Arquidiocese de Braga -

13 março 2013

CONSELHO PASTORAL PAROQUIAL

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Carta Pastoral _ D. Jorge Ortiga

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Conselho Pastoral Paroquial

Um órgão ideal, mas não irreal

Introdução

“É ideal, mas não irreal”, proclamava Paulo VI, a 8 de Dezembro de 1965, na homilia da Eucaristia de Encerramento do Concílio Vaticano II. O Concílio considerado como sendo o maior na participação, o mais rico nas temáticas abordadas e o mais oportuno nas realidades sociais abordadas [1] .

Passados quase 50 anos do acontecimento mais importante do séc. XX para os católicos, pergunto-me se o ideal conciliar proposto já é uma realidade. Aliás, foi com esse intuito que o Papa Bento XVI, no passado dia 11 de Outubro, anunciou o Ano da Fé a iniciar no próximo ano, através do Motu Proprio Porta Fidei.

«O Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. (…) A fé, que atua pelo amor (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem», escreve no número 6.

Por isso, às portas do Jubileu Conciliar e em ano pastoral diocesano dedicado à Igreja, enquanto vinha amada e moldada pela Palavra, decidi escrever esta Carta Pastoral sobre o Conselho Pastoral Paroquial, como espaço privilegiado para revermos a nossa identidade, vivência e missão eclesial. [2]

Uma carta que inicia com a abordagem de três pontos de partida (Vaticano II, Sínodo Diocesano e o contexto social e eclesial) que fundamentam, definem e contextualizam a urgência do Conselho Pastoral Paroquial. Depois, uma reflexão sobre as funções e critérios para o bom funcionamento do mesmo.

Posto isto, segue-se uma reflexão pessoal que, como Pastor, postula que se mude a nossa forma de projetar a ação pastoral.

O desejo de comunhão eclesial, a necessária renovação paroquial e as exigências atuais

Desafios pastorais do Concílio Vaticano II

A documentação produzida no Concílio surgia na consequência das sucessivas interrogações que eram abordadas.

O primeiro documento foi sobre a liturgia (Sacrosanctum Concilium), expressando a presença de Cristo no seio humano: mediante a palavra, sacramentos, ministros e oração. A Dei Verbum afirma que este Cristo é em si mesmo revelação e revelado, o mensageiro e a mensagem. A Lumen Gentium explica a orgânica interna da Igreja, cuja missão é anunciar Cristo Ressuscitado. Esta missão visa a concretização do Reino de Deus, mediante o método dialógico que passa pelo diálogo com os outros cristãos e outras religiões (Unitatis Redintegratio, Orientalium Ecclesiarum, Nostra Aetate), pois a Igreja Católica não rejeita o que existe de verdadeiro e santo nas outras religiões. O êxito da missão depende muito dos elementos da pastoral, tratados na Gaudium et Spes: método, agentes, conteúdo, destinatários. Esta missão não é exclusiva da hierarquia, mas de todos os batizados (Apostolicam Actuositatem), de modo a chegar à solicitude de todos os homens (Ad Gentes).

A mudança do paradigma eclesial teve por base uma mudança ad intra. O Concílio apresenta a “Igreja como Mistério” e não como sociedade perfeita. Como mistério, ela funda-se no projeto de Deus e traça um caminho solidário do devir do homem e da sua evolução no decorrer do tempo. Ela é mais perfeita, quanto mais se abrir ao dom de Deus e se aproximar dos homens.

Desde logo, rompe-se com uma posição hierárquica para uma igualitária: todos têm a mesma dignidade (sacerdócio) e caminham para o mesmo fim (santidade), salvaguardando os respectivos ministérios (funções e carismas). Edifica-se assim uma Igreja à luz da Trindade, onde todos são sujeitos, participantes no Corpo de Cristo.

Um segundo aspeto a ter em conta é sobre a estrutura da Igreja: Povo de Deus, tal como a apresenta a Lumen Gentium. Uma nova dimensão focada na totalidade do Povo de Deus, sob os vínculos da unidade e comunhão, evita o pecado de se trocar a evangelização devida ao rebanho de Deus pela sobreposição da opulência e da acumulação de bens nas mãos dos ministros da graça. Por isso, esta constituição apresenta o Povo de Deus como um povo fundado numa mesma dignidade sacerdotal, cuja fonte e termo está na vida trinitária. Incarnada no mundo e comprometida com a história, a Igreja, como peregrina em ordem à edificação do Corpo de Cristo, não encontrará a sua plenitude no tempo presente, pois se o Reino já vai estando presente, a sua concretização ainda não está completa.

Com efeito, a comunhão eclesial é orgânica na diversidade e complementaridade das vocações, condições de vida, ministérios, funções e carismas do Povo de Deus. Embora haja dons e serviços diversificados, eles estão unidos pelo mesmo Espírito, e é nesta circularidade de cada membro que se edifica o Corpo de Cristo. Esta comunhão, em termos de visibilidade e proximidade, concretiza-se na comunidade paroquial, célula da Igreja local, onde cada um é apelado a ser Igreja na relação, cooperação e colaboração na vida da comunidade paroquial. Portanto, ao conceito de comunhão articula-se o conceito de corresponsabilidade efetiva e afetiva de um povo que se quer comprometido e ativo.

Assim, a comunhão mais do que uma meta a atingir, é uma realidade que se edifica diariamente. Fazer comunhão na paróquia é construir a Igreja.

Quando iniciei o ministério episcopal a 3 de Janeiro de 1988, estava intimamente persuadido de que o futuro da Arquidiocese de Braga passava por uma consciente reconversão para um modelo comunitário, suportado por uma séria espiritualidade. Mais tarde exultei quando o Papa João Paulo II traçou o futuro da Igreja como experiência de comunhão que só se alcançaria a partir duma “espiritualidade de comunhão” (Novo millenio ineunte, 43).

Na qualidade de Bispo Auxiliar, para mim foi espontâneo “lutar” pela ideia de um Sínodo Diocesano que se expressasse numa envolvência de toda a comunidade arquidiocesana na procura de novos rumos para testemunhar o Amor de Cristo, através da Igreja, como seu Sinal e Sacramento.

Abracei com otimismo e confiança a tarefa que me foi confiada de coordenar a preparação e a realização do Sínodo Diocesano Bracarense. Foram momentos de exigente trabalho em equipa e de recompensa serena em momentos que guardarei para sempre. Tudo se iniciou com uma grande Assembleia Diocesana, no Pavilhão do Parque de Exposições (Braga), convocada pelo meu predecessor, D. Eurico Dias Nogueira, num convite formulado a todos os cristãos empenhados nas comunidades ou nos movimentos.

Os cerca de 20 mil presentes foram colocados perante a simbologia duma árvore a produzir frutos nos diversos ambientes sociais e sob a presença materna de Maria, aceite em tantas invocações mas, particularmente, reconhecida como Mãe da Igreja. Com ela, o caminho tinha um percurso: gerar uma nova Igreja através das paróquias, pela presença de Cristo acolhido na Palavra, celebrada na Eucaristia e vivido na Caridade.

Esta caminhada sinodal iniciou-se a partir de três perguntas às quais era necessário responder, com ideias e compromissos novos: Que Igreja? Que Paróquia? Para que mundo?

De todos se esperava que a paróquia, na linha do Concílio Vaticano II, se tornasse: um lugar de comunhão, onde as relações se tornam pessoais e testemunham profunda unidade; um lugar de missão, na diversidade e pluralidade de funções a concretizar numa plena e real corresponsabilidade para o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo; e um lugar de abertura às comunidades e à Arquidiocese, para servir o mundo na perspetiva do Reino a edificar.

Tudo tinha subjacente duas grandes ideias. Em primeiro lugar, a vida da Arquidiocese (Igreja Particular) é resultado do que acontece ou se vive nas comunidades que a compõem. Em segundo, a renovação interior das comunidades, para uma eficiente e renovada pastoral, não se concentra num dinamismo meramente interno, mas tem de “situar-se” num mundo para o qual existe.

Deste modo, concluiu-se que era necessário essa urgente renovação paroquial. A partir daí emergiu um novo itinerário: não basta repisar atividades permanentemente repetidas, pois também importa reconhecer que há uma sociedade nova que se afasta e cresce com ritmos próprios e até agora desconhecidos. E porquê? Porque as “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje (…) são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

Novo panorama social e eclesial

O poeta Luís de Camões escrevia: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança.” Imbuídos neste processo de mudança, próprio do tempo, atualmente deparámo-nos com novas realidades sociais, políticas, económicas, culturais e religiosas no nosso contexto português (europeu), que exigem uma resposta da Igreja.

Há diversos fenómenos e mutações sociais que não nos passam despercebidos: nova identidade familiar, crise económica (pobreza, conflitos sociais, desemprego, dívidas, entre outras), envelhecimento populacional, sintomas de uma ecologia fundamentalista (risco de uma ideologia panteísta), desafios das novas tecnologias, influência dos mass media, aumento do nível académico dos jovens, novos horários e ritmos sociais, novo estilo de vida (permissividade, lúdico, egoísmo e hedonismo), identidade democrática da Europa, emergência de novas figuras do (pseudo) religioso (cartomantes, adivinhos, bruxos, astrólogos, a juntar às que existem entre nós, e que remontam já aos celtas, vigência do agnosticismo, secularização, correntes da New Age, globalização, neopaganismo (politeísmo moderno), proliferação de seitas religiosas, “importação” de mitos orientais (re-encarnação).

Tudo isto remeteu a (pouca) fé cristã para a consciência individual ou uso familiar, onde não se reconhece o papel e valor da Igreja, enquanto Instituição mediadora. A religião já não é a matriz fundamental da existência para muitos cidadãos, nem se entende tão pouco o que significa a salvação cristã. O cristianismo sente dificuldade em marcar a sua diferença na pluralidade social, correndo por isso o risco de perder a sua identidade.

Com isto, obviamente que não descuramos as coisas benéficas que a Igreja tem realizado. Mas este é apenas um sinal que ainda há um longo caminho a percorrer em prol da concretização do Reino, nunca esquecendo que a Igreja “tem em Cristo (…) um imenso património espiritual para oferecer à humanidade” (Redemptoris Missio, 38).

Resumindo, se o Concílio Vaticano II desejou a comunhão eclesial e se o Sínodo Diocesano propôs a renovação paroquial, as novas realidades mundanas exigem agora uma atualização da ação pastoral. Todos estes três elementos estão interligados. E um caminho que concretize estas três propostas passa pela edificação, recuperação ou vivificação do Conselho Pastoral Paroquial, que manterá as comunidades vivas e não adormecidas.

Um Conselho verdadeiramente Pastoral

O Conselho Pastoral Paroquial é o organismo que, em comunhão com a Igreja diocesana, procura realizar a unidade entre sacerdotes, religiosos e leigos, e assumir a responsabilidade da missão da Igreja no âmbito da comunidade paroquial.

Compete-lhe, por isso, analisar tudo quanto se refere ao trabalho pastoral, discerni-lo e tirar as conclusões existenciais, com o objetivo de promover a evangelização. Não se trata de mais uma estrutura, mas um excelente instrumento decisivo para a renovação da paróquia na fidelidade ao projeto de Deus, integrando o esforço dos leigos, diversificando todos os ministérios e carismas, suscitando equipas de trabalho e coordenando as tarefas pastorais.

No que concerne às suas caraterísticas, ele é um organismo: permanente, pois deve existir enquanto tal para promover uma pastoral sustentada na paróquia; representativo, pois representa toda a comunidade paroquial em todas as suas tarefas, movimentos, lugares e sectores sociológicos, sendo uma imagem de toda a paróquia; consultivo (c. 536 § 2), pois visa aconselhar o pároco, numa linha de colaboração, a decidir sobre as mais várias questões pastorais.

Acerca desta colaboração, considero que devemos aprofundar esta ligação entre o Pároco e o Conselho Pastoral.

Articulação entre o Pároco e o Conselho Pastoral

Canonicamente, o pároco é delegado do Bispo, “como seu pastor próprio”, por delegação dele e sob a autoridade dele, para que, em favor da paróquia que lhe foi confiada, “desempenhe o múnus de ensinar, santificar e governar” (c. 515 e c. 519). Porém, isto não significa que tenha de decidir tudo sozinho em prol da ação pastoral. Todos os fiéis devem participar nessa comum responsabilidade.

Partindo desta diversidade de carismas e ministérios do laicado, como refletíamos atrás, a renovação paroquial requer um exercício do ministério presbiteral que articule simultaneamente a responsabilidade pessoal do pároco, em íntima cooperação com o Bispo, a colaboração de leigos nos variados serviços pastorais e a participação de toda a comunidade paroquial.

Com o passar dos anos, tem-se evoluído de uma ajuda prestada aos sacerdotes a uma colaboração com eles num trabalho de comunhão eclesial. Os leigos já não assumem somente uma responsabilidade (serviço/tarefa) na pastoral, mas uma responsabilidade sobre a pastoral, através da participação no Conselho Pastoral, e no exercício do seu Batismo, a partir do qual participam da missão Cristo (sacerdócio comum).

A coordenação da pastoral paroquial em equipa, por si só, recorda que nenhum cristão, mesmo que tenha sido ordenado, é o centro de gravidade da paróquia: o ministério ordenado significa que tudo vem de Cristo; a colaboração pastoral recorda que ninguém é Cristo (nem possui todos os dons e carismas).

Ao Pároco e ao Conselho Pastoral compete-lhes discernir a ação eclesial. Eles analisam as decisões, mas é o pároco que, em virtude do seu ministério presbiteral, dá o seu aval ou garante-as com a sua autoridade, em sintonia com toda a Igreja Diocesana e Universal.

Partindo destas considerações, apresento agora oito aspectos concretos para o funcionamento dos Conselhos Pastorais.

“A santidade não tem um aspecto triste, sofredor e aflito. O santo está sempre alegre, feliz e contente, porque possui Deus e o Seu Reino”, refere o Bispo Vietnamita, Francisco Van Thuan, como síntese do Sermão da Montanha (Bem-Aventuranças). A bem-aventurança (alegria) é assim o sinal da presença do Reino de Deus.

Daí que ouso apresentar estes oito aspectos como as oito bem-aventuranças, que garantem o saudável funcionamento do Conselho Pastoral Paroquial. Sem elas não há alegria, mas tristeza, sofrimento e aflição pastoral.

Corresponsabilidade

A remodelação da paróquia deve torná-la numa paróquia “para todos e por todos”, sob o risco de se ficar nas puras ilusões pastorais sem efeitos concretos na vida da paróquia e da porção do Povo de Deus ao serviço de quem ela deve estar.

Nesta perspetiva, o Conselho não se limita a dar conselhos (c. 536 § 2: órgão consultivo) ao pároco, como se este lhe fosse totalmente exterior. Ele é parte ativa na elaboração da decisão pastoral, na medida em que a propõe, clarifica, refuta e aceita perante o pároco, ainda que seja sempre este a tomar a decisão final. Em vez de consultivo, poderia mesmo definir-se como órgão pastoral, que discerne, concretiza e implementa as orientações pastorais a serem executadas pelos vários agentes da comunidade.

Portanto, rejeitar ideologicamente o Conselho Pastoral, porque só daria conselhos, seria privar-se de um meio para animar a vida paroquial e de um espaço onde se exprime/exerce a corresponsabilidade. Logo, é um órgão obrigatório (porque necessário), não canónica, mas pastoralmente. Diria mais, sem um exercício pleno e correto da sinodalide do Conselho Pastoral Paroquial, o sensus fidei do Povo de Deus (cf. LG 12) ficariam seriamente afetado, para não dizer lesado de morte.

Assim, um primeiro aspecto para o funcionamento do Conselho está em reconhecer o seu valor e importância na edificação da Igreja aqui e agora, pois ele é um espaço onde se exprime a corresponsabilidade pastoral.

Comunhão

Se reconhecemos a importância do Conselho, uma condição natural ao seu funcionamento é a comunhão num duplo sentido da palavra.

Em primeiro lugar, a comunhão exterior com a Arquidiocese. Recordo a instituição de um dia arquidiocesano para a Abertura do Ano Pastoral, a decorrer sempre no primeiro Domingo de Outubro.

Neste dia inicia-se assim uma caminhada delineada nos órgãos colegiais da Arquidiocese, oficializada no Programa Pastoral (símbolo de comunhão eclesial) e assumida por todas as comunidades.

Além desta comunhão exterior, os elementos do Conselho devem ter diante de si a comunidade (comunhão interior) e não só o grupo ou sector pastoral. Daí que a comunidade deve ser educada para acompanhar os trabalhos e implicar-se na concretização das decisões que o pároco assumiu. Ouvindo o parecer, o pároco deve decidir e comunicar à comunidade como orientação que todos devem assumir.

Há aqui uma circularidade que nunca se pode dispensar. Se pretendemos a renovação da comunidade através duma pastoral marcada pela fidelidade à Palavra e capaz de responder aos desafios da atualidade, então ela terá que estar sempre a par do trabalho do Conselho. E isto duma maneira permanente. Não basta comunicar o que convém em determinados momentos.

Sem uma comunhão exterior e interior, o Conselho fica privado do fundamento essencial da eclesiologia do Vaticano II (comunhão).

Coordenação

Para uma boa coordenação do Conselho Pastoral requer-se um outro organismo: Conselho Permanente do Conselho Pastoral. Este deve ser constituído pelo presidente, o secretário e alguns elementos eleitos para tal, pelo Conselho Pastoral.

Trata-se de um organismo com a função de preparar a agenda das reuniões, convoca-las atempadamente, iniciar o processo de discernimento das necessidades da comunidade, tomar decisões em certas circunstâncias extraordinárias e velar pelo cumprimento das resoluções tomadas.

Para uma boa coordenação das reuniões exige-se um bom moderador. O pároco, embora seja o presidente por natureza (c. 536 § 1), não tem necessariamente de moderar a reunião do Conselho. Quem o faça, deve velar para que as reuniões decorram ordenadamente, fazer cumprir os horários estabelecidos, moderar as intervenções e fomentar um clima afetuoso e dinâmico.

Daí a importância duma agenda, devidamente preparada e enviada antecipadamente a todos os conselheiros, que deverá ser enriquecida com alguns subsídios que facilitem o diálogo e a procura do melhor caminho pastoral.

Participação

O discernimento do caminho será cada vez melhor quanto mais os membros participarem nas reuniões do Conselho. Uma participação que se traduz em assiduidade, pontualidade, espírito de corresponsabilidade, respeito pela opinião diferente e boa capacidade de comunicação espiritual.

As estruturas existem, lugares de participação não faltam, mas pode faltar esta capacidade de comunicar, de ouvir e de interpelar. Por isso, enquanto representante de uma categoria de pessoas (da comunidade), eleito ou nomeado, um conselheiro deverá ser um canal de comunicação, bom recetor e bom emissor, capaz de falar, escutar e interpelar. Só assim poderá expressar na totalidade o parecer do grupo que representa em benefício de toda a comunidade.

Nesta perspetiva, urge muitas vezes retificar atitudes. Não se vai para defender esta opinião ou o interesse dum grupo. Participa-se para chegar ao “pareceu-nos a nós e ao Espírito” (Act 15,28). Isto supõe uma atitude de abertura ao que o outro diz e de desprendimento das ideias pessoais. Não há medo de partilhar e de colocar em comum. O Espírito é que diferencia de tantas outras reuniões.

Formação

A Pastoral no passado consistia num repetir de tradições, de modo que tudo estava decidido. Excluía-se, por isso, as reuniões do Conselho, como espaço de oração, reflexão e novidade.

Hoje, a tradição continua a ser importante mas as exigências lançam desafios permanentes. Também não interessa a simples novidade ou a vontade de fazer o que os outros fazem. Cada comunidade é detentora duma originalidade única e os problemas podem parecer únicos, mas são totalmente diferentes.

Urge, por isso, a formação (preparação) que deve ter duas dimensões: remota e próxima. Como remota refiro-me à doutrina da Igreja que, assumindo a tarefa de conselheiro, devo procurar estudar na leitura pessoal ou na participação em cursos que me enriquecem para poder enriquecer. Não se trata de manifestar o que me parece melhor ou mais bonito. A Igreja com o seu património doutrinal deve manifestar a sua unidade em todos os lugares. Daí que nada possa ser decidido contra o pensar da Igreja Universal ou das decisões do Bispo. A comunhão também passa por esta unidade doutrinal e existencial tão importante nos tempos que correm.

Se este ambiente de formação permanente deve acompanhar o Conselheiro, a preparação próxima deve exigir alguma concentração e oração pessoal e, se for o caso de representar algum grupo, comunitária. Nunca se deve ir para uma reunião do Conselho Pastoral sem a preparação adequada e oportuna. Os improvisos também acontecem, mas só são enriquecedores quando tiveram uma preparação.

Hoje há medo de pensar e opera-se uma pastoral do momentâneo, apenas orientadora para suscitar gosto passageiro nas pessoas ou para pura exaltação presbiteral. Há coisas que são muito bonitas, contudo não deixam ficar nada. Sem profundidade, as orientações tornam-se fugazes e efémeras.

Avaliação

Um modo de averiguar se aquilo que se programa não se torna fugaz e passageiro é através da avaliação. Se é importante programar, é crucial avaliar. Já S. Paulo assim o referia: “Avaliai tudo, guardai o que é bom.” (1 Ts 5,12). Com isto, entramos na complexidade das compreensões do método pastoral. Vejamos agora a sua evolução desde o Concílio Vaticano II.

Até ao Vaticano II a pastoral era vista como um mera aplicação à prática dos princípios doutrinais e dogmáticos. Estávamos numa compreensão dedutivista da pastoral. Após o Concílio, e até com alguns exageros, optou-se pela compreensão inversa, a indutivista, onde a partir dos dados empíricos da realidade se via o que era preciso mudar para libertar a comunidade daquilo que a oprimia.

Com o serenar dos tempos pós-conciliares, percebeu-se melhor aquilo que a Gaudium et Spes, lida em paralelo com a Lumen Gentium, tem para nos ensinar: compreender as realidades do mundo, os “sinais dos tempos”, não com o olhar meramente humano, mas com o olhar do Espírito.

O grande critério para compreender e estar no mundo é a Encarnação de Jesus Cristo: é para Ele que tudo deve encaminhar e é a Ele que a ação da Igreja deve deixar mostrar. É a chamada correlação entre os dados da fé, que precede todo o processo, e os dados empíricos, procurando na fidelidade ao Espírito discernir aquilo que é melhor, mais verdadeiro e mais assertivo, para concretizar no aqui e agora da Comunidade que se quer cristã, ou seja, expressão de fé e lugar de encontro com Jesus e, por Ele, com a Trindade.

É verdade que nem sempre temos a coragem de efetuar uma avaliação daquilo que se programa ou realiza. Ou se o fazemos, ficámo-nos por meras considerações subjetivas, sem avaliar realmente o que se fez, socorrendo-nos para isso de indicadores de avaliação. O Conselho Pastoral deve ser instância de avaliação permanente para retificar comportamentos ou para reconhecer que o trabalho de todos se tornou verdadeiro dinamismo paroquial. Avaliar não é sinónimo de fixar-se no negativo. Há aspectos e pormenores que devem ser reconhecidos como verdadeira experiência desta comunhão corresponsável.

Pode até acontecer que seja oportuno partilhar as experiências de como se conseguiu ultrapassar um diferendo ou de como se cresceu em comunidade. As outras comunidades paroquiais necessitam de exemplos e todos crescemos com a comunicação daquilo que o Espírito realiza por nosso intermédio.

Nada perturba quem age por amor e coloca os interesses do Reino acima de questões ou interesses pessoais.

Oração

Uma das formas de sentir a presença do Espírito é mediante a oração. Logo, nas reuniões é crucial haver um momento de oração comunitária, preparado e não improvisado.

Isso implica iniciar e terminar os trabalhos por uma meditação orante da Palavra e, ao mesmo tempo, colocar esta intenção na oração pessoal e na comunitária, nomeadamente como intenção na Oração dos Fiéis. “Quanto mais nos soubermos colocar à disposição da Palavra divina, tanto mais poderemos constatar como o mistério do Pentecostes se está a realizar ainda hoje na Igreja de Deus” (Verbum Domini, 123).

Se quisermos ser evangelizadores, temos primeiro de ser ouvintes da Palavra no nosso coração, no silêncio da oração. Mas o momento de oração não se reduz só a isto.

Os assuntos também devem ser rezados. Sem oração só haverá um trabalho humano que, muitas vezes, poderia ser resolvido mais rapidamente pelas capacidades intelectuais e conhecimentos pastorais de alguém. O Espírito sopra onde quer e importa criar o ambiente para que Ele se manifeste.

Redação

Houve um tempo em que havia uma preocupação em deixar aos vindouros o quotidiano das paróquias. Graças a isso, conseguimos saber muita coisa da vida e das dificuldades dos nossos antepassados. Hoje, e num tempo de tanta facilidade em arquivar, vamos perdendo a preocupação por legar a nossa história de vida. E sem memória, a identidade esvai-se.

Daí a necessidade de Atas pormenorizadas, com o arquivo de documentos importantes, que consigam atestar a vida da comunidade que não teve medo dos desafios mas que acreditou na força do Espírito e nesta foi delineando uma estratégia dum percurso de fidelidade a Deus e aos homens, mesmo os aspectos negativos são sugestivos.

Em tudo está a mão de Deus que nos acompanha no meio de alegrias e de tempestades. A vida tem um pouco de tudo e a história de Deus constrói-se com este trabalho de fidelidade e de infidelidades. Tudo concorre para o crescimento da comunidade e só a preservação dos documentos passará aos outros o que fomos vivenciando com entusiasmos ou desânimos, com testemunhos de unidade ou sinais de divisão.

Por esta razão, este é um conselho que se impõe, não por determinação canónica, mas em virtude de uma necessidade verdadeiramente pastoral, para uma desejada renovação da pastoral paroquial face às novas realidades sociais e eclesiais, e por fidelidade à doutrina do Magistério.

Conclusão

Em jeito de conclusão, um pároco não pode determinar sozinho a pastoral da paróquia pela simples razão de que não pode fazê-lo. Ele é o pároco, mas só o pároco, não a comunidade. Por outras palavras, ou aceita a colaboração do Conselho Pastoral, e a paróquia desenvolve-se na missão de concretizar hic et nunc o Reino de Deus, ou então, sem tempo nem energias, decide fazer tudo sozinho, e a paróquia estagna.

«A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou» (Porta Fidei, 6).

É imperioso, porém, reconhecer que os Conselhos Pastorais Paroquiais estão constantemente ameaçados pela necessidade de organizar atividades e fazer com que a comunidade paroquial se manifeste através daquilo que realiza. Há uma viragem a efetuar e uma ideia de força a ter presente: os Conselhos existem em função da comunidade.

Não há cristãos sem comunidade e esta não existe sem cristãos. E esquecer a paróquia como comunidade de fé, esperança e caridade, levará a que predomine o caracter de empresa (que realiza) ou associação, igual a tantas outras com maior ou menor credibilidade. Servindo-nos da parábola (Mt 7,15-19), um bom Conselho Pastoral avalia-se pelos frutos.

Para terminar, trago no coração aquele momento do encerramento do Sínodo Diocesano Bracarense, na Sé Catedral, com a entrega dum pequeno saco cheio de sementes de trigo. Era o desejo de uma nova diocese a germinar na renovação paroquial. Como a frutificar? Eis a tarefa e o desafio que o Conselho Pastoral Paroquial nunca pode perder de vista. Porque apesar de ideal, não é um órgão irreal.

Que Maria, aurora da nova evangelização, nos conceda o dom dum trabalho pastoral e de alegre partilha para que os Conselhos Pastorais Paroquiais funcionem em todas as paróquias, como experiência de comunhão e testemunho da Verdade.

Nos conceda o dom da capacidade de aceitar os desafios emergentes da sociedade, discernindo-os em caminhos pastorais que respondam adequadamente aos anseios do Homem hodierno.

E nos conceda o dom para escutar o que o Espírito diz às nossas comunidades, de modo a que se tornem espelho visível de fé, esperança e caridade.

+ Jorge Ortiga, A. P.

Solenidade da Imaculada Conceição,

8 de Dezembro de 2011.



[1] cf. Paulo VI, Carta Apostólica In Spiritu Sancto.

[2] cf. Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga (2011-12), 1.