Arquidiocese de Braga -
8 dezembro 2006
Maria, a mulher que acolheu a vida
Fotografia
D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga
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A festa da Imaculada Conceição pode transportar-nos para o tempo e o espaço, para o mundo em que Nossa Senhora viveu, muito diferente do nosso, e fixar a nossa atenção num privilégio único, irrepetível e inacessível. Na verdade, com esta Solenidade estamos a professar que Maria foi preservada do pecado original desde o momento da sua concepção.
Reconhecendo que esta é uma verdade de fé, que transcende a nossa compreensão intelectual, podemos, no entanto, iluminar a existência humana com o sentido deste mistério. A Imaculada acontece em vista do acolhimento, através dum processo de crescimento normal, da vida humana de Cristo. Jesus de Nazaré é o Filho de Deus que nos foi dado por Maria numa história única e irrepetível.
Maria acolheu o dom da vida de Jesus e rodeou este mesmo dom de toda a solicitude para o oferecer à humanidade. Nesta perspectiva, o mistério acontece todos os dias através da colaboração amorosa de homens e mulheres que se unem para a comunhão e felicidade mútua, acreditando que a sua vida se prolonga na maravilha da maternidade e paternidade. Há coisas belas e maravilhosas no quotidiano. A vida a emergir e a crescer é a beleza, por excelência, que nunca se deveria banalizar mas contemplar. É enternecedor olhar para uma mãe quando coloca nos seus braços, pela primeira vez, o fruto do seu ventre e do amor conjugal. Poderá parecer que se prende a gestos de curiosidade no querer saber como é e com quem se parece. Penso, porém, que o êxtase perante alguém que pode tocar e contemplar a coloca, quase sempre, em silêncio e na atitude de se encontrar face a uma vida irrepetível. Tudo o resto é secundário naquele encontro. Basta o contemplar um ser que nada diz em palavras mas que é expressão eloquente dum amor vivo e continuação de vidas que se uniram.
Neste horizonte, a Imaculada Conceição sublinha a maravilha da maternidade e da paternidade, recordando-nos que do “sim” de Maria dependeu uma história que a ultrapassa. Aconteceu e continuará a acontecer.
Desafiados pelo nosso Programa pastoral diocesano “Família Solidária” estamos hoje aqui no Monte do Sameiro manifestando a vontade de sermos “solidários” com a vida de todos e com toda a vida. É um compromisso de cada um que poderá ser conhecido pela evidência dos factos ou que se situará no segredo da consciência parecendo não fazer história.
Se o compromisso é de cada um individualmente, a Arquidiocese, como Igreja Particular, comprometida em todas as questões humanas, não pode ser espectadora da história, pedindo ou exigindo sem dar o seu contributo. Como sinal e testemunho de que não nos limitamos a discursos, gostaria de anunciar a intenção da criação do Centro de Atendimento à Família (C.A.F.). Estamos a delinear os seus contornos e a analisar as suas exigências. Já efectuámos o Fórum das Instituições onde assumi que pela “diferença não existe indiferença” ou pela “diferença teremos de não ser indiferentes”. Estamos do lado dos princípios e das acções e agimos sem aguardar resultados imediatos.
Nesse Centro, através duma equipa de atendimento permanente, com a preciosa colaboração de profissionais oriundos do mundo da saúde, da bioética, da assistência social, iremos proporcionar acolhimento a mulheres em situação de desespero no momento difícil de decidir sobre o futuro duma vida; apoiar famílias carenciadas com recém-nascidos; acompanhar casais em vias de ruptura conjugal, numa mediação familiar séria e serena; formar e aconselhar pais e famílias para prevenir situações de risco, como por exemplo a violência doméstica; afrontar o fenómeno da prostituição que cresce assustadoramente no nosso contexto social, num aproveitamento fácil de mulheres e jovens incautas, muitas delas oriundas de países estrangeiros.
A problemática da vida é complexa. Não se resolve com soluções fáceis e fórmulas já feitas. Há muito caminho a descobrir e a percorrer, encorajados pelo reconhecimento das razões e causas da Igreja por parte da ciência. Teremos de suscitar uma pastoral criativa com propostas dum humanismo verdadeiro e integral. Encontrar as soluções mais adequadas nem sempre é um processo simples e linear, antes exige muita reflexão e diálogo. Muitos poderão optar aceitando razões sem verdadeira fundamentação. É mais cómodo e mais comum. Só que nem sempre a verdade está naquilo que a maioria pensa ou faz. O crente sabe que, com Maria, “encontra graça diante de Deus” e que o “Senhor está connosco” e espera encontrar soluções geradoras de alegria para as crianças, que correram o risco de não nascer e para as mulheres que, tantas vezes sujeitas a pressões exteriores, rejeitaram a vida que traziam dentro de si, e que arrastam um peso que a consciência séria e bem formada não “descarrega” com facilidade. Queremos que elas, reconciliadas com a vida, libertas de uma culpa que nem sempre é sua, recomecem uma etapa nova.
Que a Imaculada Conceição nos dê coragem para estar com quem necessita duma ajuda fraterna para conviver com a alegria que a vida sempre oferece, mesmo quando exige sacrifícios.
Sameiro, 8 de Dezembro de 2006
Jorge Ferreira da Costa Ortiga,
Arcebispo Primaz
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