Arquidiocese de Braga -
16 novembro 2006
Amar a Deus no Amor aos Seminários
Fotografia
D. Jorge Ortiga
\nAbertura Solene dos Seminários
A abertura solene dos Seminários deve ser entendida como momento adequado para penetrarmos na razão de ser da sua existência. Mais do que uma estrutura, são momentos de experiência quotidiana para uma plena realização da missão Salvadora de Cristo.
Ele veio e vem para instaurar o “Reino de Deus” e fá-lo através da mudança dos corações para que as pessoas se deixem possuir pelo Seu Espírito. Só neste acolhimento do Espírito entenderemos o Reino, como nova convivência na justiça e na solidariedade, que teremos de efectivar.
Sabemo-nos responsáveis por um mundo fraterno e solidário mas teremos de reconhecer que tudo procede de Deus. Enriquecendo-nos de Deus, estamos a enriquecer a humanidade continuando a obra de Jesus. Cristo quer inserir-se na nossa história através do esforço, pessoal e comunitário, para ultrapassar os sinais de desorientação. Só a partir d’Ele poderemos elevar a condição humana, ferida pelo pecado e particularmente maculada pelo egoísmo e interesse. Só Ele interpreta a autêntica realização da humanidade. “De facto, Deus colocou tudo debaixo dos pés de Cristo e colocou-O acima de todas as coisas, como Cabeça da Igreja, a qual é o Seu corpo, a plenitude d’Aquele que plenifica tudo em todas as coisas” (Ef. 1, 22-23).
A Igreja existe para ser solidária com a humanidade interpretando uma experiência de libertação, fazendo justiça aos pobres, consolando os aflitos, resgatando os oprimidos, lutando por uma nova ordem social, comprometendo-se no discernimento de respostas adequadas às diversas formas de pobreza material, fixando o seu olhar nos mais fracos para que ultrapassem as condições de escravidão e miséria.
Se como Igreja, nos sabemos chamados a ser “Família Solidária” com os horizontes da universalidade dos povos e dos problemas, precisamos de experimentar a mesma solidariedade num regresso comunitário à origem e causa desta nossa responsabilidade. Só quando cada um quiser regressar a Deus, habitando na Sua casa, o que significa identificar-se com os verdadeiros critérios de pertença, poderemos esperar algo de válido para a humanidade. Enviados para o mundo, a vida deve girar a partir dum centro que permanentemente nos desafia e que sabemos ter um nome: Cristo. Fora desta circularidade todo o trabalho dispersa, cansa e não responde às expectativas pessoais e do mundo.
O Seminário deve, por isso, tornar-se casa e experiência de solidariedade. Os dicionários dizem que esta consiste em algo “que liga muitas pessoas, sendo cada uma responsável pela totalidade da obrigação”. Sentir-se “ligado” não para esperar ou repartir tarefas mas para ser responsável pela totalidade da vida. O seminário sou “eu” e “eu” devo centralizar a minha vida para não me enganar nem enganar. Não será que esta definição pode e deve alterar muitos comportamentos? Partindo deste centro, conseguiremos ser Família Solidária não uma Família qualquer, mas Família imagem da Família de Deus. A meta é esta. Só com o contributo de todos e cada um estaremos a atingir estes objectivos.
O mundo tem exemplos maravilhosos. Quero recordar-vos os missionários assassinados, há semanas, em Moçambique. Aprender com eles e muitos outros a partir para que o mundo da fraternidade universal apareça. Homenageai o seu martírio com uma entrega a Deus e aos outros tornada causa que merece a entrega da vida.
Caros seminaristas, as exigências da hora actual não podem facilitar o esquema das vossas vidas. Elevai o nível da vossa entrega e começareis a sentir a beleza e a felicidade interior. Sede dignos desta hora tornando, agora e não amanhã, o Seminário uma Família Solidária para, em nome de Cristo, gastardes a vida pela solidariedade com todos, o que significa trabalhar pela justiça, igualdade, fraternidade. É esta beleza exigente que importa descobrir. Conto convosco. Agradeço a todos aqueles que aceitam o desafio e deixo a minha gratidão – e da Arquidiocese – àqueles que vos acompanham e que nem sempre recebem o que a sua doação mereceria. Novo ano, vida nova e estaremos a corresponder às expectativas de muitos. Obrigado a quem, solidariamente, quer construir seminário. “Amas-me?”. Eis a questão. Só depois é possível apascentar as ovelhas.
Seminário de Santiago, 16/11/2006
Jorge Ferreira da Costa Ortiga,
Arcebispo Primaz
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