Arquidiocese de Braga -
18 novembro 2012
O SACERDOTE NA FÉ E SERVIDOR DA FÉ DOS IRMÃOS
Discurso na Sessão Solene da Abertura do Ano Lectivo dos Seminários Arquidiocesanos.
Há realidades simples que explicam o que parece misterioso. O batismo é o início duma nova vida. Pressionados pelos multíplices afazeres, teremos de regressar à fonte e concretizar, para compreender, o que as comunidades primitivas chamavam de espiritualidade ou piedade batismal.
A água, versada sobre a nossa cabeça em lugares e tempos diferentes, representa sempre esta fonte de gratuidade que nos faz mergulhar na família de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo.
Aí nasce uma autêntica fraternidade que não se restringe ao círculo dos familiares e amigos que participaram na cerimónia batismal. Ultrapassa as soleiras das nossas casas e permite que entremos pela Porta, Cristo, para nos encontrarmos como verdadeiros irmãos na fé. Esta é a grande novidade do Batismo: revestir-se de Cristo para percorrer os caminhos da Vida com outros igualmente revestidos de Cristo. Entramos na Porta gratuitamente e somos edificados da mesma maneira, bastando abrir-se para acolher o que a água divina nos quer oferecer. Tremenda dignidade, grandiosa tarefa.
A mesma água fertiliza a vida de todos. Surge a maravilha surpreendente da igualdade. Ser iguais em Cristo, sem superioridades ou privilégios especiais, e daí a simplicidade da vida do reconhecer que é pelo Amor que nos distinguimos do mundo. Não um amor qualquer: amor de Jesus a Jesus. O que é feito aos outros é feito a Ele; o que é omitido, negligenciado ou negado por qualquer tipo de razão, é a Ele que é feito. Este amor pode não ser fácil. Como não o foi para Cristo. Mas é o Amor batismal da água que se perde para dar fecundidade.
Esta é a fé que nos gloriamos de professar. Outros têm, ou não, outras razões para viver. A nossa razão é esta: a fé, como dom recebido e dom doado. Perder a vida? Ganhar as ideias pessoais? Só o amor interessa. É este regresso à fonte que se impõe.
S. Francisco, depois de ter experimentado tudo, acreditou na fraternidade e convenceu papas e reis. Mais ainda, tornou-se a semente, apodrecida nos últimos anos da vida, que gerou a autêntica reforma da Igreja. Não foram as suas ideias, os seus discursos. Enganou-se quando pensou que deveriam restaurar a Igreja, reedificando a igreja de São Damião. Os espinhos da vida desapareceram com as rosas perfumadas do testemunho.
Descoberta esta fé, o mundo espera e precisa dela. Sempre e muito mais em tempo de crise. Não nego a importância das novas técnicas na pastoral. Acredito no seu valor desde que acompanhadas pela espiritualidade que serve a fé, vendo em todos vivos – sacerdotes e leigos – verdadeiros irmãos. A atitude de serviço gratuito é a única atitude de pagar o dom recebido. Se a fé nos enche verdadeiramente sabemos que o estatuto de cristão, em Cristo, é ser servo. Servo de dar a vida, servo de ajoelhar-se perante quem sofre, servo de colocar a toalha na cintura para limpar pés feridos e mãos golpeadas pelas agruras da vida, servo para acolher quem pensa diferente e, particularmente, quem não reconhece o valor da vida.
Abrindo solenemente um novo ano dos Seminários e encerrando a Semana dos Seminários, o que é o Padre de que a Igreja necessita hoje e a sociedade espera?
A semelhança da Carta a Diagoneto pode parecer igual a todos os outros. O mundo pode exigir que seja homem como todos. Isto é uma armadilha! O padre, necessariamente, deve ser diferente. Em Nazaré só reconheciam Cristo como “o Filho do Carpinteiro”. Nele havia mais que não compreenderam. Hoje, o mundo espera mais.
Na verdade, teremos de ser irmãos (iguais) na mesma fé e servos literalmente duma fé genuína, oferecida aos irmãos que a procuraram. Sem mistério não há ministério que edifique a Igreja. Sem espiritualidade profunda não há pastoral que convença. Sem fé, como total e exclusivo abandono a Deus, não seremos sacerdotes do Séc. XXI.
Para mim, neste ambiente de particular e exigente responsabilidade, só quero dizer: Senhor aumenta a minha fé e concede-me o dom de me perder para ser, só e apenas, para os padres, seminaristas, religiosos, religiosas, famílias, jovens, crentes e não crentes, servo por amor. No coração desta Arquidiocese, como Sta. Teresa, quero que a minha vocação seja o Amor.
+ Jorge Ortiga, A. P.
18 de Novembro de 2012, Seminário Conciliar de Braga.
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