Arquidiocese de Braga -
25 março 2005
AS PALAVRAS DA SEXTA-FEIRA SANTA
Fotografia
D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga
\nAS PALAVRAS DA SEXTA-FEIRA SANTA
Em Sexta-Feira Santa a dramaticidade do silêncio torna-se eloquência. Ouve-se o Espírito que continua – ou deveria – a inquietar a Igreja que nasceu dum coração trespassado por amor.
Em todos os tempos – mas particularmente nas horas difíceis e enigmáticas – a Igreja foi capaz de se colocar junto da Cruz para ouvir a Palavra certa, motivadora e orientadora de projectos. Junto da Cruz aprende-se e as atitudes ganham consistência e profundidade.
Como Igreja Diocesana, gostaria de me colocar, para que muitos me seguissem em idêntica opção, junto da cruz para compreender as coordenadas para uma Igreja de matriz vocacional que gera vocações capazes de anunciar o Amor Redentor ao mundo que nos rodeia. As Palavras de Cristo podem ser itinerários que desmontam programas desadaptados e confirem novidade às opções corajosas.
No silêncio orante que procura projectar-se no nosso quotidiano viver eclesial, ouçamos as Palavras de Cristo na Cruz:
1 – «Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem…» (Lc. 23,33).
Não é fácil ver a sociedade percorrer caminhos de eliminação da dignidade humana através duma aposta em critérios e princípios de relativismo redutor e calar-se sem lançar imprecações e condenações. A tentação de apego ao negativo acompanha sempre a Igreja e, quase instintivamente, rezamos as cores escuras.
Numa atitude vocacional, norteadora de caminhos, teremos de optar pela tranquilidade capaz de ser o que é. Importa recentralizar-se no essencial da nossa fé e agir na dupla atitude de compreensão do mundo que gostaríamos de ver diferente e acolhê-lo no perdão concreto das suas incoerências e opções sem deixar de mostrar com a eloquência da vida e das palavras o caminho diferente. Condenar é fácil, perdoar com a serenidade de quem diz, com coerência à nossa doutrina, «não sabem o que fazem», pode suscitar interrogações para que a história se componha a partir dos valores perenes que a Igreja oferece. Condenar somente, pode retirar-nos as forças de propor o diferente.
2 - «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc. 23, 43).
Ao rever a vocação da Igreja diocesana para situar o estilo de vida e as opções das pessoas de especial consagração chegamos, com facilidade, à aceitação de que a Igreja não se identifica com os poderosos, os donos e senhores da história. Em termos existenciais, porém, talvez seja mais difícil manifestar predilecção, amor, carinho pelos humilhados, esquecidos, não amados, não estimados, injuriados, ridicularizados, os caluniados, desprezados, pobres, famintos, marginalizados, preteridos.
Colocados na cruz, como o Mestre, teremos de olhar noutras perspectivas e estar com todos quantos poderemos evocar na figura do ladrão ou assassino público para lhe oferecer o paraíso no hoje de cada dia e não só na promessa dum futuro longínquo ou próximo por falta das coisas indispensáveis.
Inequivocamente somos Povo congregado no Amor para transformar o mundo e dar-lhe um rosto de humanismo. Dar paraíso, é o caminho da Igreja.
3 - «Ao ver Sua mãe e junto dela, o discípulo que Ele amava, Jesus disse a Sua mãe: «mulher eis aí o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua mãe». E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa» (Jo. 19,26-27).
O Calvário era um lugar de solidão. Tinham estado muitos curiosos. Ficaram poucos que quiseram ser fiéis até ao fim. Aqui aconteceu algo a marcar o futuro da Igreja. Ela deveria ser a «mulher» que acolhia o mundo como «Filho» a quem se esmerava por proporcionar a alegria de viver. A mãe não se centraliza nas suas preocupações. Está sempre fora e preocupada e ocupada com os Filhos.
Hoje a Igreja deve revestir-se deste «rosto materno de Deus» e sair para se desdobrar em solicitações e atenções. O mundo aceitará ser Filho e acolher a graça dum amor infinito se o serviço eclesial for idêntico ao que nasce do coração das mães.. Desejar ser enaltecido, estimado, louvado, honrado, refugiar-se nas atenções ou nos aplausos não pode ser o caminho duma Igreja vocacional. Que os outros nos ultrapassem, que sejam mais considerados e estimados, louvados e honrados e que em cada um descubramos a gratificação do servir.
Se a Igreja souber ser mãe, o mundo reconhecerá a sua importância e dar-lhe-á o direito de cidadania. Já bastam de senhores da história e das cidades. Só a entrega mostrará que somos indispensáveis.
4 - «E à hora nona Jesus exclamou em alta voz: «Eloi, lama sabachtani?» que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes?» (Mc. 15, 34).
Há coisas horríveis e de difícil compreensão. Parece-me que o Silêncio de Deus, em determinados momentos, é verdadeiramente um horrível sem par. Entregar-se, individualmente e em Igreja, ao anúncio e realização do Reino, é sinónimo de encontro com o silêncio de Deus perante as perguntas lógicas e inevitáveis. Nem sempre dá para entender. É nas perguntas dramáticas do silêncio de Deus que amadurece a nossa vocação de cristãos. Só que o abandono abraçado é o preâmbulo da verdadeira alegria. Quem pretende caminhar nas certezas indestrutíveis nunca alcançará a plenitude verdadeira. Daí que o abandono não nos possa desnortear; mais, apaixona-nos tornando-nos esponjas que passam pelo mundo de situações mais enigmáticas. Concentrar-se nas suas dores ou desilusões, impede que os outros se libertem e reencontrem a alegria de viver.
Sonho e peço ao Senhor abandonado na cruz numa Igreja que, abandonada ou aplaudida, vai ao encontro dos mais abandonados tornando-se lenitivo e âncora de salvação. Fala-se de igualdade de oportunidades para todos. Um simples diagnóstico da nossa sociedade reclama um cuidado de amor para que não proliferem tantos abandonos. Jesus encaminhava-se para fechar os olhos. Se não quisermos contemplar o fim, abramos os olhos e nestes abandonados coloquemos o nosso amor preferência.
5 - «Depois, sabendo que tudo esta consumado Jesus disse: Tenho sede» (Jo. 19, 28).
A sede fisiológica experimenta-se de variadas maneiras. A do caminhante é exigência para prosseguir até atingir a meta. Cristo quis chegar ao fim. Solícita para poder continuar. Longe ou perto a meta continuava a ser a Sua obsessão. A sede de Cristo não era mero retemperar energias. Só a missão o motivava.
Torna-se fácil estar onde se encontra e concentrar-se com os dados adquiridos. A vocação da Igreja continua a ser «Eu vim para que tenham a Vida», o que acontecerá quando «Cristo for tudo em todos» e, consequentemente, a Sua oração Sacerdotal - «Pai que todos sejam um» - se realize para que o mundo creia. Fora da unidade o mundo não acreditará. Para a atingir necessitamos de ter «sede» dela, ou seja, torná-la a sede dos nossos projectos e nunca se deixar desencontrar. Ter sede é ser água viva para os outros e nunca vinagre que não retempera energias.
«Tenho sede» desta comunhão eclesial, sinal e condição da comunhão eucarística. Precisamos de fixar-nos no ideal, no porquê da existência. A Igreja tem aqui o cerne da Sua missão: homens e mulheres com sede para prosseguir até à realização do projecto de Cristo.
6 – Jesus exclamou «Tudo está consumado» (Jo. 19.30).
A alegria só se encontra depois dum percurso efectuado e nada melhor do que uma consciência tranquila por ter realizado uma missão em plenitude. Acomodar-se e render-se à lei do mais fácil pode parecer humano, dentro dum espírito mundano, mas não ser cristão. Cristão é aquele que procura nova vida plenamente humana, onde o essencial em todas as dimensões é considerado, mas sabe que a verdadeira realização está em dar-se. Receber é consequência. O dar-se nunca pode ser ocasional e esporádico. Sempre e numa linha de fidelidade torna-se o dinamismo que deixa marcas profundas.
Desde os primórdios do meu sacerdócio tenho procurado orientar-me por um pensamento. «Para Deus o quase tudo é nada». Ele consumou, entregou «tudo». O discípulo só o é quando se compromete na entrega de tudo. Há sempre uns «mas», e uns «ses» que podem condicionar. Vale o deixar-se conduzir pela responsabilidade de não regatear.
7 - «O véu do Templo rasgou-se ao meio, e Jesus exclamou, dando um grande de grito: «Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito». Dito isto, expirou» (Jo. 23, 46).
A dimensão vocacional de toda a vida e da vida toda suscita perplexidades e dúvidas. O amanhã da Igreja, nesta perspectiva, interroga e não tranquiliza. O medo acompanha e o fenómeno da crise assusta e leva ou pode levar aos sucedâneos de entrega de quem se refugia em coisas que parecem compensar mais. Procuram-se amarras na lógica do mundo e esconde-se um testemunho que não se distingue dos restantes cidadãos. Misturam-se intenções e vai-se camuflando a existência.
É chegada a hora da esperança. Sabemos a quem nos entregamos. «Nas tuas mãos entrego…» é a certeza que nunca engana e que está para além das estatísticas e das sondagens. Os analistas podem descortinar sinais de morte. Nós continuamos a ver para além das aparências e acreditamos que a humanidade voltará a reconhecer a soberania de Deus como algo que lhe é essencial. A esperança nunca engana e ajudará sempre a acordar com o encanto dos primeiros tempos. Parece que a morte venceu. Esta torna a vitória mais empolgante. Acreditamos e esperamos e, por isso, estamos na aventura de dar Cristo vivo ao mundo que, talvez sem o saber, O procura.
Em Ano Vocacional e Eucarístico a celebração da Morte do Senhor conduz-nos a percorrer as sete palavras da cruz. A Eucaristia é um concentrado dos seus conteúdos e uma força para os viver. Queremos ser sempre perdão, estaremos com os mais necessitados, aceitamos Maria como modelo e Mãe, o abandono dá alento e a sede entusiasma para progredir, tudo conservamos para esperar um mundo nascido das chagas de Cristo.
Sejamos fiéis às interpelações desta hora.
Sexta-Feira Santa 2005.
+ D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz
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