Arquidiocese de Braga -

28 maio 2013

A ARTE DE CUIDAR

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Discurso no XXV Encontro Nacional da Pastoral da Saúde.

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A ARTE DE CUIDAR -  Experiência da Nova Evangelização

XXV Encontro Nacional da Pastoral da Saúde

Nos tempos que correm é dificil fazer as coisas de uma forma despreocupada e sem algum stresse, porque as pessoas convenceram-se que a sociedade vai de mal a pior: instalou-se uma forma doentia de pensar e reparámos que as pessoas estão mais obstinadas no panorama social que enfrentam do que na memória esperançosa que os faz ser na história e fazer história. Quero dizer que se vai instalando alguma depressão global que corrói o que se pode fazer, escutando vozes de desastre que todos os dias escutamos.

É de séria conveniência celebrar todos os dias que passam como dias da Fé, como força animadora de todos e partir sempre na aventura, largar as redes e lançá-las ao mar fustigado, pois temos a certeza de que Alguém está  a nosso fovor.

Esta força que não se vê, mas que se sente, é uma chama constante que anima e encoraja a todos, pois vem da alto e desafia sempre, sobretudo quando o mar parece estar mais bravo. É o caso que nos ocupará durante estes dias de Encontro Nacional. Encontramo-nos no Ano da Fé e queremos viver este Encontro, aprofundando este dom de Deus em nós.

Gostaria de fornecer algumas razões para acreditar na esperança, nestas poucas e breves palavras que vos dirijo na Abertura do Encontro.

1. Consciência de corresponsabilidade

Sabemos que hoje somos poucos para fazer o ingente trabalho que de todos os lados nos solicitam; já houve tempos em que tudo era mais apoiado e solicitado por parte de quem por nós responde. Hoje não estamos sós, desde que compreendamos que trabalhamos uns com os outros para uma tarefa que nos ultrapassa. A nossa esperança e o motivo da nossa força estão nos céus donde nos vem o ímpeto e a coragem de enxergar no mais pobre o rosto divino de Cristo. Ser corresponsáveis é ter no peito o colega que nos ajuda a trabalhar para que o mundo seja mais solidário e para que os mais pobres e doentes se possam  sentir em sua casa, quando estão junto de um cristão. Então, o Ano da fé é uma realidade ativa e que dá fruto. Trata-se de uma atividade de todos na corresponsabilidade humana e eclesial.

De facto, seria impensável uma sociedade como a nossa, sem a solidariedade corresponsável de tantos que labutam em tantas instituições, que tornam viva a vida dos mais desamparados.

Para o cristão, não estão em primeiro lugar os que vivem na opulência, mas aqueles que nada possuem ou que de nada dispõem, que são mui dependentes. Criamos ou procuramos criar entre nós uma rede vital onde o mais indingente, o doente seja o nosso alvo mais querido. Isto constitui a meta para o bispo, para o dirigente, para o voluntário e para o assalariado com funções de intervenção junto das pessoas em situações mais penosas ou junto dos doentes. Não relegamos para o outro a responsabilidade de ser “próximo”, mas damos do nosso ser, fazendo circular o que também nos foi dado, de ordem material ou espiritual. Nem precisamos de lembrar o modelo do “bom samaritano” (Lc 10) que é o nosso grande modelo.

2. Modelo de Agir

Teremos de atuar como ele, cuidar como ele, pondo em relevo uma ação diária concertada em favor dos caídos à beira do caminho e abandonados, que hoje são muitos. Dispensamos todo o nosso cuidado mas, em simultâneo, acreditamos que mais lhe será confiado por QUEM nos sustenta e apoia sempre nesta missão. ~

Por Ele, vivemos de forma “próxima” com todos, sem discriminação de cor, de riqueza ou cultura, estando sensíveis a quanto ainda possa ser feito: “aproximamo-nos”, “ligamos as feridas, ungimos com azeite e vinho”, “ajudamos a subir para a nossa montada”ou automóvel, “levamos à estalagem”, “cuidamos dele no albergue”,” damos alguns tostões ao estalajadeiro” e “voltamos no dia seguinte” para que não possa sentir-se abandonado quem de nós precisa.

As sete ações de que fala Lucas referem a totalidade, “ a plenitude” do nosso cuidado do próximo (Lc 10, 26-37). Como o samaritano da parábola, “fazemos tudo para o trazer para a vida”, sendo os segundos Jesus que dá a vida por todos. Assim é retomada a parábola pelos exegetas de hoje [1] .

3. O lugar do cuidado

As situações são cada vez mais ao pé da porta; a rede dos necessitados de cuidados avoluma-se, mas nós não esmorecemos, mas redobramos de caridade partilhada, fazendo o bem sem olhar a quem, num espírito de diligente discernimento que nos é dado. Não tentamos ser uma espécie de “varinha mágica” para beneplácito de todos, mas ocupamo-nos com as situações que deparamos como se fossem as únicas, pois sabemos que operamos em profícua fraternidade.

Cuidamos bem dos casos que são os nossos, sem deixar ofuscar a nossa ação pela grande teia de infelizes, sem ser ventilador de todos os quadrantes. Colocamo-nos ao cuidado daqueles que encontramos, sem nos deixarmos cair na inércia que se desculpa com os outros muitos. O nosso céu está também ao pé  da nossa porta com aqueles que nos refletem o rosto de Cristo, ainda desfigurado. Aí nos apercebemos que fazer o céu na terra é uma realidade, enquanto esperamos o novo céu e a nova terra. Anima-nos uma ponderação ativa que é fruto em nós d’Aquele que agora não vemos, mas  nos orienta para a  verdade sem falha, o Espírito que nos fortifica com o dom criterioso do discernimento. E isto no ambiente de trabalho, hospitalar ou não, ou nas estradas da proximidade continuidade ou fortuita.

4. O como é que conta

Quando um doente ou necessitado nos devolve o rosto do “homem das dores”, estamos então perante a possibilidade de crescer fazendo o bem; não estamos ali para lacrimejar a sorte, nem tecer jaculatórias que podem ser descabidas, mas estamos, dando-nos. Não somos os afortunados que não têm doença, mas os amigos que sofrem com quem sofre e sabem fazer silêncio, o grande remédio que hoje transfigurará muitos doentes.

Cuidar, então, será fazer silêncio diante do “homem” das dores que está connosco. Apertamos-lhe a mão, por nos ter doado Cristo. Então aprofundamos a nossa dimensão espiritual que nos desenvolve a dimensão vertical tão necessária hoje.

Atingimos o coração da arte de cuidar, pois ninguém cuida sem coração e  cuidaremos melhor e mais adequadamente, se procurarmos ser coerentes com o Espírito de Deus que em nós habita. No fundo, cuidar é saber amar, mesmo sem palavras. Num mundo da produtividade e super.atividade importa redescobrir a valia do encontro com quem sofre de modo que saiba e sinta que o seu sofrimento não é singular. Há alguém que está ao lado em atitude duma unidade efetiva mas, sobretudo, afetiva.

Concluindo, faço votos para que este Encontro produza abundantes frutos em toda a terra lusitana, e desejo que surjam e se consolidem equipas paroquiais de Pastoral de Saúde assim como verdadeira célula de ambiente nos hospitais e lugares onde se cuida da saúde, alicerçando o seu agir sempre na Palavra do Mestre e que se reúnam assiduamente para que o Espírito possa ser Ele a inspirar toda a nossa atividade.

Que a corresponsabilidade assumida, o modelo da intervenção, o “lugar” e o “como” possam ser redescobertos para uma pastoral da saúde interpretada como verdadeira arte que ão aceita amadorismos mas exige abertura ao Espírito e incarnação em todas as situações de fragilidade humana. E a Nova Evangelização também passará por aqui

+ Jorge Ortiga, A.P.

Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade, 28 de Maio de 2013, Fátima.



[1] Marcel DUMAS, La Nuóuvelle Évangélisation,França, Médiaspaul, 2012, 104-15.