Arquidiocese de Braga -

10 novembro 2005

Um Seminário para a Família Diocesana

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D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga

\nTorna-se banal sublinhar a peculiaridade do tempo presente com as interrogações que lança e as perplexidades que suscita. Todos reconhecem as dificuldades e as cores sombrias do cenário social. É neste ambiente que somos chamados e enviados a ser arautos da esperança. Só que esta vivencia-se através do empenho de cada um e da conjugação das forças de todos. O Seminário aparece, na vida interna da diocese, como um dinamizador deste optimismo que se consolida na vida comunitária como aprendizagem duma integração no presbitério. Se o mundo pretende este arco-íris a anunciar tempos novos, importa começar, aqui e agora, para motivar e entusiasmar. Se o seminário se evidenciar pelo contributo positivo, o presbitério não fica indiferente e será, para a Igreja e para a sociedade, este sinal de confiança. Se muitos falam de crise, nós interpretamos esta palavra para reconhecer a urgência de comportamentos novos. Dizem os entendidos que a palavra crise, em chinês, se escreve com dois caracteres. Um significa risco; a outra oportunidade. Aceitemos os riscos da aventura evangélica para ser oportunidade dum mundo novo. Aceitando a vida como risco, reconhecemos que a ideia da família nos dá oportunidade para esperar, não como adiamento de soluções mas como oposta através de gestos concretos que denunciam esta mesma ideia. Como trabalharemos a família num Programa Pastoral, se o presbitério não é família? Como será família se o Seminário não o for desde já? Eis a esperança que se torna certeza: dar um contributo preciso à família diocesana que, sacramentalmente, reconhecemos e que, existencialmente, devemos construir e testemunhar. Estamos a celebrar os 40 anos do encerramento do Concílio Vaticano II. Na época foi esperança. Estará a ser repertório de documentos a recordar e a citar nas circunstâncias variadas? Podem estimular-nos algumas palavras do Papa João Paulo II extraídas do seu Testamento. “Encontrando-me nos princípios do terceiro milénio, desejo, mais uma vez, exprimir gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual juntamente com toda a Igreja – e sobretudo com todo o episcopado – me sinto devedor. Estou convencido que ainda por muito tempo as novas gerações terão de extrair as riquezas que o Concílio do séc. XX nos deixou. Como bispo que participou no acontecimento Concílio do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos os que são e serão chamados a realizá-lo. Pela minha parte agradeço ao eterno Pai que me permitiu servir esta grandíssima causa no curso de todos os anos do meu pontificado”. Por seu lado, o Papa Bento XVI, apenas eleito, falou do Concílio como “bússola para navegar no mar aberto do novo século”. Destes textos podemos tirar muitas ilações: “confio o património”, “agradecer ter servido esta grandíssima causa” e “bússola norteadora”. Eis expressões programáticas a convidar-nos a redescobrir tesouros. Sem desconsiderar os Decretos e as Declarações creio que as quatro Constituições: sobre a liturgia (Sacrosanctum Concilium, 1963), sobre a Igreja (Lúmen Gentium, 1964), sobre a revelação (Oei Verbum, 1965), sobre a Igreja e o mundo contemporâneo (Gaudium et Spes, 1965) deveriam ser relidas para uma concretização de quem reconhece que ainda há conteúdos desconhecidos e programas a realizar. Peço-vos o empenho, na responsabilidade de comunicar a todas as comunidades, no anúncio alegre da Boa Nova numa descoberta de novos métodos para que a Palavra de Deus impregne todos os nossos projectos e iniciativas; uma vida litúrgica de abertura aos dons de Deus duma maneira contemplativa, agradecida e renovadora da vida quotidiana; um compromisso na edificação duma Igreja Diocesana como comunhão e mistério onde acolhemos a Vida Trinitária para crescer na unidade entre pessoas e instituições a partir dum diálogo permanente e sincero de quem se sente corresponsável e não mero espectador; um olhar a realidade que nos circunda com o mesmo amor de Cristo aceitando a diversidade de culturas mas ousando caminhar na fidelidade à Palavra que é luz para todas as realidades humanas. Confio-vos o encargo dum protagonismo cheio de juventude para ser esperança para o mundo hodierno. Não vos deixeis prender a futilidades mas aproveitai o tempo para vos apaixonardes por tudo quanto possa interessar à Vida Diocesana. A Diocese não regateia esforços e canseiras para criar condições que facilitem a vossa formação. Sede impulsionadores deste renovamento eclesial a partir duma Eucaristia que acontece como centro da vossa vida. Pegai nas orientações pastorais elaboradas no encerramento do Ano Eucarístico. Assumi-as e fazei com que as eucaristias interpelem as famílias, tornando-as “Igrejas Domésticas” no respeito pela vida, no amor e na concórdia, na oração e meditação e na alegria de participar na renovação das comunidades e na construção dum mundo mais justo onde todas as famílias dispõem de condições dignas duma vida humana. Será que temos gente com vontade de caminhar num mundo de indiferença com a ousadia e coragem dos Profetas? O comodismo e ao facilitismo não realizam ninguém. Vale a entrega totalitária. Vamos apostar num estilo de vida que grite o Evangelho com capacidade de “incomodar”. O futuro da Igreja depende de nós. Abertura Solene das Aulas, Seminário de Santiago, 10-11-2005. D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz