Arquidiocese de Braga -
2 novembro 2012
PROMOVER A SOLIDARIEDADE
Discurso no Encontro de Promotores Sócio-culturais das comunidades Portuguesas.
Como Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade expresso a alegria em participar neste encontro e, particularmente, pela sua organização.
Devemos reconhecer, sem espírito de vanglória ou pretender qualquer compensação, que hoje existem estruturas e espaços, criados pela Igreja Católica, para acolher emigrantes e ajudar a resolver os seus problemas em todos os continentes e países. Creio não faltar a verdade, sublinhando o pioneirismo - que chamaria evangélico – da Igreja católica organizando-se onde os portugueses se encontravam. Foram muitos os portugueses e com eles cristãos motivados pela fé que deram vida às Missões Católicas ou Paróquias portuguesas.
Aí – e a partir daí – se desenvolveu um trabalho social de acolhimento, integração na sociedade, procura de habitação, trabalho, função legalizadora de situações complexas. É difícil elencar a heroicidade de muitos portugueses na ousadia, nem sempre conveniente pensada, de partir para o desconhecido e encontrar melhoria de condições de vida para os próprios. É uma história que deveria ser contada por eles.
A partir das comunidades Portuguesas a língua portuguesa manteve-se e abriram-se horizontes ensinando outras línguas, talvez os elementos essenciais, para uma convivência com a diferença. As Igrejas e os espaços adjacentes eram reconforto, resposta a interrogações e promoção dum convívio fraterno. Aí se encontrava trabalho melhorando as condições de vida e se ensinava a encontrar soluções evitando ou atenuando explorações ou recusa de mão-de-obra fácil tantas vezes aceites por necessidades imperiosas. E isto pelos sacerdotes mas também pelos leigos.
As Associações e coletividades nasceram, muitas vezes, à sombra destes espaços para uma preservação da cultura portuguesa e do sentido de festa que nos é tão caraterística. A fé congregava e congrega, motivando sinais de portugalidade a que as rádios e jornais não ficam indiferentes.
Poderia continuar o elenco de sinais que continuam a desafiar a Igreja, no tempo que corre, a intensificar a sua presença entre os emigrantes. Valem as palavras do Concílio Vaticano II, como critério orientador, escritas há 50 anos. “A justiça e a equidade exigem que a mobilidade, necessária para o progresso económico, se ordene de maneira a não tornar incerta e precária a vida dos indivíduos e das famílias… Todos, especialmente, os poderes públicos devem tratá-los como pessoas e não como simples instrumentos de produção, ajudá-los para que possam ter junto deles a respetiva família, arranjar habitação decente e favorecer a sua inserção na vida social do país ou da região que os acolhe. Todavia, na medida do possível, devem criar-se fontes de trabalho nas próprias regiões de origem”. (G. e S. 66)
A emigração continua a ser oportunidade ou pretexto de aproveitamento. Todos os promotores sócio-culturais – da Igreja ou doutra índole – não podem contentar-se com as estruturas a funcionar num dinamismo interno de resposta a quem os solicita. Exige-se um permanente contato com a realidade indo ao seu encontro e procurando melhores práticas para servir dum modo mais adequado que a emigração não seja um fator de precaridade, de incerteza para muita gente.
Neste ambiente de partilha gostaria, ainda, de sublinhar um aspeto que me parece de relevo. A Conferência Episcopal Portuguesa na reorganização dos seus serviços fez com que a Pastoral Social englobasse, também, a realidade migratória. Daí que exista uma única Comissão Episcopal chamada da Pastoral Social e Mobilidade. Com o concentrar de finalidades queremos sublinhar que o fenómeno migratório, característico dos tempos atuais, está no âmbito da Pastoral Social da Igreja, aqui em Portugal e em qualquer parte do mundo. Preocupamo-nos com aqueles que partem por qualquer razão mas sobretudo por razões económicas e sociais como o Santo Padre há poucos dias chamava a atenção para aqueles que enfrentam um “calvário para sobreviver, onde homens e mulheres aparecem mais como vítimas do que como responsáveis pela aventura da emigração”, obrigados a saírem por razões de “precaridade económica ou desordens sociais” para o risco de “viverem em condições de marginalização e exploração”, mas queremos ser Igreja que acolhe na fraternidade quem nos procura. Esta dupla atitude de acolher quem chega e receber quem partiu é um permanente desafio para as comunidades em Portugal ou no estrangeiro. É um trabalho que nunca está completamente organizado e que exige uma permanente criatividade. Nunca o poderemos esquecer.
A aliança entre a mobilidade e a responsabilidade social compromete-nos no trabalho, que parece contraditório, de defender, como referia, também, o S. Padre “o direito a não emigrar”. É um outro fator que nunca pode ser esquecido e a que este encontro, da corresponsabilidade do Secretariado de Estado das Comunidades Portuguesas e da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade, poderá dar um contributo para a reflexão aqui e para a ação no quotidiano. A partilha vai enriquecer-nos pelo trabalho realizado mas não deixará de nos interpelar ou mesmo inquietar por causa da real situação do País. Devemos ser positivos mas realistas. Sei que o contributo de cada um vai ser algo de significativo para a maneira de viver das nossas comunidades. A “história é mestra da vida”. O que existe ou fizemos deve tornar-se luz para o muito mais que teremos de efetuar.
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