Arquidiocese de Braga -
25 maio 2013
A ALEGRIA DA FÉ
Reflexão no Conselho Arquidiocesano de Pastoral.
A Alegria da Fé
Conselho Arquidiocesano de Pastoral
O Papa Francisco, no meio de tantas palavras verdadeiramente pragmáticas para a renovação da Igreja, pedia às comunidades e aos cristãos para “viver a doce e reconfortante alegria de evangelizar.”
O Conselho Arquidiocesano de Pastoral é um instrumento, ao serviço do Bispo, para pensar e encontrar caminhos de renovação da Igreja. São muitos os problemas e as dificuldades a equacionar. Importa não fugir ao essencial e ao modo como o encaramos.
Essencial, ontem e hoje, é mostrar ao mundo que somos portadores duma Boa Notícia no “ágora” de tantos discursos. Fundamental e distintivo, é que não estamos no mero reino dos discursos. A Boa Nova só pode ser uma pessoa diferente: Jesus Cristo.
Se o conteúdo é marcante, o modo condiciona. Nunca é uma simples tarefa. Implica a vida e o que está a faltar-nos é viver. Não precisamos de mais iniciativas. Como colocar vida naquilo que se faz? O mero funcionalismo amarfanha a vida. Falta-nos vida e isto deve questionar-nos. Terei razão?
Viver a pastoral é vivenciar uma alegria que é simultaneamente doce, como expressão de algo que nos plenifica interiormente e verdadeiramente reconfortante, como alento e força em todas as ultrapassagens que a vida obriga a fazer. Se falta colocar vida no que se faz – vida e a vida toda - a alegria é marca de qualidade que garante aquilo que nos cativou. A fé deve, por isso, tornar-se alegre e gerar pessoas alegres que oferecem alegria. Muitas vezes tudo é apresentado como uma sobrecarga de peso impeditivo de caminhar na fidelidade.
Professar a fé é sinónimo de testemunhar a alegria de viver e celebrar a fé - e esta é a dimensão que nos ocupará – só é autêntica quando expressa, provoca, proporciona expressões de festa e encanto.
Não podemos perder esta caraterística dum povo alegre e nem sequer a crise oferece razões para rostos sombrios. Daí que a celebração da fé deve ser retemperadora, tranquilizante e feliz. Isto não significa alhear-se dos complicados problemas da vida. Antes pelo contrário, o crente que celebra a fé deve estar comprometido e empenhado em encontrar as causas desta situação, e não ter medo de apontar o dedo para mostrar que continuamos a percorrer, a nível civil, caminhos que só proporcionam felicidade a alguns. A classe política não pode restringir a sua ação aos seus interesses e não podemos concordar com tudo quanto possa retirar a alegria de viver. Ainda não nos apercebemos de tanta angústia existencial? Será legítimo ir retirando a alegria de viver? Não descortinaremos as causas? Serão só os políticos – nacionais e locais – a retirar ou diminuir esta vontade de sorrir?
Penso que temos – como Igreja - uma tarefa a que não podemos fugir. Incutir esperança e fazer com que a celebração da fé se torne ambiente retemperador e reconfortante para, permanentemente, reencontrar um sentido de inovação, de nova coragem, para acreditar nas nossas capacidades, de caridade operosa que oferece dignidade.
Preparamos, corresponsavelmente, o Programa Pastoral para o próximo ano. Continuamos a “abrir-nos às surpresas” de Deus, mas temos entre mãos a responsabilidade de oferecer à Arquidiocese um Programa capaz de unir paróquias, movimentos, sacerdotes e leigos.
O tema está escolhido: A Fé celebrada. Muitas ideias nos irão motivar. Quero acolher, com toda a consciência, quanto o Conselho pensa. Gostaria, porém, de sublinhar um aspeto, dando expressão a quanto acabei de referir. Há sempre o risco de persistirmos numa fé celebrada dentro das Igrejas. A celebração deve situar-se em todos os ambientes. O Papa Francisco, no Dia do Pentecostes, afirmava: “Temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta para nos abrir aos seus horizontes”. Nesta perspetiva, a novidade deve acompanhar-nos.
Não gostaria, de maneira nenhuma, que este programa pastoral nos fechasse nas Igrejas. Teremos de nos interrogar, serenamente e com confiança, sobre a diminuição do número daqueles que frequentam as nossas igrejas. A qualidade de todas as celebrações não pode ser dada por descontada.
Há um pormenor que, no hoje da história, deve emergir com toda a eloquência. Não desconsiderando o ritualismo, sabemos que a vida toda de quem participa e todos os membros residentes nos espaços geográficos da Arquidiocese e do mundo integra, numa nova exigência, a celebração da fé. Nunca poderemos aceitar dualismos como se tratasse de dois mundos distintos: dentro das Igrejas e o quotidiano da humanidade. Se nos congregamos nas igrejas é para encontrar alento novo para uma história humana que está nas nossas mãos. Celebrar a fé é celebrar a vida!
Evidencio, a título de exemplo, quatro dimensões:
- A vida ameaçada em tantos nossos irmãos que começam a entrar em pânico pelo amanhã.
- A vida a exigir respostas como contributo da Igreja à sociedade, em termos de gratuidade e fraternidade.
- A vida que se ousa denunciar dando voz aos que não a têm e apresentando situações que escandalizam pelo crescimento da desigualdade e o crescimento de situações de miséria.
- A fé celebrada deve chegar aos meandros da mesma vida.
Reconhecemos a existência de grupos organizados que criam uma mentalidade indiferente ou hostil à Igreja. Não basta, tardiamente, reconhecer os efeitos maléficos. Somos portadores dum tesouro que é “sal” e “fermento”.
Outros aspetos poderiam e, com a vossa ajuda e a caminhada das comunidades, ser enunciados. Só quis recordar que a celebração deve ser compromisso com a vida toda e a vida de todos.
Para terminar, quero ouvir o que o Conselho pensa sobre um assunto. São muitas as pessoas que gratuitamente dão tempo e qualidades para que as paróquias e a Arquidiocese sejam autênticas comunidades de fé. Não seria de juntar as pessoas que “trabalham,” em qualquer serviço eclesial para lhe testemunharmos a nossa gratidão? Não será uma atribuição de prémios ou qualquer galardão. Tudo é voluntário e gratuito. Vinte e cinco ou cinquenta anos podem ser recordados e agradecidos no Dia da Arquidiocese, ou seja, no primeiro domingo de Outubro, em cerimónia a organizar como acto público de reconhecimento. Que pensa o Conselho? Deixo a pergunta em aberto.
Que o Espírito nos ilumine, aqui e depois, para que a Arquidiocese caminhe à sua luz e que o nosso trabalho, em Conselho Pastoral, nos permita encontrar um verdadeiro Programa Pastoral para que as Comunidades, como espaço de celebração da fé, se tornem geradores de alegria.
† Jorge Ortiga, A.P.
Centro Pastoral da Arquidiocese de Braga, 25 de Maio de 2013.
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