Arquidiocese de Braga -
2 janeiro 2013
DEUS É O OUTRO NOME DA PAZ
Homilia de D. Manuel Linda na solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Dia Mundial da Paz).
DEUS É O OUTRO NOME DA PAZ
“Deram-lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo antes de ter sido concebido” (Lc 2, 21)
Completa-se, hoje, a oitava do Natal. Encantamo-nos com a ternura daquela criança que, no Credo, professamos como “verdadeiro homem”. Mas agora somos convidados a reconhecê-l’O como “verdadeiro Deus”. É para aí que aponta o inciso do Evangelho agora proclamado: ao dizer-se que lhe deram o nome de Jesus, indica-se o seu ser divino. De facto, etimologicamente, Jesus quer dizer “Deus salva”. Então, ao pronunciarmos o seu Nome, implicitamente já estamos a professar que só Ele é Salvador. E que não é o homem que se pode salvar a si mesmo. Por isso Lhe pedimos, com as palavras ditas a Moisés, que nos abençoe e nos proteja ao longo do ano agora iniciado. E que nos dê a sua paz. Como quem reconhece duas coisas: que a paz continua necessária e frágil; e que, fora d’Ele, não há verdadeira paz. Fixemo-nos neste tema.
A globalização, que caracteriza a nossa época, coloca-nos perante estilos de vida, interesses e objectivos muito diferentes. Por vezes, até contraditórios. O que constitui focos de tensão latente, quando não de violência expressa. Para mais, o homem recentrou-se demasiadamente em si próprio e no material, com o consequente desejo insaciável de posse. Desejo e posse exprimem, de alguma forma, as balizas contemporâneas. Na tentativa de as atingir, a pessoa faz contínuos e doentios apelos aos seus mecanismos de auto-defesa e agressividade. E, deste modo, torna-se antagonista e adversária de tudo e de todos. Até de si mesma.
A fé cristã ensina que só se consegue sair deste estado cultural e existencialmente patológico pela abertura a Deus, base e fundamento da abertura aos outros, reconhecidos como irmãos, porque filhos do mesmo Pai comum. É nessa fraternidade e boa colaboração social que acontece o tal clima social gratificante a que chamamos paz. Por isso, as exigências da paz não se limitam à denúncia dos actos de violência: têm de propor uma nova escala de valores e um alto desenvolvimento espiritual, cultural, civil, social e até económico sem os quais a paz não se atinge. A cultura da paz torna-se, assim, um compromisso moral a favor de uma nova ordem, diferente ou até contrária à desordem actual. E que a actualidade é caracterizada pela desordem provam-nos as imensas vítimas, consequência dos mecanismos perversos das mentes sem Deus.
Vem isto a propósito da importantíssima mensagem do Papa Bento XVI para este Dia Mundial da Paz. Não se trata, apenas, de uma mensagem de circunstância. Pelo contrário, constitui um percurso, bem articulado, pelas grandes afirmações da fé cristã no confronto com a cultura de massas dominante. Recomendo vivamente a sua leitura pausada.
De entre os muitos conceitos fundamentais, retiro a ideia da necessidade de uma nova visão na qual Deus apareça como referência suprema para sairmos desta crise que, mais que económica, é de valores e de ideais consistentes. Diz-nos o Papa que a civilização actual ergueu novos ídolos. E têm nomes: chamam-se maximização do lucro, consumo ilimitado, competitividade feroz, especulação financeira, volatilidade do mercado de capitais, etc. Consequências: desprezo pela vida, concretamente pela nascente, instauração de uma cultura de morte, instabilidade familiar, deterioração das relações interpessoais, quebra dos ligames sociais, insatisfação existencial, pobreza em crescendo, etc. Sim: pobreza em crescendo e insustentável, a reclamar mais justiça social, somente possível com a tal nova escala de valores que reconheça o primado da dimensão espiritual e a obrigação do empenho de todos no bem comum. Pobreza que jamais poderemos aceitar, mas que temos de combater, a exemplo do nosso Deus, o Deus dos pobres e aflitos e que se preocupa com eles. Por isso, no seu seguimento, a Igreja está, decididamente, do lado das vítimas. E preocupa-se com elas: seja mediante a intervenção na sociedade pela proposta de uma nova ordem, seja pelo exercício concreto e escondido da caridade cristã.
Nesta linha das ideias, enquanto comunidade nacional temos de nos interrogar se é justo privar a muitos do acesso àquele mínimo de bens que o normal crescimento civilizacional já oferecia a quase todos: pão, habitação, educação, saúde, justiça legal e segurança física e social. O acesso quase geral a estes bens é que criou uma sociedade minimamente igualitária e pacífica. Se a Europa viveu em paz nas últimas décadas, deve-se a isso. Mas agora, com certos mecanismos dolorosamente fracturantes, não só se cavam profundos fossos de desigualdade como a violência latente se transforma em foco de instabilidade e agressividade. E não vale refugiarmo-nos na ideia de crise e nas condições impostas desde o exterior. Também nós, cá dentro, temos de nos questionar porque razão é que determinados sectores –a saúde e a educação, por exemplo- conseguiram evoluir satisfatoriamente, e outros, como a segurança social e os tribunais, ou não evoluíram ou regrediram para burocracias e níveis… terceiro-mundistas. É que sem a oferta social destes bens mínimos não pode haver paz. E o nosso Deus é “o Deus da Paz”, como tantas vezes é denominado na Bíblia (Miq 5, 4). O Deus que ao nascer homem e ao fazer-se irmão de todos instaura um novo modelo de família humana caracterizado pela fraternidade efectiva e solidária. Não há outro modelo para a humanidade.
Dizia no princípio que celebramos hoje a oitava do nascimento daquele Menino que, sendo verdadeiro homem, não deixa de ser verdadeiro Deus. E pensamos na Mãe que no-l’O trouxe. Liturgicamente, esta celebração denomina-se “Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus”. Começamos o ano acolhendo-nos à sua protecção materna. Como exprimia a fórmula de bênção da primeira leitura, que seja por intercessão dela que Deus nos abençoe e nos proteja. Que brilhe sobre nós a luz do seu rosto e nos seja favorável. Que nos conceda a paz. A paz enquanto dinâmica social de procura do bem comum, fruto do reconhecimento do outro como irmão, porque filho do mesmo Deus.
+ D. Manuel Linda, Bispo Auxiliar de Braga.
1 de Janeiro de 2013, Sé Catedral de Braga.
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