Arquidiocese de Braga -

22 outubro 2005

Beata Alexandrina, Modelo de Vida para Comunidades Eucarísticas

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D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga

\n Queremos encerrar o Ano Eucarístico na consciência de que a sua vivência abriu perspectivas de renovação. Estamos a fazê-lo na coincidência e celebração do cinquentenário da morte duma “alma eucarística”, a Beata Alexandrina M. da Costa. O facto de muitos de nós ainda a terem conhecido, torna a sua proximidade um apelo para continuarmos a questionar o nosso amor pela Eucaristia. O seu testemunho, reconhecido por personalidades de todos os quadrantes e países, responsabiliza a Arquidiocese de Braga duma maneira muito concreta. O seu legado continua e quer tornar-se programa para as nossas comunidades e membros que as compõem. Quero recordar planos assumidos de modo que ganhem consistência numa “piedade eucarística” que se visibiliza através de variados “comportamentos eucarísticos”. A prova de que valeu a pena, reside na continuidade. Pode ter custado muito planear e realizar iniciativas. Sem rastos de memória no quotidiano paroquial e arquidiocesano, despendemos energias mas não atingimos os objectivos. Sublinho alguns aspectos doutrinais: 1 – Eucaristia “acto de Cristo e da Igreja” O Concílio Vaticano II, - não esqueçamos que no dia 7 de Dezembro se completam 40 anos sobe o seu encerramento - na elaboração dos seus documentos, recuperou um princípio caro aos Padres da Igreja que, hoje, se repete com frequência e que urge extrair dele muitas consequências pessoais e pastorais. Se é verdade que é a “Eucaristia que faz a Igreja”, também tem idêntica importância o princípio a “Igreja faz a Eucaristia”. Ao referirmos que a Eucaristia faz a Igreja quero reconhecer que nela acontece o dom por excelência que o Pai, no Espírito Santo, faz do Seu Próprio Filho. Doando-se, comunica o princípio e a causa do que é e deve ser a Igreja. Cristo quis ficar na Eucaristia para estar na Igreja como Seu Sinal e Sacramento. É Ele que a realiza e a Igreja corresponde, acolhendo e contemplando para oferecer uma originalidade inconfundível. Daí que antes de qualquer outra coisa importa abrir-se ao dom e deixar-se moldar numa liberdade interior incondicional. Quando nos colocamos na intenção de revitalizar a Eucaristia, podemos deter-nos, dum modo mais ou menos exclusivo, nos pormenores ritualistas ou de formalismos. Acontece, porém, que o essencial reside neste trabalho, verdadeiramente ascético, de acolher a presença de Deus para, posteriormente, viver na presença do mesmo Deus. No Antigo Testamento a presença de Deus estava no Templo e era a este com as cerimónias escrupulosamente cumpridas que se prestava atenção. Para adorar a Deus “em espírito e verdade” (Jo. 4, 21) Cristo realizou o sacrifício definitivo “de uma vez para sempre” (Heb. 10, 10) e a partir daí colocou-nos na dignidade de ser “Templo de Deus”. 2 – Necessidade da Reconciliação: Mais do que nunca necessitamos desta atitude contemplativa que significa libertar-se de tudo para interiormente experimentar a presença de Cristo “dentro” e “entre” todos quantos participam. Importa, por isso, dar à reconciliação um lugar especial sabendo que a aliança com Deus só é possível através da superação do pecado que tem sempre a sua origem e concretização na falta de amor a Deus e aos irmãos. Se a Eucaristia é esta “presença” de Cristo que edifica a Igreja como comunhão num processo contínuo de conversão e reconciliação, ela é também sinal da Sua ausência que se detecta numa vida de quem não segue o Seu caminho e nega a fusão das pessoas impedindo a Eucaristia de ser Sacramento da unidade. A ausência de Cristo está na coragem de reconhecer contradições estruturantes na vida pessoal e social. A comunhão não é só uma questão de interioridade. Sem amor concreto, desejo de mudar, disponibilidade para levar os fardos dos outros, mutilamos a Eucaristia e não permitimos que a Sua força transforme o mundo através duma fraternidade verdadeiramente vivida. Deus não está presente quando o irmão está ausente pelas atitudes de ruptura, esquecimento, juízo, preconceito, ódio, desavenças. Com muita facilidade negamos, no quotidiano, a Eucaristia não permitindo que ela “faça” a Igreja como comunidade de congregados que “comem juntos” a ceia do Senhor. 3 – Cristãos Ausentes da Eucaristia: A ausência de Cristo também está naqueles baptizados ausentes, que não participam e querem dizer-se cristãos sem esta intimidade. Reconhecer a ausência deveria significar questionar-se e questionar a comunidade, elaborando um projecto de reconhecimento da situação com a vontade dum testemunho activo para que a ausência não aconteça. Lamentamos, com frequência, o número crescente dos cristãos que não querem saborear o dom da presença de Cristo. Que fazemos para alterar esta situação? 4 – A Igreja faz a Eucaristia: Se a Eucaristia faz a Igreja, também a Igreja faz a Eucaristia. Ela é sempre dom que é preciso trabalhar. É uma pérola que necessita de ser burilada para que o seu esplendor resplandeça e responda às interpelações pessoais. Nunca deveríamos entrar na Igreja para uma cerimónia a assistir. As coisas sublimes exigem cuidado e trabalho de harmonia com as possibilidades e responsabilidades. Urge celebrar e participar sempre na atenção de quem recebe uma Pessoa que nunca se conhece totalmente e está sempre a oferecer algo de novo. Cada momento exige de todos – sacerdotes e leigos – algo de muito peculiar que não pode permitir hábitos ou rotinas. Desde a preparação ao acto do envio só uma concentração integral no que se vive ou faz, permite tornar a Eucaristia o que ela é: festa, gáudio, paz, serenidade, sentido para a vida, conforto… Se muito caminho está percorrido, esta consciência de vibrar e exultar com a presença de Cristo, colaborando com os encargos solicitados pela comunidade ou concentrando-se na beleza dum Deus que se dá, necessita dum compromisso mais concreto. Falta este ambiente de concentração nas celebrações e, por isso, elas cansam e esgotam. Também aqui a “ausência” daqueles que estão presentes não permite consciencializar-se a realidade misteriosa que se está a viver. Acabemos com a passividade. Demos vida à concentração. Entremos no âmago do ministério. 5 – Eucaristia é Comunhão e deve fazer Comunhão: Esta presença de Cristo que faz a Igreja e a Igreja que faz a presença solicita um duplo dinamismo. Em primeiro lugar, é necessário deixar-se envolver pessoalmente na força da oferta como amor filial a Deus e generosidade persistente. A Eucaristia faz-nos penetrar intimamente na comunhão divina e impele a criar a comunhão universal com todos os homens. Receber a comunhão não é só receber Cristo dentro de si mas aceitar a comunhão com os membros de Cristo. “Porque há um só pão, assim também nós, mesmo sendo muitos, somos um único corpo”(1 Cor. 10, 17). Custa presenciar pessoas permanentemente conflituosas e encontrar comunidades divididas por questiúnculas mesquinhas. Ultrapassemos as divisões, acabemos com as cisões, demos vida à comunhão. 6 – Homenageemos a Beata Alexandrina: 6.1 - Gostaria de neste local e recordando a Beata Alexandrina como mulher alimentada pela Eucaristia, pedir ao Senhor que as nossas comunidades acordassem para este dinamismo da presença de Cristo, acolhendo-a e reconhecendo-a ausente em muitas situações da vida pessoal e da sociedade. Cristo está ausente de muitos dinamismos da sociedade portuguesa. Se os católicos forem portadores da Sua presença, podemos acreditar num mundo melhor. 6.2 – Também hoje, recordando sempre a Beata Alexandrina, quero sublinhar a fuga do pecado e a procura da reconciliação. Também esta tem de ser redescoberta como encontro com a presença de Cristo que acolhe e trata bem o pecador. Se as nossas confissões não forem meras cerimónias e se tivermos gosto em oferecer e viver o Sacramento da Reconciliação, o nível da Eucaristia atingiria outros patamares. Necessitamos da experiência do perdão com a procura do Sacramento da Reconciliação e com a disponibilidade dos sacerdotes para exercerem esta mediação carinhosa de Cristo que interpela a estar com Ele para viver com Ele e como Ele. Não há Eucaristia sem reconciliação e todos teremos de recuperar a experiência dum filho pródigo que se reencontra com o Pai. Esta é outra marca do Ano Eucarístico e outra graça da Beata Alexandrina. 6.3 – A Beata Alexandrina foi mulher de sofrimento que a Eucaristia transformava em serenidade e alegria pacífica. Peço ao Senhor o dom de celebrações retemperadoras das energias, como momentos de paz e serenidade. Parece duro viver. Estar com Jesus é sinónimo dum oásis encontrado para ultrapassar contrariedades que afligem e preocupam. O martírio místico da Beata Alexandrina ultrapassava-se na fé e no amor a Deus. Há sempre um lado belo da vida que a Eucaristia pode ajudar a descobrir. Que elas não sejam um acumular de tensões mas que em tudo resplandeça o conforto e a coragem para recomeçar sempre. 6.4 – Estamos a encerrar o Ano Eucarístico neste ambiente de cinquentenário da morte da Beata Alexandrina. Ao mesmo tempo, celebramos S. Martinho de Dume (22 de Outubro), padroeiro da Arquidiocese e que se distinguiu na nossa história como Bispo renovador através da evangelização. Sempre queria “corrigir” para tornar a vida transparência do Evangelho. Ouso pedir ao Senhor, recordando S. Martinho, que as Eucaristias sejam mais anunciadoras da boa e alegre nova do Senhor, nunca nos contentando com homilias e comentários dominados pelo azedume e pessimismo. Entremos no Evangelho e procuremos extrair da Palavra pistas de salvação através dum estudo e preparação mais consciente para mostrar a Beleza do Verbo, incarnado na fragilidade humana. Que a palavra chegue à vida e aos seus problemas reais. Com S. Martinho de Dume e pensando na nossa Casa Sacerdotal quero pedir a Beata Alexandrina que as novas comunidades amem os seus sacerdotes e que estes se deixem apaixonar pelos mistérios que celebram. Se é a Igreja que faz a Eucaristia, os sacerdotes, vivendo-o, podem e devem tornar a Eucaristia naquilo que ela é: Deus que se oferece. Para além destes pensamentos, rezemos para que a Beata Alexandrina faça nascer aquilo que falta às celebrações eucarísticas e nos conceda a graça de as tornar “centro e cume” das comunidades e dos cristãos, reflectindo e vivendo as recomendações pastorais que propomos a todas as comunidades. Que, também, sejamos capazes de viver a Eucaristia com a família e a partir das famílias para que, com o Programa Pastoral, mostremos que sem famílias autenticamente cristãs o futuro está ameaçado. Balasar, 22-10-2005. D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz