Arquidiocese de Braga -

20 novembro 2012

A ARRISCADA CONFIANÇA DE DEUS NO CLERO

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Discurso de Abertura no Conselho Presbiteral Arquidiocesano.

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A arriscada confiança de Deus no clero

Reunir o Conselho Presbiteral, três dias depois do enorme sucesso inesperado do Átrio dos Gentios na nossa Arquidiocese, até parece paradoxal.

Na verdade, depois deste momento em que quisemos “dialogar a nossa fé com os gentios”, depois de termos pautado a nossa identidade católica na diferença com outros credos religiosos no evento da “Aldeia das Religiões” em Priscos e depois de já termos arrancado, a todo o gás, com o Ano da Fé, poderíamos perguntar: qual a finalidade deste conselho presbiteral?

No recente livro de Rino Fisichella, na parte em que reflecte sobre o papel do sacerdote no processo da nova-evangelização, ninguém fica indiferente à ironia que o autor usa, quando afirma que Deus é “crente” e bastante corajoso demais, para “confiar aos sacerdotes a missão de manter vivo o Seu próprio Evangelho”[1]. Aliás, Deus sabe que pode correr um grande risco ao confiar nos sacerdotes, mas dá-lhes simultaneamente tudo para que estes se dediquem a transformar a vida das pessoas a partir da fé.

                Posto isto, o grande objetivo geral do nosso quinquénio pastoral, que estamos a iniciar, afirma isso mesmo: “Redescobrir a identidade cristã e o dom da fé, para uma «autêntica e renovada conversão ao Senhor» Jesus Cristo. A motivação fundamental deste objetivo é esta: «Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida» (Bento XVI, «A Porta da Fé», 3).

                O futuro esperado para este ano está consignado na profissão da fé: “Uma adesão mais consciente e pessoal ao Evangelho de Jesus Cristo. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas Igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo» (Bento XVI, «A Porta da Fé», 8).

                Daqui quero extrair algumas palavras: “Redescobrir a identidade cristã”; “Redescobrir o dom da Fé”; “Para uma renovada conversão ao Senhor”. A motivação é: “Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida.”

                O Santo Padre faz uma denúncia duma realidade e um alerta para que não vá acontecer “o sal tornar-se insípido e a luz ficar escondida”. Para obstar, determina-nos um itinerário: Redescobrir a identidade cristã no dom da fé através da conversão. Pede, em simultâneo, que celebremos o Ano da Fé duma forma digna e fecunda. Digna no modo como cada comunidade delineia a caminhada; fecunda pelos resultados.

                Num mundo de mudança, a fé não pode atenuar-se ou acomodar-se. Importa, por isso, intensificar a reflexão da fé, para uma adesão ao Evangelho, e confessar a fé no Senhor Ressuscitado. Para isso, faremos publicamente a Profissão do Credo, mas este nunca poderá ser “uma declaração fria de verdades abstratas, mas a alegre proclamação do encontro com Deus vivo”.

Daí que o grande Programa Pastoral deva consistir neste “encontro com o Deus Vivo” e o caminho para o efetuar. Na conversão todos são postos em questão. Os sacerdotes nunca poderão anunciar um Deus Vivo sem o sorriso alegre duma vocação assumida em gratuidade e generosidade, como refere o n.º 12 da Presbyterorum Ordinis.

Os religiosos, na diversidade do seu carisma, deverão ser sinal eloquente doutro modelo de vida através da radicalidade evangélica. As comunidades paroquiais, num trabalho sério e pertinente por parte dos sacerdotes, devem diferenciar-se pela visibilidade dum Cristo Ressuscitado, consequência duma fidelidade às promessas baptismais, que acontecerá numa maior consciência da fé e responsabilidade missionária.

                No tema da atualidade da Lumen Gentium, nunca esquecendo a sua integridade doutrinal, queremos discernir caminhos e delinear apostas para uma Igreja enquanto “Povo de Deus chamado à Santidade”, onde se vivencia a comum dignidade de todos e sublinha a diversidade de tarefas e missões. Devemos louvar o Senhor pelos resultados visíveis nas comunidades. Talvez não seja inadequado reconhecer que há muito caminho a percorrer. Importa maior confiança mútua e generosidade no trabalho. Urge uma conversão das motivações, por parte de muitos, para assegurar a santidade como meta a prosseguir. O acolhimento e a reconciliação fraterna devem ser atitudes a não negligenciar. E, por isso, as recolecções mensais do clero, preparadas pela Equipa da Formação Permanente do Clero, são momentos para exercitar primariamente a reconciliação do próprio sacerdote.

                Para terminar, gostaria de resgatar uma expressão do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, proferida na conferência de abertura do Átrio dos Gentios, para que ela não cai no esquecimento: “cultivar a fé de meus pais”. Portanto, já que Deus arriscou em nos ter confiado uma missão tão peculiar, abramos o nosso coração ao Espírito para que ele nos ajude a cultivar nas pessoas a fé que recebemos de nossos pais!

 

† Jorge Ortiga, A.P.

Centro Pastoral da Arquidiocese, 20 de novembro de 2012.



[1] Cf. Rino Fisichella, A Nova-evangelização, 124.