Arquidiocese de Braga -
14 novembro 2010
DISCURSO ABERTURA SOLENE DOS SEMINÁRIOS
Colaborador
Seminário: comunidade de discípulos
O tema da Semana dos Seminários coloca-nos diante duas grandes interpelações: ser discípulo e ser comunidade. Entre outros, elenco alguns traços característicos do discipulado.
1 – Deus razão de existir
O discípulo acolhe Deus que se doa como Amor. Tudo parte desta disponibilidade. O discípulo dá prioridade ao espiritual e para tal responde ao Amor-Primeiro através dum discernimento sério da Vontade de Deus. A Palavra de Deus é o lugar explicitador da Vontade para viver e a Oração é o condicionalismo adequado para confronto e discernimento da Vontade de Deus e força para a realizar (Oração pessoal e comunitária. Eucaristia e sacramentos (Penitência e Direcção Espiritual). Conhecer Movimentos. Exame de consciência. A aventura não é solitária. Só o “corpo” caminha).
2 – A Vida para a Missão
O Amor acolhido deve tornar-se Amor Doado. Este é o significado do Apostolado. Primeiro o testemunho silencioso e alegre; depois a Palavra com a criatividade e adopção de todas as técnicas. O Amor cria a comunidade e é esta que anuncia. Comunidade local e diocesana para estarmos na Igreja Universal. O mundo moderno necessita de ver uma unidade profunda na Igreja para presenciar a beleza da diferença e da diversidade.
Se é uma questão de Amor pelo Reino, este obriga a trabalhar a tempo inteiro. Importa, por isso, repensar a ocupação do tempo e, particularmente, dos tempos livres.
3 – O trabalhador tem direito ao indispensável
O Trabalhador da vinha tem direito ao necessário para viver. Como Apóstolos não vivemos para adquirir riquezas ou poder mas para testemunhar a generosidade e a doação imensurável do amor de Deus.
Recebendo o necessário, urge repensar o modo como lidamos com os bens económicos. Estamos situados num ambiente difícil onde dificilmente se compreenderá a posse desmedida de riquezas e luxos, o que de si e por si seria um contratestemunho. Impõe-se sobriedade no nosso estilo de vida, que sem cair no miserabilismo, deverá ter em conta a realidade que nos circunda. A administração da nossa vida entra no âmbito da consciência, quer no modo de gastar quer no modo de adquirir. A transparência exige verdade e esta dá credibilidade à Igreja e aos seus membros. A Verdade e a caridade estão intimamente relacionadas e são o meio natural para refrear uma certa duplicidade existencial que poderá estar a atingir o modo de vida de muitos seminaristas e sacerdotes.
3 – Cuidar e potenciar a Beleza
A manifestação de Deus passa pela Beleza. Isto deveria exigir maior harmonia nas Igrejas, sacristias e residências paroquiais bem como uma aposta forte no asseio e brio das celebrações (ao nível da decoração e da música litúrgica). Poderemos não ter capacidade para realizar grandes obras de arte mas não podemos estar dispensados de zelar pela beleza e pelos lugares de celebração com o pouco que dispomos. Basta um cuidado especial e os nossos espaços respirarão outra dignidade.
As alfaias litúrgicas, os livros usados, os espaços da residência, os arquivos com toda a documentação (há muita irresponsabilidade neste aspecto; os vindouros saberão julgar a nossa preguiça), a documentação de propriedade dos bens assim como da contabilidade… são pormenores que se revestem duma importância particular. É por aqui que também se educa a comunidade e se forma localmente uma memória cristã.
4 – A saúde a estimar
A saúde é sempre condição para um trabalho sereno e rentável. Cuidar dela é algo preventivo. Se esta atenção merece uma procura dos meios mais adequados, a prevenção passa por muitos hábitos, que acumulados, podem vir a ser graves.
O cuidado pela saúde reclama uma vida equilibrada onde o descanso, a alimentação e a vida espiritual reclamam um lugar privilegiado. Não basta ter um dia livre ou realizar alguns dias de férias. O desporto, o contacto com a natureza e as relações familiares e de amizades sadias também ajudarão a uma qualidade de vida com sentido.
A atenção pela saúde é pessoal. Mas, como corpo eclesial que somos, há uma responsabilidade colectiva de todos os membros pelo bem-estar do nosso próximo. Responsabilidade que poderá passar pelo aconselhamento com caridade sacerdotal, pela escuta e acolhimento, pela visita aos doentes.
A saúde, sendo um encargo de todo o presbitério, obriga a pensar na morte e esta deve tornar-se uma experiência de comunhão eclesial. É preciso uma preparação mais cuidada dos funerais, maior participação, maior recolhimento e sentido de perda dum irmão. A família do falecido deve sentir esta solidariedade. Pode parecer estranho mas é oportuno recordar a conveniência dos testamentos. Alguns escândalos poderiam ser evitados.
5 – Caminhos de Formação
A contemporaneidade não se contenta com conhecimentos adquiridos uma vez para sempre. Ninguém repete processos do passado e todos reconhecem que os novos tempos exigem respostas novas.
A formação (intelectual, pastoral, espiritual, teológica, técnica) terá de nos acompanhar sempre. Somos ou devemos ser eternamente aprendizes. Na tarefa da formação sublinha-se a urgência dos meios de comunicação social que deveremos saber usar e colocar ao serviço da evangelização.
O Discípulo opta por Deus, compromete-se no Reino, encontra só o necessário, cuida da saúde, percorre caminhos de Formação. Se cada um fizer experiências novas nestes sectores, estaremos comprometidos com um novo modo de olharmos o ministério sacerdotal.
Braga, 14 de Novembro de 2010
† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz
Partilhar