Arquidiocese de Braga -
1 janeiro 2023
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus e celebração do Dia Mundial da Paz
Homilia de D. Nuno Almeida na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus e celebração do Dia Mundial da Paz
\n \nA figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.
No Evangelho deste Dia de Maria e em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria guardava todos estes acontecimentos, compondo-os no seu coração» (Lucas 2,18-19). Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta qualificada. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar ou a conservar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa.
O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, a organizar, para melhor entender, e para melhor dar a entender. Maria a redigir um Poema, a compor uma Sinfonia, a escrever uma Canção, melodia que fica para a vida inteira surgindo sempre novos acordes de alegria.
Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia e harmonia que nos vêm de Deus, levou o Papa S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz.
Celebramos hoje o 56.º Dia Mundial da Paz. O Papa Francisco, no seguimento da dura experiência da luta nos últimos anos contra a pandemia, escolheu como lema da sua Mensagem para este dia: «Ninguém pode salvar-se sozinho».
À pandemia sucedeu, entretanto, a guerra absurda que destrói violentamente uma parte da Europa e cujos estilhaços se fazem sentir em todo o continente e um pouco por toda a parte. Guerra absurda, porque não se trata de uma guerra entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de lançar, cruel e violentamente, a estupidez que nos habita sobre uma população humana pacífica, normal e sensata, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira totalitária. Neste contexto, a sede de paz transforma-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu.
Quando temos de lutar contra uma pandemia, quando vemos os cenários de guerra a destruir, matar e a lançar tantos refugiados para longe das suas terras ou a ter de enfrentar os perigos do mar e a permanecer no abismo de tantos campos: é sobretudo o olhar dos meninos e meninas refugiados que fere o nosso coração e faz com que haja lágrimas nos nossos olhos.
No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, no ano de 2015, a jornalista e escritora bielorrussa Svjatlana Aleksievič contou várias histórias. Ora uma das histórias acontece num hospital de Cabul, durante a guerra no Afeganistão. Uma comitiva de jornalistas visitava os civis feridos e levava presentes para as crianças. O hospital era uma enorme tenda. Os doentes estavam deitados por terra, cobertos apenas por uma manta. A escritora passou por uma mãe com um filho pequeno ao lado. Deixou ao miúdo um pequeno urso de peluche, mas achou estranho que ele tivesse recebido o presente agarrando-o com os dentes. Interrogou, por isso, a mãe: “Porque se comporta ele assim?” A jovem afegã baixou a coberta que tapava o corpo do seu filho. E então alguém teve de amparar nesse momento Svjatlana Aleksievič, porque ela desmaiou: não estava preparada para o que acabava de ver. Uma bomba roubara àquele menino os seus braços.
Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a escuridão [literal na Ucrânia] e a nefasta atração pela morte, palpável na guerra, mas também no aborto e na eutanásia, tudo nos aparece sem Deus, sem rosto e sem rumo, sem irmão, sem irmã, tudo à medida sem medida da idolatria do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia sem limites, sem sequer se aperceber dos deserdados e abandonados que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia, e que vamos atirando para o sótão das inutilidades.
O que nos faz comover também nos deve mover à oração e ação, à partilha concreta segundo a nossa generosidade. Descobrimos que a terra não está acabada, Deus conta com os seres humanos para a aperfeiçoar e continuar a criar a Humanidade. Conta com os seus filhos para que respeitem o “santo rosto do irmão” e promovam a “santa paz do mundo” e o “santo rosto de Deus”, para que se sintam sempre filhos amados e criaturas e não “deuses” de si mesmos e donos de tudo e de todos.
Estamos todos convocados por Jesus, neste momento, para, segundo as nossas possibilidades, com gestos e palavras testemunharmos o amor de Deus que alivia, cura, alegra e oferece esperança.
Trata-se de globalizar a fraternidade: todo o ser humano é meu próximo, é meu irmão, pois se somos filhos amados de Deus, então somos realmente irmãos. Há um só Deus e uma só Humanidade! Monoteísmo tem como consequência o monantropismo (uma só humanidade).
Que o nosso Deus faça chegar até nós a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).
-Que Deus nos abençoe e nos guarde,
Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,
Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,
Cheios de amor, de paz e de alegria,
Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,
E nos ponha no caminho de Maria.
-O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.
O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia
Num amor maior do que um letreiro.
Vela por nós, Maria, em cada dia
Deste ano inteiro,
Para que levemos a cada enfermaria,
A cada periferia,
Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.
Que sob o olhar materno e amoroso de Maria, Mãe de Deus, tenhamos todos um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu e continua a dar! Amen!
D. Nuno Almeida
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Homilia 01_01_23_D_Nuno_Almeida
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