Arquidiocese de Braga -
10 fevereiro 2016
Criativamente, missionários da misericórdia
Homilia na Quarta-feira de Cinzas, na Sé Catedral de Braga.
\n \nA Quaresma é sempre um tempo especial. Para além das interpelações litúrgicas, situa-se no centro do Ano Pastoral e, por isso, reforça os objectivos a que nos propusemos inicialmente como Arquidiocese. Cada ano é distinto na sua especificidade e nas solicitações que nos chegam da Igreja Universal.
Este ano, devemos reconhecer, com maior sentido de responsabilidade, que a missão da Igreja consiste em anunciar o Evangelho. Para isso são necessárias vozes capazes e uma fisionomia própria. No nosso plano pastoral procurámos deixar claro que todos os baptizados são arautos do Evangelho e, por isso, discípulos missionários. O que significa isso? Em essência, significa que semeiam a Palavra de Deus nos seus ofícios, nas suas famílias e no mundo enquanto rostos visíveis da Igreja. Todo o cristão é discípulo e o discípulo, por natureza, é missionário.
Como sabemos, a Quaresma é o tempo favorável para fazermos a experiência da misericórdia, da conversão e do perdão. Os hábitos e as rotinas do dia-a-dia facilmente nos conduzem a uma certa monotonia espiritual e a um certo desleixo que nos alheia da urgência de instaurar o reino de Deus no mundo. Daí a importância de assumir a conversão como um imperativo, uma ideia a recordar todos os dias, fazendo com que encontre âmbitos concretos na vida pessoal e na pastoral. Quando nos consciencializamos que somos cristãos, sacerdotes e leigos, em conversão, não podemos contentar-nos com o marasmo e rotina da vida pastoral das comunidades e da Arquidiocese. A Quaresma é tempo para “não pode deixar as coisas como estão” (EG 25). Com naturalidade, cada cristão e comunidade não pode deixar de reconhecer uma profunda inconformidade, um grande desencontro entre a graça que Deus vai doando no quotidiano e as opções que transparecem no ser e no agir da Igreja e dos cristãos.
Como processo contínuo, todos os anos ouvimos este apelo à conversão, celebrada particularmente no sacramento da reconciliação, onde as incoerências com os compromissos baptismais devem ser assumidos com propósito sincero de mudança. Neste Ano Missionário e da Misericórdia impõe-se que aceitemos a criatividade como ideia motora de muitas experiências e iniciativas. A reconciliação tem de ser vivida com mais tempo e perspectivas, o que exigirá muito mais aos sacerdotes e fiéis. Não podemos continuar a seguir paradigmas habituais que já cansaram muitos cristãos. Olhemos, com realismo, para as nossas comunidades. Vivem ao ritmo da conversão? Só a fidelidade e a coerência marcam a diferença.
Precisamos de ousar, na fidelidade ao Espírito, uma vida nova e, consequentemente, deixarmo-nos possuir por um ritmo de criatividade que suscite e desenvolva missionários da misericórdia. Missionários porque conscientes da missão única e irrepetível que toca a cada um. Misericórdia como estilo de vida de quem responde, na esteira de uma experiência de intimidade com a essência de Deus, com gestos de acção misericordiosa, redescobrindo o itinerário das Obras de Misericórdia.
Ouso deixar cinco palavras, em aberto, para serem aprofundadas no itinerário de conversão pessoal e pastoral. São ideias que podem originar criatividade e manifestar a vontade de termos um “coração puro”, como nos sugere o Itinerário litúrgico delineado para a caminhada Quaresmal.
– Recompor.A humildade conduz à consciência de que algo necessita de intervenção. As opções podem continuar a ser de monótono cumprimento dos deveres quaresmais – oração, jejum, abstinência, reconciliação, partilha – quando, na verdade, importa restituir a originalidade da graça baptismal, recompondo a maravilhosa identidade do ser cristão nestes tempos. Também a pastora necessita de alegria e encanto com iniciativas nunca experimentadas.
– Reverter. É uma palavra usada com frequência. Significa ser restituído ao antigo proprietário, regressar ao ponto de onde se partiu. O estatuto de baptizado obriga a voltar a Cristo como origem da nossa vida cristã, seguindo ousadamente as suas pegadas. O sacramento da reconciliação deve ser redescoberto nesta perspectiva de regresso “ao lugar onde Cristo está” para “morar” com Ele na alegria do discipulado. E a pastoral só vale se partir deste centro.
– Resiliência. Palavra que entrou no dicionário das conversas hodiernas e significa optimismo, confiança nas qualidades, ousadia de acreditar no muito que se é capaz de fazer. Partir do que sou e tenho, saber que é possível um progresso cristão e humano. Não refugiar-se numa vida, à partida, considerada irrepreensível mas antes reconhecer que tenho capacidades para as aperfeiçoar. E, consequentemente, tornar a pastoral mais positiva e dinâmica.
– Redescobrir a misericórdia através de uma interpretação continuada das Obras de Misericórdia. São antigas no seu enunciado doutrinal. Importa reaprendê-las e fazer que motivem muitas acções concretas e geradoras de grande alegria.
Esta conversa pessoal e pastoral conduz à partilha da vida – “assim como eu fiz, fazei vós também” – encontrando-se tempo para servir e, pela sobriedade nos gastos, transformando o supérfluo em algo útil. Assim, a renúncia quaresmal pode ter outros resultados e a comunidade mostrar um rosto missionário.
Destinaremos o contributo penitencial, que também necessita de ser gerido com criatividade de iniciativas, para o Fundo Partilhar com Esperança, como expressão Arquidiocesana das Obras de Misericórdia que, para além das respostas às nossas necessidades, olhará para os refugiados que se encontram na Síria e no Iraque, bem como para a “nossa” paróquia de Ocua, da Arquidiocese de Pemba - Moçambique, para onde, este verão, devem partir alguns voluntários missionários, como sinal e apelo para uma maior consciência missionária.
– Reencontrar um estilo de vida.O cristão não se identifica pelos sinais esporádicos e ocasionais. Um cristão ocasional está destinado à secura espiritual. O discípulo é seguidor de Cristo e isto não permite a tolerância com comportamentos ambíguos. Somos ou não somos discípulos? A comunidade não pode confundir-se com uma mera agência de serviço com maior ou menor qualidade.
Iniciando a Quaresma, segundo o itinerário proposto para a Arquidiocese, “cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.” (Slm 51, 12), aceitemos, sacerdotes e leigos, que sem conversão não há missão e reconheçamos que a conversão é pessoal mas deve passar para a pastoral onde criativamente intuiremos caminhos novos para anunciar, pela vida carregada de obras, a Misericórdia do Senhor. Não desperdicemos mais um Ano da Misericórdia e da Missão.
† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz
Download de Ficheiros
HML_02_2016.02.10_Braga_Cinzas.pdf
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