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31 Out 2014
Santidade Hospitalar
Mensagem do Sr. Arcebispo, D. Jorge Ortiga, na Solenidade de Todos os Santos e na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
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Há dias, numa acção de formação para o clero, Luciano Manicardi, da comunidade de Bose, em Itália, falou do serviço eclesial como “santidade hospitalar.” Este rosto de santidade é a tradução mais delicada da misericórdia de Deus-Pai e do modo como Jesus acolhe as pessoas. Santidade lembra transcendência, distância. Hospitalidade afirma inclusão, acolhimento, proximidade. Dois elementos dispostos numa tensão atractiva e que, fugindo a qualquer lógica humana, se suportam mutuamente.

Esta matriz da santidade hospitalar aplica-se, com verdade profunda e sentido de interpelação, à Solenidade de Todos os Santos e à comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Também aqui encontramos um profundo sentido cristológico. Diz o Invitatório da Solenidade de Todos os Santos do Breviário Romano que Cristo é a «coroa de todos os santos». Toda a veneração que prestamos aos santos deve levar-nos a Cristo e, por Ele, a Deus, que é admirável nos seus santos e neles é glorificado (cf. 1 Ts 1, 10). Sabemos, infelizmente, que esta solenidade não é mais feriado nacional, mas nunca poderemos permitir que deixe de ser Dia Santo e, antes de mais, que cesse de nos consagrar, isto é, de nos santificar em Cristo.

A santidade é um projecto ou horizonte de vida. Mas, antes disso, é dom. Um domque nasce e se expande no baptismo, ou não fosse o baptismo destinado a florescer a imagem e semelhançade Deus que nos habita (cf. Gn 1, 26). Se o cumprimento da santidade não decorre exclusivamente das nossas aspirações pessoais, então só pode ser fruto maduro da incessante procura de Deus.

A multidão dos que já atingiram a plenitude do encontro com Deus é um sinal eloquente de que a santidade está ao alcance de todo o Homem. S. Paulo, por exemplo, gostava muito de iniciar as suas cartas apelidando os cristãos de santos. “Paulo, Apóstolo de Cristo Jesus […], aos santos e fiéis em Cristo» (Ef 1, 1). De modo semelhante, S. Cirilo de Jerusalém, no séc. IV, dizia aos seus catequizandos: «Santos sois também vós, julgados dignos do Espírito Santo». E, nesta permuta de graça e oração entre os que estão junto de Deus e os que ainda peregrinam na terra, nasce um dos maiores tesouros do Reino de Deus, que é a comunhão dos santos e a comunhão com as coisas santas.

A vocação à santidade é universal. Os caminhos são multiformes. Gostaria, por isso, de propor a santidade hospitalar como critério de acção e como fisionomia identitária. Como traduzir isto em termos concretos?

Em primeiro lugar, deixando-se acolher por Deus, que se revela e se manifesta. Só quem se sentiu nalgum momento acolhido, amado e perdoado é que compreende o valor de uma hospitalidade absoluta.

Em segundo lugar, a santidade vive da dádiva bíblica do «vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Vai à tua família, vai à tua comunidade, vai às periferias, vai onde não pensavas ir. Acolhe sem escolher, faz-te livre para um encontro de verdadeira amizade. Faz-te próximo dos mais frágeis, vulneráveis ou carenciados.

Por fim, a hospitalidade deve alargar-se a uma dimensão escatológica, trazendo da memória para o coração aqueles que já partiram, acolhendo-os de um modo permanente e não só como ocasional recordação num dia do dia. Este horizonte mais amplo reconfigura a fragilidade do nosso esquecimento. Quando rezamos na eucaristia pelos nossos familiares ou amigos já falecidos temos a certeza, ainda que apenas nessa franja do tempo, de que a memória se faz memorial e o passado faz-se presente eterno no Corpo de Cristo. Acolhendo os antepassados, estamos em comunhão com eles e esta é a vivência da comemoração de Todos os Fiéis Defuntos.

Santidade hospitalar é a vida cristã com horizontes de eternidade e com compromisso histórico com as pessoas vivas e com os mortos.


Braga, 1 de Novembro de 2014

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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