Arquidiocese de Braga -
18 dezembro 2012
O SONHO PORTUGUÊS
Discurso na sessão solene de encerramento dos 50 anos da OCPM, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Discurso na sessão solene de encerramento dos 50 anos da OCPM
Quem escutou o programa de rádio do humorista Ricardo Araújo Pereira na passada terça-feira, 11 de Novembro, foi ironicamente levado a comprovar como, muitas vezes, por muito bem que possamos produzir, parece que as pessoas só reparam no mal que fizemos. Porém, o reconhecimento da acção humanizadora da Obra Católica Portuguesa, por parte do Estado Português, contraria essa tendência.
A factura da II Guerra Mundial proporcionou, tal como eu defino, “o sonho francês” a muitos portugueses. O sistema ditatorial, a guerra colonial e a pobreza social em Portugal fez com que muitos lusitanos agarrassem a oportunidade de partir para um país estrangeiro, nomeadamente a França, no qual poderiam arrecadar poupanças para uma vida com maior qualidade.
Com basta experiência curricular no auxílio às fragilidades humanas e portadora de uma rede institucional única no mundo, graças aos seus 2000 anos de história, a Igreja Católica soube antecipar-se e esperar a chegada de milhares de portugueses à então terra prometida. Ora, foi neste contexto que surgiu há 50 anos a Obra Católica Portuguesa das Migrações, para acolher esses emigrantes que abandonaram o aconchego do seu lar e encontravam-se agora entre o desconhecido e a concretização dos seus sonhos.
Esta disponibilidade interior de ausência da terra e, em muitos casos da família, imprimia aos emigrantes lusitanos um estatuto de vida marcada pela austeridade verdadeira, além da marginalidade a que estavam sujeitos pelos povos residentes. A hipotética pobreza e xenofobia nos emigrantes eram os desafios que a Obra Católica tinha em mãos.
Neste sentido, a Igreja não trabalhava para as medalhas de mérito público mas, porque a verdade não pode ser ocultada, soube interpretar na íntegra a parábola do Bom Samaritano. Através de sacerdotes e leigos, viu com o coração e agiu com a força da vontade. Por exemplo, nem sempre foi fácil chegar a encontrar espaços de acolhimento. Importunavam-se as autoridades civis locais, respondia-se às necessidades essenciais e criava-se um ambiente a preservar uma identidade que se expressava numa língua comum e numa cultura popular. E quando o culto também precisava de condições, a acção social gastava maioritariamente a acção e economias da Igreja.
Hoje recordamos 50 anos duma acção pastoral organizada e, sem vaidade, podemos orgulhar-nos por quanto fizemos pelo povo português no estrangeiro. Se a história consegue registar alguns pormenores muitos ficarão como sementes a provocar comportamentos ou compromissos com tudo quanto é humano.
A mudança epocal que nos toca agora viver trouxe uma transformação radical. O fenómeno migratório não ficou impermeável à alteração de contornos e de desafios. Se a Igreja soube responder através duma orgânica assistencial – de dimensão religiosa e cultural – deve aceitar esta efeméride para reequacionar a sua missão. O fenómeno pode parecer igual como um retorno a algo a que já assistimos. Tudo é diferente e há respostas que devem ser discernidas através dum discernimento colegial que envolva muitos intervenientes. Só um pensamento coletivo pode intuir soluções adequadas.
Não pretendo ser exaustivo. Só desejo partilhar algumas inquietações.
1 – Creio que, em primeiro lugar, teremos de colocar no coração das nossas comunidades uma solicitude particular por aqueles que nos procuram. Também aqui há uma responsabilidade que nos deve tornar Igreja acolhedora na tarefa dum agir solidário com minorias étnicas, reconsiderando o trabalho com os ciganos, de raças diferentes e de países diferentes a que ainda não prestamos a solicitude dum amor verdadeiro.
Particular responsabilidade devemos ter no que concerne ao acolhimento dos jovens. As Universidades são palcos inter-culturais e a Igreja deve testemunhar a sua catolicidade, conhecendo os que chegam e proporcionando, na liberdade de consciência, o ambiente familiar de que necessitam. Se existem entre nós muitos estrangeiros, os jovens estudantes ou trabalhadores, não podem ficar à porta da nossa solicitude que responde quando nos procuram. A atitude evangélica consiste em procurar, ir ao encontro, intuir carências e encontrar respostas.
2 – O mundo é, quer queiramos quer não, uma pátria lusitana, no dizer do poeta Fernando Pessoa, e isto traz responsabilidades para as comunidades de origem que devem continuar a querer conhecer os itinerários existenciais dos membros que nasceram para a mesma comunidade e para as atuais missões ou paróquias situadas no estrangeiro. Continuam a ser imperiosas. Talvez dum modo diferente que teremos de encontrar. Só que não basta reconhecer que a organização pastoral já está estruturada. Há muito feito. Muito mais falta fazer e sobretudo o modo de acompanhar os portugueses terá de ser descoberta. Se aqui em Portugal o estamos a repensar, no estrangeiro não poderá ser diferente.
3 – Também aqui já elementos novos a equacionar ultrapassando, como princípio prévio e segundo a minha convicção, o princípio de comunidades estáticas e localizadas em lugares fixos. Estas não deixam de ser importantes mas como referência com comportamentos e metodologias novas.
Copulativamente os jovens - estudantes ou trabalhadores – devem ser conhecidos para, sem sentido proselitista, experimentarem a certeza de que alguém os acompanha e caminha com eles. A título de exemplo, o movimento ecutista católica português, em parceria com outros movimentos escutistas europeus, já dispõe de um serviço de apoio a estudantes do programa Erasmus. E se outrora a língua era um problema pelo desconhecimento, o hoje pode significar encontro com culturas diferentes para se desligarem do que nos identifica. Os jovens merecem uma predileção e não podemos resignar-nos na expetativa. Eles merecem muito mais, porque eles também são embaixadores da cultura portuguesa!
Se outrora o serviço das comunidades se orientava, prevalentemente para o culto, hoje o fenómeno cultural deve ser elemento importante duma antropologia de matriz cristã. Iniciativas culturais podem congregar e motivar um enriquecimento mútuo no confronto de ideias e num harmonioso diálogo com todos.
Talvez seja ilusão sonhar com a ligação à terra natal dominada pela ideia do regresso efetivo com uma casa própria e alguma capacidade económica. Se isto pode parecer impossível, a Igreja, nas suas comunidades, deve conservar e dar consistência à alma portuguesa que, porventura, longe se mantém na meramente saudade, mas num verdadeiro amor à Pátria. Isto concretiza-se pelo possível investimento a efetuar no país, nomeadamente na promoção turística que entusiasma estrangeiros a querer redescobrir os encantos da nossa terra.
Este serviço novo deve ser realizado num modo articulado com outras entidades num respeito mútuo de respeito e tolerância. A complementaridade enriquece e ajuda a ser mais eficiente.
Para terminar, no filme “A vida é Bela” de Roberto Benini, aprendemos como a vida pode ter valor e beleza mesmo até nos limites da sobrevivência humana. Por conseguinte, foi esse o tema que a Arquidiocese de Braga adoptou para balizar o maior diálogo intelectual e cultural do país, no passado mês de Novembro: o Átrio dos Gentios.
Por tudo isto, espero que os cinquenta anos da Obra Nacional da Pastoral dos Migrantes corresponda a uma maior responsabilização da Igreja Portuguesa numa atenção renovada e consistente a este mundo, mesmo que os outros não reconheçam o bem que desencadeamos. E porquê? Porque apesar da crise, nós defendemos que a vida é sempre bela!
+ Jorge Ortiga, A.P.
Fundação Calouste Gulbenkian, 18 de Dezembro de 2012.
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