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DACS | 25 Ago 2016
Papa: Saber discernir em áreas cinzentas é fundamental
Francisco pediu trabalho incansável com seminaristas para uma Igreja capaz de acompanhar fiéis.
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Durante a viagem apostólica que realizou à Polónia por ocasião da XXXI Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco encontrou-se com um grupo de 28 jesuítas polacos pertencentes a duas províncias da Companhias de Jesus do país. No encontro estiveram também presentes o pe. Andrzej Majewski, Director dos programas da Rádio Vaticano, o pe. Federico Lombardi, na altura Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, e o pe. Antonio Spadaro, Director da Revista La Civiltà Cattolica.

De acordo com Spadaro, o encontro – que durou cerca de quarenta minutos – decorreu em clima de “grande simplicidade, espontaneidade e cordialidade”, tendo, no entanto, sido rico em conteúdo significativo para a vida dos sacerdotes e da Igreja em geral.

Da reunião sobressaiu deixou uma recomendação muito especial deixada pelo Papa aos presentes, nomeadamente o pedido para trabalharem incansavelmente com os seminaristas.

“Acima de tudo, dar-lhes aquilo que temos recebido dos Exercícios: a sabedoria do discernimento. A Igreja de hoje precisa de crescer na capacidade de discernimento espiritual. Alguns planos de formação sacerdotal correm o perigo de educar à luz de ideias muito claras e distintas e, de seguida, agir com limites e critérios muito rígidos, definidos a priori, que não têm em conta a especificidade das situações, não os deixam interrogar-se sobre a validade de determinadas decisões. Quando mais tarde os seminaristas se tornam sacerdotes, têm dificuldade em acompanhar a vida de muitas pessoas, jovens e adultos que se encontram com as mesmas questões e que depois saem do confessionário decepcionadas porque o padre não tem capacidade de discernir as situações”, explicou.

O Santo Padre voltou a reforçar a necessidade de crescimento da Igreja a nível de discernimento, insistindo na necessidade de ensinar seminaristas e sacerdotes em formação a discernir correctamente as mais variadas situações.

“Repito, temos de ensinar isso especialmente aos sacerdotes, para ajudá-los à luz dos Exercícios no discernimento pastoral dinâmico que respeite o direito, mas que pode ir mais além. Esta é uma tarefa importante para a Companhia”, indicou.

Francisco terminou o encontro recordando um pensamento de Hugo Rahner, que diz que o jesuíta deve ser capaz de discernir tanto “no campo de Deus”, como no “campo do Diabo”.

“Devemos formar futuros sacerdotes não com ideias gerais e abstractas, que são claras e distintas, mas com um discernimento espiritual que faça com que consigam ajudar os outros na sua vida concreta. Devemos entender isto: na vida não é tudo preto no branco ou branco no preto. Não! Na vida predominam tons de cinzento. Devemos, então, ensinar a discernir neste cinzento”, concluiu.

 

Uma Igreja envolvida com as pessoas

Logo no início da reunião, e no contexto da Jornada Mundial da Juventude, os jesuítas disseram a Francisco que a sua mensagem conseguia chegar ao coração dos jovens, pedindo-lhe de seguida conselhos para conseguirem fazer o mesmo de forma eficaz. O Santo Padre começou por explicar que tenta “olhar toda a gente nos olhos” quando fala.

“Não é possível olhar todos, mas vou olhando nos olhos deste, daquele, de outro... e toda a gente parece ouvir o que digo. É uma coisa espontânea em mim, que também faço com os jovens. E também lhes faço perguntas!”, respondeu.

O Pontífice também explicou que procura sempre responder às perguntas dos mais novos, por mais complexas que sejam, e sempre com a verdade, nem que ela passe por um sincero “não sei”.

“Com os jovens não pode haver subterfúgios e se lhes apresentarmos apenas teorias ficam decepcionados. Eles são generosos por natureza, mas o trabalho com eles exige muita, muita paciência”, concluiu.

Sobre o papel da Universidade dos Jesuítas, Bergoglio sublinhou que deve apontar para uma formação abrangente e não apenas intelectual, uma formação integral da pessoa. “Se a universidade se torna simplesmente numa academia de noções ou numa «fábrica» de profissionais, ou na sua estrutura prevalece uma mentalidade centrada no negócio, então sai completamente fora do caminho”, respondeu.

O Papa rejeitou a referência de uma Universidade fechada em verdades “indiscutíveis” e recomendou um modelo que esteja envolvido na “vida real da Igreja e da Nação”, com especial atenção aos marginalizados e na defesa daqueles que necessitam de ser protegidos.

“E isto não é ser comunista: é apenas estar realmente envolvido com a realidade. Neste caso em particular, uma universidade jesuíta deve estar totalmente envolvida com a realidade, expressando o pensamento social da Igreja. O pensamento liberal, que move o homem a partir do centro e coloca o dinheiro no centro, não é o nosso. A doutrina da Igreja é clara”, sublinhou.

Francisco foi ainda questionado sobre o porquê de se ter tornado jesuíta, tendo-lhe sido pedido alguns conselhos para os sacerdotes recém-ordenados do grupo. Recordando “a grande graça em que consiste o sacerdócio”, pediu apenas aos jovens presbíteros que continuassem a viver a espiritualidade da oração “Suscipe”, de Santo Inácio.

 

O elogio da liberdade interior

Também o Pe. Adolfo Nicolás, Superior Geral da Companhia de Jesus, reiterou as ideias do Papa Francisco sobre o “pensamento aberto do jesuíta” quando questionado pelo Pe. Spadaro, em entrevista à La Civiltà Cattolica.

“Isso traduz-se no elogio da liberdade interior: apenas importa a vontade de Deus. Sejamos todos «investigadores» e capazes de discernir sobre a vontade de Deus (...). O nosso pensamento é sempre «incompleto», aberto a novos dados, novas compreensões, novos julgamentos sobre a verdade, etc.. Temos muito que aprender do silêncio da humanidade, da simples discrição. O jesuíta, como eu disse uma vez em África, deve ter três odores: de ovelha, isto é, a experiência da sua gente, da sua comunidade; da biblioteca, isto é, a sua reflexão profunda; e do futuro, que significa uma abertura radical à surpresa de Deus”, pode ler-se na revista.

O Pe. Nicolás revelou ainda ser necessária muita “audácia, fantasia e coragem” para a missão da Companhia, reconhecendo que existem vários desafios que acabam por travar a alegria e esperança da humanidade.

“Sempre estive convencido de que os desafios da Companhia de Jesus são os mesmos da humanidade (...). A nossa demanda é: como é que pensamos este desafio? Hoje precisamos de audácia, fantasia e coragem para enfrentarmos a nossa missão, como parte da grande missão de Deus no confronto do nosso mundo. E também acredito que deveria ser os recursos de uma revista assim especial como La Civiltà Cattolica hoje, e tendo em vista o futuro: abertura a novos eventos, novas ideias, novos estilos, diversidade de culturas, valores e perspectivas; (…) antecipar, ao invés de seguir, a sociedade e a modernidade; continuar a oferecer perspectivas aos grupos de pessoas que se preocupam com o futuro. Fazer frente aos desafios do momento, especialmente a falta de alegria, esperança e sentido”, concluiu.

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