Arquidiocese de Braga -
21 dezembro 2010
ENCONTRO DE NATAL DO CLERO
Colaborador
Sacerdotes na Alegria - Meditação do Sr. D. Jorge no Encontro de Natal do Clero da Arquidiocese de Braga.
O texto proclamado da carta de S. Tiago é um apelo a vivermos consequentemente a Palavra de Deus que chama e envia o crente para a missão de evangelizar. Foi com base neste texto que estruturamos o Programa Pastoral da nossa Arquidiocese. A Palavra conhecida e rezada, meditada e celebrada, interiorizada e posta em prática torna-nos credíveis aos olhos dos nossos irmãos e dos rostos incrédulos. Viver da Palavra de Deus dá alegria e sentido ao sacerdócio na medida em que experimentamos essa alegria na Verdade do ministério presbiteral.
A imagem do espelho que Tiago utiliza é significativa e rica. Façamos o exercício de confrontarmos a nossa vida com Palavra. Coloquemo-nos em frente do espelho da Palavra. O que vemos? Quem me chama? Qual é a minha missão na Igreja? Como vivo a comunhão e a fraternidade eclesial? Diante do espelho da Palavra a “pessoa não é alguém, mas chamada por Alguém” (M. Gabriela Llansol). A Palavra não é um livro a olhar de fora, nem um jornal para lermos só os títulos a negrito. Ela é para ser saboreada de tal modo que no “estômago seja amarga e na boca seja doce como o mel” (Ap. 10,9). Essa Palavra implica-me até às entranhas pois ela deve primeiramente provocar interrogações em mim para depois poder anunciá-la com credibilidade, docilidade e autenticidade a tantos homens e mulheres inundados pela descrença na vida. Sob o manto do sagrado podemos estar a fragilizar a liberdade da consciência de muitos cristãos e a impedi-los de viverem com beleza e maturidade a proposta do Evangelho de Jesus Cristo.
Por vezes o testemunho que damos de Cristo surge ofuscado por virtuosismos pastorais ou voluntarismos que põem em causa a coesão e a comunhão eclesial no anúncio da Boa-Nova. Não é suficiente dizer que a sociedade hoje não quer nada com Deus nem com a fé. Não basta dizer que os cristãos não participam nos sacramentos nem nos momentos essenciais da comunidade. Não basta atirar as culpas para o laicismo ou para o consumismo para afirmar que o cristianismo perdeu a sua razão de existir.
Precisamos sim, todos nós, de confrontarmos a nossa vida com a Palavra originante, com a voz e o rosto da Revelação, para encetarmos mudanças eclesiais comuns e partilhadas. Testemunhar a alegria de ser padre passa fundamentalmente pelo encontro diário com Cristo na oração, na Eucaristia, na fraternidade com os irmãos das nossas comunidades e com a comunidade sacerdotal da nossa Arquidiocese. Não é por falta de propostas: todos os meses temos um encontro de recolecção, de formação e retiros trimestrais. Por aqui também passa o nosso testemunho de sermos “um só corpo e um só espírito em Cristo Jesus”.
A Palavra de Deus confronta-nos com uma questão fundamental para a unidade presbiteral: com que autoridade exigimos às pessoas que aparecem às reuniões ou participem na comunidade paroquial se não testemunhamos a alegria de ser presbitério nestes momentos em que a nossa presença é fundamental? Sei que os afazeres são muitos e que as justificações poderão ser várias mas a qualidade de vida cristã sacerdotal passa pelo encontro com os irmãos no presbitério. Só cresceremos como Igreja diocesana se cada um se deixar impregnar pela solicitude e pela verdade do seu ministério. Não somos administradores das coisas de Deus nem temos a posse de Deus! Somos sim humildes servos de Deus, escolhidos para levar a graça e o amor de Deus que infunde vida nova no coração do Homem.
Nem sempre a nossa vida testemunha a alegria de ser padre. Gastamos os nossos dias e os nossos encontros nas lamentações e perdemos a serenidade capaz de gerar compromissos e discípulos de Cristo. O mundo necessita de sacerdotes alegres dispostos a percorrer o caminho da Emaús pelo qual Jesus nos explica o sentido das Escrituras. O Santo Padre recordava na Verbum Domini que o anúncio gera “uma alegria profunda que brota do próprio coração da vida trinitária e é-nos comunicada no Filho. Trata-se da alegria como dom inefável que o mundo não pode dar mas daquela que brota da certeza de que só o Senhor Jesus tem palavras de Vida eterna (cf. Jo 6, 68) V.D. 123).
São Gregório Magno, no séc. VI, propunha palavras provocatórias, nas quais nos poderemos rever: “A língua dos pregadores pode ver-se paralisada pela sua própria maldade […] Somos arrastados muitas vezes para assuntos profanos, o que não corresponde às exigências da missão sacerdotal […] Abandonam a Deus os que nos foram confiados e calamo-nos. Vivem imersos no pecado e não estendemos a mão para os corrigir e salvar. Mas como podemos nós corrigir a vida dos outros, se descuidamos a nossa? Envolvidos nos cuidados mundanos, vamo-nos tornando tanto mais insensíveis às realidades interiores do espírito, quanto mais nos dedicamos às coisas exteriores do mundo”.
Esta exortação vai de encontro àquilo que poderá ser uma das causas do êxodo da fé e do abandono da prática dominical de muitos cristãos. Cuidar a fé exige de nós tempo para acolher, rezar, saudar, visitar, confraternizar, formar e para anunciar a cada pessoa e a cada família o nascimento quotidiano de Cristo. É nessa coerência e testemunho de partilha que eu peço o vosso contributo para o Fundo Partilhar com Esperança e a motivação de todos os cristãos para idêntica atitude. Devemos empenhar-nos para que exista em cada comunidade uma pequena estrutura que responda aos desafios sociais como compromisso a assumir neste Natal. Se vivemos e acreditamos na Palavra urge pô-la em prática como sinal de esperança para todos os homens.
A nossa alegria está em viver da Palavra. O Natal é a revelação desse tempo novo. É a incarnação do Verbo em nós para transbordarmos coerentemente, por palavras e actos, o Amor solícito da Igreja em favor do seu povo.
Braga-Auditório Vita, 21 de Dezembro de 2010,
†Jorge Ortiga, A.P.
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