Arquidiocese de Braga -
9 março 2013
O HOJE DOS 500 ANOS
Discurso na sessão de abertura dos 500 anos da Misericórdia de Braga.
O hoje dos 500 anos
Início da celebração dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Braga
A abertura da celebração dos 500 anos da Santa Casa da misericórdia de Braga acontece por uma feliz coincidência, no dia em que celebramos a Festa da Cátedra de São Pedro. Poderíamos aproveitar o momento para refletir sobre o significado desta festa para a Igreja neste momento de quase “vacância” da Sé Apostólica e em momento em que agradecemos o dom do ministério petrino exercido pelo Papa Bento XVI e rezamos para que o Espírito Santo conceda à Igreja a pessoa adequada para responder aos diversos desafios para além de todas as equações onde se procura vislumbrar perfis segundo critérios pessoais ou histórias.
Gostaria, pelo contrário, de olhar para o Evangelho. Se Jesus queria saber a opinião que tinham d’Ele, também hoje esta questão é pertinente. O que se pensa e diz sobre Cristo e sobre a Igreja. A resposta, como no tempo de Jesus, pode rer dois itinerários ou origens expressas por aquilo que “vós” dizeis e o que “outros” afirmam. São dois pontos de vista diferentes. A apreciação humana e em critérios meramente especulativos ou opinativos sobre uma personagem histórica ou sobre uma instituição que procura prolongar no tempo a missão de Jesus. Ao lado desta emerge a responsabilidade dum outro ponto de vista já não meramente humano mas de Deus, da revelação do conhecimento espiritual.
Como crentes pertence-nos a responsabilidade de responder oferecendo o verdadeiro “rosto”, identidade de Cristo e da Igreja. Não precisamos de muitas palavras e nem nos devemos deter em discursos supérfluos. “Deus é amor” e a Igreja deve ser este sacramento deste Deus amor vivendo, como vocação, a obrigatoriedade única de amor num amor universal. O Santo Padre sintetiza o essencial da fé, na mensagem para a Quaresma, afirmando com uma nitidez surpreendente e maravilhosa. A fé como um “saber-se amado por Deus” e a verdade da caridade como um “saber amar a Deus e ao próximo”. Não são dois pontos para responder à pergunta. Nem, muito menos, duas realidades distintas. Ter fé em Cristo, inequivocamente, amar a Deus e amar a cada irmão ou irmã que encontramos nos circuitos da vida quotidiana.
Se esta é a visão sobrenatural proposta por Cristo há dois mil anos, tem de tornar-se o sinal identificativo da Igreja e dos cristãos nos tempos em que se procura viver como se Deus não existisse. O Santo padre, na mensagem enviada ao Átrio dos Gentios, usa uma linguagem revolucionária para muitos que não querem compreender o cristianismo e interpelante para quem se confessa crente. “Aquele que se abre a Deus não se alheia do mundo e dos homens, mas encontra irmãos: em Deus caem os nossos muros de separação, somos todos irmãos, fazemos parte uns dos outros”. Sim acreditar em Deus é responsabilizar-se pela família humana e, no humilde silêncio de quem não se procura mas aposta na gratuidade da doação da vida, tudo faz para que a vida de todos seja experiência de felicidade.
Talvez a Igreja, nunca desconsiderando a importância da caridade, tenha cometido o erro de encerrar a sua vida, quase exclusivamente, no culto. Hoje deve ter um único caminho a expressar-se no anúncio duma Boa Nova a acolher, na celebração festiva duma comunidade que louva e agradece e duma vida inteira interpretada de amar no concreto do quotidiano. Todas estas dimensões da pastoral da Igreja se orientam para criar, estimular e aperfeiçoar a comunidade como espaço onde, de verdade, se sente a existência dum só coração e duma só alma. Quando a Igreja se afirma e distingue por esta dimensão comunitária ela torna-se “sal” e “fermento” duma sociedade onde a dignidade de cada membro é a preocupação de todos, em todos os momentos e em todas as dimensões da vida.
Que deve, por isso, responder, hoje, a Igreja à pergunta: “E vós quem dizeis que Eu sou?”. Falar vale pouco. Urge mostrar que a única coisa que vale e permanece é o amor. Só este lhe dá credibilidade e relevância.
Se a situação atual reclama a coragem de conjugar a lógica do amor segundo as diferentes carências humanas, com novos nomes e novas formas, sabemo-nos peregrinos com uma longa história. Sabemos e não nos envergonhamos de o reconhecer que houve momentos contraditórios deste sinal distintivo. Mas, a verdade deve ser reconhecida, foram muitos mais os outros onde os cristãos individualmente ou associados gritaram, com as obras, que o Deus em que acreditam é Amor. As Santas Casas da Misericórdia são um capítulo desta itinerância caritativa em tantos luares e momentos.
Queremos, hoje, iniciar a celebração dos 500 anos da Santa casa da Misericórdia de Braga. Quando percorremos às páginas dos livros da história deste presença da Igreja na sociedade bracarense só descortinamos alguns pormenores e nem sempre os mais significativos. As 14 Obras de Misericórdia, no material e no espiritual, são uma enciclopédia que nem o melhor programa informático consegue reproduzir. Há elementos que não entram na base de dados, mas sabemos, muito bem, que o essencial é invisível aos homens.
Celebrar os 500 anos pode ter uma tríplice dimensão: recordar o passado, olhar o presente e delinear o futuro. Creio que a opção deve ser o presente numa atitude de gratidão pela fé de tantos que ousaram acreditar na força do amor mas de ousadia de saber colocar-se na novidade do hoje, num mundo que sofre uma mudança cultural que procura ignorar o humanismo cristão ou não o ter em consideração. O hoje de Braga exige que descortinemos, em Igreja, modos de dizer que Deus ama imensamente cada um. Esta é a prioridade das prioridades. Só que teremos de descortinar, num mais profundo conhecimento da Doutrina Evangélica e da Doutrina Social da Igreja, as linguagens e as expressões que façam esta afirmação. Pessoalmente estou convencido da necessidade de escolhermos novos caminhos perante as novas pobrezas. Poderíamos pretender o legítimo dum Estado Social e contentar-nos com iniciativas de maior ou menor dimensão paternalista ou assistencialista. Tudo é importante e não podemos fugir às exigências essenciais desde que se veja que estamos pronunciando a gramática do Amor de Deus. Gramática nunca completamente compreendida e que, por isso, não permite que nos instalemos. Cada hora oferece um apelo e uma resposta a dar. Daí que integrados neste corpo que é a Igreja teremos de ser menos medrosos e mais confiantes num Deus que amou primeiro e que ensinou o caminho da verdadeira misericórdia oferecendo-nos o Filho que deu a vida por nós.
Maria soube estar no Cenáculo e os Apóstolos e os discípulos ouviram o segredar de conselhos que alertada para o “Não têm vinho” mas proclamava “Fazei o que Ele vos disser”. Se não nos disponibilizarmos para fazer o que Ele nos diz hoje nunca seremos capazes de encontrar o “vinho” suficiente para dar festa a noivos, famílias, marginais, pobres, famintos.
O manto de Maria é muito grande. Estando dentro e debaixo dele sentiremos o caminho a percorrer no hoje da Misericórdia de Braga que quer ser presença de Cristo e da Igreja numa sociedade atribulada.
Uma das possíveis origens etimológicas da palavra Misericórdia é “Misere cuore”, colocar o coração nas misérias. As misérias humanas são múltiplas formas de indigência material e espiritual, opressão injusta, doenças físicas e psíquicas. Tudo sinais da fragilidade humana a necessitar de salvação. No início da Quaresma referi a passagem do filme “Os Miseráveis” de Victor Hugo onde um sacerdote idoso presta atenção a um “Miserável” e este, liberto da sua fraqueza, faz com que outros se envolvam nos mesmos gestos e transformassem o local onde residiam. Recordaria aqui o que o Compêndio da Doutrina Social da Igreja refere: “Os que se sentem acabrunhados pela miséria humana são objeto de um amor preferencial por parte da Igreja, que, desde o princípio, apesar das falhas de muitos dos seus membros, nunca deixou de trabalhar por alivia-los, defendê-los e libertá-los; fê-lo através de inúmeras obras de beneficência que continuaram indispensáveis, sempre e em toda a parte”.
Hoje, as misérias são menos? Não me parece e são diferentes num leque de situações que nos devem tornar atores duma caridade assumida para mostrarmos o Amor de Deus.
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