se e quem o determinou foi o povo mostrando que o consideravam o seu santo.

As manifestações de fé popular foram imensas. O tempo que me foi concedido não me permite descrevê-las. Os historiadores são capazes de as enumerar. Não era só de um modo que o povo manifestava a sua devoção e todo o carinho por S. Torcato.

Se tudo tem significado, e são muitas as manifestações populares, a romaria testemunha o quanto, na verdade, S. Torcato foi e é um santo do povo. As multidões foram sempre significativas. Ainda hoje se pode testemunhar esta evidência. Penso que podemos verificar esta realidade quando se apelida a romaria de “Grande Romaria”. Era grande por tudo que o programa continha mas também pelos muitos fiéis que aqui ocorriam vindos de todo o norte do país e não só. Era neste ambiente de romaria, com todas as expressões de festa, que se poderia descortinar como o povo estava e está perto de S. Torcato. Penso não haver dúvidas!

Mas se S. Torcato é um santo do povo, os tempos actuais exigem que isto se torne evidente de outro modo. Penso não ser suficiente que as pessoas procurem este Santuário para pedir e agradecer, mas urge acolher o que o Papa Francisco solicita na Exortação Apostólica “Alegrai-vos e Exultai” sobre o chamamento à santidade no mundo actual. Aí o Santo Padre pede que não pensemos apenas naqueles que já estão beatificados ou canonizados. Recorda-nos que na História da salvação, Deus salvou um povo e, por isso, teremos de acreditar que ninguém se salva sozinho como indivíduo isolado. Deus convoca a todos para percorrerem o caminho da santidade. Se antes havia muitos santos do povo, e S. Torcato aparece nos primeiros lugares, hoje teremos de testemunhar uma santidade do povo, acreditando que a santidade é uma vocação universal. O Santo Padre diz que “gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto  de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade”. (G.E. 7)

Mas vendo esta santidade popular, pede-nos que nos deixemos “estimular pelos sinais de santidade, que os santos nos oferecem de modo que nos convençamos de que «a santidade é o rosto mais belo da Igreja». Para isso teremos de reconhecer que cada um tem o seu caminho. «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele»” (GE, 11).

Atrevo-me a deixar dois números da mesma Exortação Apostólica.

1. “Isto deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5)” (G.E. 13).

2. “Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (G.E. 14).

Se S. Torcato foi e é o Santo do Povo, atrevi-me a deixar aqui o convite para que a nossa Arquidiocese, e nela todas as paróquias, entrem no testemunho de uma santidade do povo. Esta é a verdadeira devoção aos santos. Creio que nestes “Olhares sobre S. Torcato” fica muito bem esta proposta. Por isso, sublinho, uma vez mais, um texto do Papa Francisco: “Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida «existe apenas uma tristeza: a de não ser santo»”. (G.E. 34),

Encontro com agrado também este horizonte plasmado nas palavras introdutórias da Irmandade para este Ciclo de Conferências.

“Ciente da importância da necessidade de pensar o seu legado para compreender melhor o presente e ajudar a perspetivar desafios do futuro, a Mesa da Irmandade entende desenvolver este Ciclo de Conferências para dar um contributo na divulgação e no entendimento da vida e obra de São Torcato, refletindo sobre esta, bem como sobre os impactos que a sua ininterrupta veneração ao longo dos séculos teve sobre esta comunidade. S. Torcato – Santo do povo – mantém a sua singularidade, o seu fervor religioso, erigindo-se em seu torno um dos grandes centros de religiosidade em Portugal.”

A conjugação destas duas realidades, santo do povo e santidade de povo, devem estimular a Confraria a individualizar os objectivos que pretende atingir, repensando ou reformulando a sua actividade. Existe uma história e tradição que importa conservar. Mas existe igualmente uma novidade que importa ser descoberta por esta Confraria e por todas as demais que conduzem os destinos dos nossos Santuários.

Com esta atenção pastoral, deixo algumas sugestões.

1. Conscientes de que o povo continuará a manifestar o amor por S. Torcato, importa criar todas as condições para que o possa continuar a fazer. Importa olhar para todos os condicionalismos materiais, retirando todas as dificuldades e tornando o santuário um local aprazível para responder à sede espiritual dos cristãos. Deveria também ser capaz de retemperar energias para o amargo da vida. O povo chega com problemas e o Santuário deveria promover um ambiente de verdadeiro acolhimento. 

Não esqueçamos que o nosso Programa Pastoral pretende tecer comunidades acolhedoras. Que importa fazer para que o Santuário acolha quem o procura? Um pouco de tudo… desde a espiritualidade às coisas mais simples como espaços exteriores, limpeza, acessibilidades, locais para descanso, etc. Hoje, nesta capacidade de acolhimento universal, as pessoas com dificuldades de locomoção merecem um carinho especial. Outrora não saíam das suas casas. Agora são as primeiras a quererem mostrar a sua devoção. Se as condições estruturais são importantes para o acolhimento, não podemos desconsiderar a necessidade de equipas de pessoas que se disponibilizem para este serviço pastoral. Não basta abrir as portas do Santuário. O cuidado humano manifestado numa palavra que responde a uma dúvida, num momento para que as pessoas possam confidenciar os seus problemas (em escuta pelos sacerdotes mas também por leigos), numa palavra de serenidade e ternura, revela o verdadeiro significado de um santuário católico. Há muito trabalho para realizar nesta vertente pastoral. Muito está feito, mas muito mais importa realizar.

 

2. Acrescento, ainda, outra realidade que caracteriza os peregrinos de hoje. Outrora, com maior ou menor fé, os peregrinos eram crentes. Algo de transcendente os movia. Hoje há muitos não-crentes. Sabemos que os santuários são procurados por curiosidade em relação à vida do santo, um saber por saber. Também para conhecer alguns pormenores da vida do santo ou das manifestações de fé dos verdadeiros peregrinos. Muitos outros apenas se preocupam pelo valor patrimonial, prendendo-se a valores arquitectónicos ou outros motivos de curiosidade. Sabemos que este número cresce. O que é que o santuário lhes oferece, mesmo sem eles quererem? A vida de harmonia, a beleza dos espaços mas, sobretudo e antes de tudo, algo que possa interpelar e deixar uma mensagem. O que fazer? A criatividade tem de ser posta à prova. Importa ter presente esta certeza. Recordo, a título de exemplo, que Charles Péguy entrou na Catedral Notre Dame por simples curiosidade. Estava maravilhado com os rendados arquitetónicos e a beleza dos vitrais. Quantas outras histórias existem mesmo sem serem escritas? Sabemos da presença do espiritual nos santuários. Reconhecemos que os santos continuam a falar. Mas algo mais da nossa responsabilidade também deve acontecer.

3. Quero, ainda, deixar um outro alerta que manifesta outro desafio. Sabemos que muitos cristãos abandonaram a prática religiosa mas continuam a dizer-se católicos. Para muitos, a única coisa que conservam é a passagem pelos santuários onde talvez consigam recitar algumas fórmulas aprendidas no colo das mães ou nos bancos da catequese. Sabemos que é um número em crescendo. Para eles, os santuários podem ser um local de reencontro com Deus e com a Igreja. Bastará uma liturgia bem preparada e vivida para que ultrapassem as experiências de celebrações monótonas que não lhes disseram nada. Pode acontecer que, por graça do santo e pelo trabalho de acolhimento e celebração, voltem à casa do Pai para uma vida cristã.

Deixei algumas notas para que o Santuário seja um lugar onde o povo se encontra com o Santo mas onde o ambiente que aí se respira pode suscitar verdadeiros sentimentos de fé. Aqui S. Torcato, noutros lugares outros santos ou particulares da vida de Cristo ou de Nossa Senhora, testemunham que o povo necessita da dimensão espiritual. Tudo na certeza de que S. Torcato é verdadeiramente o Santo do Povo, e de que os tempos que correm solicitam uma verdadeira renovação, como o Santo Padre nos propõe incansavelmente, para fazer dos santuários um lugar de proposta de santidade. Os santos devem ser imitados e hoje o cristão deve acreditar que a beleza da sua fé está em permitir que a vida seja imbuída pela mensagem evangélica que leva ao encontro com Cristo.

Peço licença para, com um certo atrevimento, deixar ainda um desafio ao Santuário de S. Torcato, mas também para todos os outros sediados na Arquidiocese. A resposta não será dada agora. Mas, na responsabilidade de quem está a viver o Ano Missionário, para concretizarmos a Igreja como comunidade acolhedora mas também missionária, importa reflectir e projectar novos horizontes para a missão que os santuários devem ter neste novo contexto eclesial. Se hoje estamos aqui neste Ciclo de Conferências, amanhã não poderemos organizar um Congresso promovido pelos principais santuários da Arquidiocese? Qual a verdadeira missão dos Santuários? Bastará conservar hábitos e rotinas de um programa anual marcado somente pelas tradições, algumas milenares? Não existirá algo de novo que só os santuários podem oferecer? No programa de renovação da Arquidiocese, espera-se muito das paróquias que não podem ter medo de reformas inadiáveis. Sabemos como elas se revestem de algumas fragilidades num contexto de mobilidade e de pouco sentido de pertença. Tudo deve ser equacionado para termos respostas para o hoje da Igreja. 

Urge, por isso, levantar a interrogação. O que é que do Evangelho de Jesus Cristo passa pela vida dos Santuários? O que se poderia e deveria fazer para que os santuários fossem proposta de vida evangélica à luz da realidade que aí é celebrada, da vida dos santos ou de alguns mistérios da vida cristã?

Olhando agora para este Santuário. O que é que a vida de S. Torcato diz às pessoas que passam pelo Santuário? As pessoas, crentes e não-crentes, continuam a sentir-se atraídas pela sua vida. Ele é, de facto, um santo do povo. Não precisamos de fazer muito para que isto seja verdade. Queremos sempre mais pessoas e o número de peregrinos é significativo. Mas, num projecto universal de santidade, este santuário não poderá, de modos variados e diferentes, ser promotor de uma santidade de povo?

Fica o desafio! Caminhemos juntos, discernindo o melhor caminho e que S. Torcato nos ilumine para o encontrar.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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