Arquidiocese de Braga -
4 maio 2013
ENCONTRO E COMBATE
Discurso na Tomada de Posse do Conselho Central de Braga da Sociedade de S. Vicente de Paulo.
Encontro e combate
Tomada de posse do Conselho Central de Braga da Sociedade de S. Vicente de Paulo
Há dias, li num livro duma economista que descrevia o modo como entrou nesse complexo mundo. Dizia: “Este livro é a história de um encontro e de um combate” (Elena Lasida, O Sentido do outro). Eu quero aplicar esta história ao que chamarei nova identidade da Sociedade de S. Vicente de Paulo (Conferências Vicentinas), para que, na mudança duma nova Direção, não continuemos na rotina dos mesmos esquemas e trabalhos. O novo desafia-vos. A sociedade hodierna, que muitos apelidam de moderna, estruturou-se em critérios de procura duma felicidade pessoal, interpretada em respostas materiais de bem-estar confundindo-a com o consumo do que agrada ou dá prazer e estimulada pelo império da moda marcada pela publicidade. O resultado está à vista. Como diz Bento XVI somos vizinhos (dos que efectivamente o são mas de quem vive nos lugares mais díspares e distantes) mas também não experimentamos a proximidade.
Neste mundo, e nunca poderemos sair dele, a Igreja tem ou deve ter em estilo novo e empenha-se para que ele se estenda a outros procurando marcar a sociedade. É o seu contributo. As duas alavras da história – encontro e combate – ajudam-nos a reflectir.
Este estilo está delineado pelas exigências dum encontro, em primeiro lugar, com Cristo para um encontro com todos, sem escolher rostos, mas manifestando predilecção pelos mais desfigurados, onde muitas vezes são poucos os traços de humano pelas carências que enfrentam. É na lógica deste encontro que as Conferências terão de situar-se.
Em primeiro lugar, não dar por descontado o encontro com Cristo. Este é a condicionante de tudo o resto. Urge cultivá-lo individualmente e nos diversos grupos. Só aqui está a força e a certeza, e nenhuma emergência social nos pode dispensar dele. Nunca poderemos ser meros voluntários duma agência filantrópica ou, como diz o Papa Francisco, duma ONG. Temos uma fonte que marcará a diferença: Jesus Cristo.
Este encontro com Cristo concretiza-se no encontro com a humanidade. Nunca poderemos correr apressados e passar ao lado da vida das pessoas. Hoje, há rostos de pessoas com histórias passadas de sucesso que escondem lágrimas e disfarçam muitos problemas. O encontro do cristão é universal e daí que importa ultrapassar a caracterização habitual da pobreza e descobrir, numa atenção pessoal e comunitária, as novas formas de pobreza. Se existir o primeiro encontro com Cristo, o Espírito Santo indicará o caminho a seguir para encontrar estes rostos sofredores. Acreditai que aqui há muitas surpresas o que obriga a não ter esquemas feitos mas renovar-se permanentemente na fidelidade ao carisma de Frederico Ozanan que deve ser reinterpretado sem ser traído.
Penso que esta atitude de procura de “encontrar os outros” dá às Conferências a novidade e a juventude que alguns pensam terem perdido. Ainda há muita gente disponível para esta aventura. E isto é outra dimensão deste encontro. Entusiasmai outras pessoas para este serviço. Não tenhais medo de renovar as Conferências com rostos novos. Ide ao encontro pessoal e dedicai tempo a motivar, a interpelar. Saí das vossas sedes e dos trajectos habituais de ir ao encontro dos mesmos necessitados mais do que conhecidos e encontrai-vos com outros pobres das novas periferias, como fala o Papa Francisco, mas também de amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos e chamai para esta caminhada com os mais abandonados da sociedade.
Ao lado do encontro está o combate. E hoje é necessário combater. Creio que o combate tem uma tríplice dimensão.
Em primeiro lugar, é necessário nas comunidades criar uma nova cultura de solidariedade e caridade verdadeiramente cristã. Trata-se de colocar no coração das comunidades a alegria do dom e a lógica da gratuidade. Isto é tarefa dos sacerdotes a assumir corresponsavelmente pelos leigos e, neste sector, vós devereis estar na primeira fila criando iniciativas que eduquem para esta cultura e propondo momentos de reflexão para que toda a comunidade se sinta imbuída desta sensibilidade. E, acreditai, nas nossas comunidades isto é um verdadeiro combate.
Depois, o combate, e como é exigente esta dimensão, centraliza-se nas respostas às carências de tudo quanto é minimamente exigido para uma vida digna de todos os membros da vossa comunidade. Trabalhai com ousadia e fé. Se é necessário um trabalho em rede não vos deixeis confundir ou perder o vosso perfil de movimento da Igreja.
O combate pode exigir uma denúncia de certas situações. Trabalhamos em Igreja, integramo-nos na sociedade mas há responsabilidades que nos transcendem e importa dar voz a quem não a tem. Hoje, numa Igreja do Concílio Vat. II, não podemos esperar ou exigir que sejam os Bispos ou os padres a falar. Somos pelas obras mas a palavra, sempre na verdade e caridade, não a podemos dispensar.
Por último, o combate deve partir para outro campo de guerra: a questão das causas das situações da pobreza. É uma questão velha mas muitas vezes esquecida. O exercício da caridade deve ser pensado, reflectido, para responsavelmente chegar às causas a eliminar por aqueles que estão em situação de pobreza ou pelas entidades oficiais que não podem fugir às suas responsabilidades.
Pareceu-me útil deixar-vos estas duas palavras: encontro e combate. Disse alguma coisa. Vós sabereis construir uma história com outras perspectivas para que a vida de todos seja verdadeiramente humana.
Jorge Ortiga, A.P.
Paróquia de Nogueira, 4 de Maio de 2013
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