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8 Fev 2019
No Espírito, renovar a pastoral
Discurso no Fórum Enovar 19
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  © DACS | Espaço Vita

Já não nos provoca admiração falar da crise da Igreja. Reconhecemos os seus contornos e estamos conscientes dos enigmas e perplexidades que ela implica.

Historicamente falando, foram muitos os momentos em que a Igreja se afastou da autenticidade evangélica e mergulhou em comportamentos incompreensíveis à luz do ideal cristão. Tudo se ultrapassou com o surgimento de uma vida cristã mais fiel ao ideal cristão.

Hoje, encontramo-nos numa multiplicidade de situações, algumas a nível interno das comunidades cristãs e outras de dimensão social, que se revelam um desafio para o futuro da Igreja. São muitas as interpelações e não podemos adormecer na tranquilidade do deixar correr. Neste contexto histórico, o Espírito Santo continua a falar e importa, por isso, discernir o que Ele nos pretende dizer.

Não é apenas a crise dos abusos, por mais aberrantes e incompreensíveis que sejam, que nos incomoda. O anúncio do Evangelho, se não se pretende que seja descartado por um mundo agnóstico e indiferente, deve ser enquadrado e preparado especificamente para um contexto de mudança de época e não só numa época de mudanças, como gosta de referir o Papa Francisco. Encontramo-nos perante cenários inéditos e neles a fé parece irrelevante. Isto deveria incomodar-nos e criar uma consciência de mudanças urgentes para não perdermos o comboio da história. São situações novas que desafiam a missão da Igreja e a compreensão que ela tem de si mesma. 

Duas palavras podem expressar e concretizar a exigência de nos colocarmos no coração da cultura – se é que podemos falar de cultura – desta sociedade que nos envolve e onde devemos semear a Palavra de Deus. Trata-se da urgência de uma renovação e de uma reforma. Duas palavras um pouco semelhantes mas com exigências diferentes. 

É mais usual centrar as prioridades no exercício de uma reforma. Mas ela, na ausência de um processo de renovação, não convencerá ninguém. A renovação ensina-nos que as “coisas novas”, geradoras de novos céus e novas terras, nascem da aproximação ao Evangelho que, por sua vez, nos introduz na fidelidade criativa capaz de individualizar caminhos novos. Na verdade, aquilo que hoje está em crise não é a mensagem evangélica, e isto importa assumi-lo e grita-lo, assim como também não é a Igreja no seu ser profundo de Povo de Deus que peregrina no meio de todas as tempestades possíveis. Nunca esqueçamos que hoje, como nunca, no seio da Humanidade está presente e operante o Deus connosco que acolhemos como Trindade no Seu amor e no modo de O vivermos. Sejamos claros, a crise reside em determinados paradigmas de Igreja, ou de um modo mais concreto e realista, nos modos de traduzir o cristianismo em doutrina, particularmente de âmbito moral, assim como nos métodos pastorais que no passado recente eram eficazes e que hoje já não nos convencem a nós e muito menos à mentalidade moderna.

Renovar é, assim, apaixonar-se do autêntico modelo da Igreja tornando visível a Trindade e permitindo que Deus continue a indicar os verdadeiros caminhos de uma reforma inadiável e cujos contornos importa discernir sinodalmente. Daí que a reforma, hoje, não possa significar uma mera adaptação às novas circunstâncias. É importante discernir nessas mudanças culturais a voz do Espírito, aquilo que Ele quer dizer à Igreja, ou seja, uma reforma com mudanças estruturais e de mentalidade mas, sobretudo, um regresso à “forma” originária da comunidade que aceita o radicalismo do Evangelho. O Papa Bento XVI numa entrevista, “Luz do Mundo”, sublinhava que hoje teremos de “procurar dizer o essencial, mas dizê-lo com palavras novas, ou seja, traduzir o tesouro da fé, num “modo tal que ele, no mundo secularizado, consiga tornar-se palavra para este mundo”. Trata-se “de permanecer ancorados na Palavra de Deus, como palavra decisiva, e, ao mesmo tempo, dar ao cristianismo aquela simplicidade e aquela profundidade sem a qual a Igreja não pode operar”.

Nas palavras do Papa Francisco, a renovação, suscitadora de reforma, não é uma simples operação de cosmética exterior e nem sequer um repensar somente as estruturas, que também é indispensável, mas de converter o coração e a mente para ver tudo com o olhar de Jesus e, deste modo, encontrar um novo paradigma.

Posso sintetizar este pensamento com as palavras de José António Pagola (Recuperar o projecto de Jesus) que a Arquidiocese de Braga colocou no seu Programa Pastoral. “Em teoria, Jesus está no centro da comunidade, porém se observarmos os sinais, as vivências, os interesses imediatos e o funcionamento dessa comunidade, veremos que com frequência o centro é a própria comunidade. Convidamos cada paroquiano a tomar parte na vida da paróquia e a colaborar nas suas actividades, mas não os convidamos a viver e a seguir Jesus. Sem nos apercebermos, o que vivemos com mais intensidade é a pertença à paróquia e a vontade de a reforçar: o que é próprio de um bom cristão é ser um bom paroquiano que se compromete incondicionalmente nas actividades da comunidade. Deste maneira, a paróquia trabalha, procura ser cada vez mais eficiente, organiza actividades diversas, introduz reformas, procura ter mais força de atração, mais visibilidade e eficácia”. 

Não teremos aqui um retrato do quotidiano da vida paroquial? Talvez nos desculpemos afirmando que foi sempre assim. A Igreja viveu mais preocupada com o fazer, mas hoje é um imperativo categórico apostar no ser como condição para um fazer com credibilidade. A consciência de que somos discípulos que, consciente e responsavelmente, escolhem Deus colocando-O no primeiro lugar, sentindo-se chamados pelo Seu amor para responder em missão com alegria evangélica, justificará a sua razão de ser no hoje da história.

O P. Congar fazia uma síntese histórica muito pragmática e elucidativa dos caminhos a percorrer. Uma concepção hierárquica da Igreja, que dominava antes do Concílio Vaticano II, apresentava uma espiritualidade da obediência como caminho de união com Deus. Estava tudo predestinado e era igual para todos. Bastava executar ou cumprir. Hoje, a eclesiologia do Povo de Deus exige uma espiritualidade de comunhão com Deus Trindade e, na Trindade, com os irmãos e irmãs. 

Podemos concluir que a renovação da Igreja, que suscita reformas, passa por aceitar a sinodalidade como uma “dimensão constitutiva da Igreja” (A sinodalidade na vida e missão da Igreja) para caminharmos juntos, à luz da Palavra de Deus, e discernirmos o que o Espírito diz à Igreja. Em experiências de pequenos grupos, de âmbitos diferentes, devemos promover a cultura do encontro perante a generalizada cultura da indiferença, na comunhão uns com os outros. “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome Eu estarei presente no meio deles”. Como consequência, as paróquias, comunidade de comunidades, anunciarão, de um modo credível, o Evangelho como alegre notícia para hoje.

Por aqui passa a reforma da Igreja e, sobretudo, a sua renovação. Por isso, todas as experiências são bem-vindas e devem ser acolhidas nesta certeza dos dons que o Espírito Santo nos oferece. Nestes dias queremos contactar com um caminho de renovação eclesial. Existem outros. Todos têm muito a dar. Como Arcebispo, congratulo-me com esta experiência no coração da Arquidiocese de Braga. Rezo para que sejamos capazes de a compreender na sua autenticidade. Posteriormente, espero uma articulação consciente com tantas outras sementes de renovação eclesial. Fundamental é que não nos instalemos em processos gastos e que nada dizem ao nosso povo que, consciente ou inconscientemente, anda à procura de um encontro com Deus.

Dou as boas vindas a todos, oriundos de Braga ou de outras dioceses, saúdo os senhores bispos e sacerdotes e espero que este Enovar 19 traga muitos frutos para a Igreja em Portugal. Para isso, sirvo-me da palavra do Papa Francisco: “Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisiona-lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado, para o mundo atual. Na realidade toda a ação evangelizadora autentica é sempre «nova»”. (A.E. 11)

Renovo os cumprimentos a todos e espero que, juntos, percorramos este caminho de renovação eclesial, aqui entre nós e depois nas nossas Igrejas Particulares.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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