Arquidiocese de Braga -

14 setembro 2008

Os Santuários tomam conta da Palavra

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D. Jorge Ortiga

Homilia do Senhor Arcebispo proferida na Peregrinação ao Santuário de N.ª Senhora da Penha

\nA peregrinação aos Santuários não pode ser um mero acto isento de qualquer intenção. Peregrinamos para ouvir um apelo de Deus e manifestar a nossa disponibilidade para o acolher.
Neste sentido, este ano exultamos com a coincidência da festa litúrgica que hoje celebramos: a exaltação da Santa Cruz. Teremos de a interpretar no contexto do Ano Paulino que creio que já é Programa Pastoral das pessoas e das comunidades. Na verdade, S. Paulo fez uma experiência que terá de marcar as nossas vidas. Vivia na perseguição aos cristãos e num determinado momento deixou-se tomar pelo amor incondicionado de Deus que se tornou visível na cruz de Jesus Cristo de tal modo que este mesmo amor – feito Palavra – tomou conta dele. Contemplando o amor da cruz não quis encontrar um objecto a venerar, mas encontrou um Deus que se entregou para que a vida, no meio dos seus dramas, resplandeça em serenidade e esperança.
Hoje o mundo aterroriza-nos. São muitos os factores de cruzes que deixarão de o ser quando acolhemos Cristo nas Suas propostas de vida.
Permitam-me que convosco olhe para duas realidades muito concretas: a violência doméstica e a onda de insegurança provocada por assaltos violentos com roubos mesmo que à custa da morte de inocentes. Necessitamos duma legislação mais dura e de agentes mais disponíveis e preparados.
Só que isto pode ser uma ilusão para gastar mais dinheiro do erário público. Tudo é importante e imprescindível. Só que a exaltação, ou seja, a eliminação destas cruzes só acontecerá através da aposta numa formação verdadeiramente humana onde os valores emergem como testemunho e condenação de comportamentos errados. Necessitamos de homens e mulheres novos onde resplandeça um humanismo integral que não se envergonha da transcendência para nos aceitarmos como irmãos que reconhecem o bem ou o mal feito aos outros como bem e mal feito a si mesmo. Só esta regra de ouro que destrói individualismos exagerados e conduz ao respeito pelo alheio, ao reconhecimento do valor sagrado da vida, à procura dum trabalho com salário justo e como direito para todos e à interpretação duma solidariedade activa que cria condições de vida digna para todos.
É esta formação que deve tornar-se educação para todas as idades mas sobretudo na juventude. Ninguém pode ser fazedor de cruzes mas deve alegrar-se por corporizar um empenho que exalta ou seja liberta de tudo quanto é peso indigno. É a nossa vocação.
Este testemunho de S. Paulo que acolhe o Amor de Deus e o anuncia ao mundo será o nosso Programa, de sempre, mas particularmente deste ano. Teremos de tomar conta da Palavra para nos encontrarmos com ela. Só que isto exige atitudes bem concretas e delineadas. O tempo é pouco. Urge preparar e calendarizar na vida pessoal e comunitária. Impor-se um programa e saber que naquele dia e naquela hora tenho um trabalho igual a todos os outros mas com uma importância vital maior. Ser capaz de ler, meditar, partilhar. Pegar na Bíblia, no livro “Um Ano a caminhar com S. Paulo” que todas as famílias deveriam ter e usar. São estas coisas pequenas que poderão custar, mas que criam um humanismo que dá alegria e cria esperança no dia-a-dia da vida pessoal e social, promovendo uma sociedade mais fraterna e solidária.
Nunca a Palavra de Deus impediu a evolução da humanidade e também não é ela que nos torna retrógrados. É a sua ausência que gera este mundo de confusão e de medo no hoje e no amanhã. Não tenho receio em o afirmar: A Palavra de Deus, assumida e vivida, é a luz que dá à peregrinação humana um sentido. Os erros com que deparamos na sociedade não se devem aos valores evangélicos mas à sua ausência.
Daí que a Igreja – paróquia, movimentos, Arquidiocese – não pode renunciar à responsabilidade de acolher e anunciar a Palavra de Deus, com os aplausos ou com as críticas. Mais ainda, a única coisa válida que a Igreja tem para oferecer à sociedade de hoje é a Palavra e tudo o resto se deve orientar neste sentido. As paróquias renovam-se pela Palavra. Os Santuários cumprem a sua razão de ser se privilegiam este cuidado e trabalho. Tudo vale desde que conduza a esta finalidade.
Hoje quero recordar dois pormenores nesta eucaristia. Em primeiro lugar, o serviço dedicado e desinteressado do P.e Álvaro Nogueira como capelão deste Santuário. Deixará a responsabilidade. Permanecerá o perfume da vida sacerdotal, alimentada pela Eucaristia e pelo amor à Senhora da Penha, que o Senhor Deus saberá recompensar. Em segundo lugar, a Irmandade, que tem realizado um trabalho criterioso de revalorização deste espaço sagrado, oferece à Igreja e à sociedade um novo melhoramento dentro dum programa que ainda não terminou.
Dou graças a Deus pela vida do P.e Álvaro e pelo empenho da Irmandade e, reconhecendo toda a dedicação, continuo a pedir que coloquemos a prioridade no anúncio da Palavra. Os Santuários, na beleza a promover e no serviço litúrgico, são verdadeiros altifalantes que chegam ao coração de muitos que doutro modo nunca seriam interpelados. Já caminhamos imenso na pastoral dos Santuários. Teremos de progredir e inventar modos de maneira que se tornem verdadeiras estradas de Damasco. Aí Paulo caiu abaixo das suas convicções, abriu-se à voz do alto e parte para se encontrar plenamente com Cristo no encontro que teve com Ananias. Não foi suficiente “ver-se cercado por uma luz vinda do alto”, nem ouvir palavras maravilhosas vindas da beleza de Deus. Encontrou-se com o representante de Deus que teve tempo para o acolher e o libertar da cegueira. Três ideias programáticas para os Santuários: criar condições para que os peregrinos se vejam tocados pela palavra; disponibilizar sacerdotes para ouvir com tempo e solicitude; orientar para que regressem a casa por outro caminho.
Rezo para que o Evangelho, na beleza da natureza, se torne mais compreensível.
Retorno às cruzes e à sua exaltação. Que Maria nos conceda o dom de reconhecer a dor alheia e de a libertarmos com a nossa solicitude.

Penha, 14.09.2008
† D. Jorge Ortiga, A.P.